Como se Faz um Filósofo
16 de Março de 2007 ⋅ Filosofia

Uma epopeia intelectual

Aires Almeida
Como se Faz um Filósofo, de Colin McGinn
Tradução de Célia Teixeira
Revisão de Desidério Murcho
Lisboa: Bizâncio, 2007, 252 pp.
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Ao iniciar inadvertidamente a leitura de Como se Faz um Filósofo dificilmente reparamos que estamos perante um livro de filosofia. Mais parece um romance de sabor autobiográfico acerca de um pacato rapaz, oriundo de uma família de mineiros do nordeste de Inglaterra, que imagina o seu futuro como baterista num grupo de rock. O estilo pessoal, solto e bem humorado ainda mais confirma a impressão de que estamos bem longe do universo escolástico e cerebral que, infelizmente, demasiadas vezes se associa à filosofia.

Os problemas filosóficos, longe de surgirem de modo artificioso, acabam por se impor de forma tão natural como a que se verificou ao longo da vida e do percurso intelectual do autor, que aqui nos conta a sua história pessoal. Problemas cujas soluções tradicionais e argumentos que as sustentam são discutidos e avaliados. Tudo isso numa linguagem surpreendentemente simples, clara e directa. Assim acontece com a discussão do argumento de Santo Anselmo acerca da existência de Deus, com problema do cepticismo acerca do mundo exterior e com os argumentos a favor e contra o determinismo. E é assim que começa a história de uma verdadeira epopeia intelectual, protagonizada por um rapaz como qualquer outro, mas que acabou por se tornar filósofo profissional. Esse rapaz é nada mais nada menos que Colin McGinn, prestigiado filósofo da mente, actualmente professor da Universidade de Rutgers, nos Estados Unidos, e que antes leccionou em Oxford, Londres e Califórnia.

McGinn é filho e neto de mineiros e ninguém na sua família tinha alguma vez frequentado uma universidade. Também ele parecia não estar destinado a isso. A prática desportiva e a música rock foram alguns dos seus primeiros interesses e aí depositava algumas das suas melhores expectativas para o futuro. Contudo, acabou mesmo por ser o primeiro membro da sua família a estudar na universidade, mais exactamente em Manchester, para aprender psicologia. Aí viveu, com alguns sacrifícios, num quarto frio e sem TV, arrendado a meias com um estudante de electrotecnia. Deslocava-se para as aulas numa velha bicicleta e, como não tinha dinheiro, ocupava o seu tempo a ler e conversar com colegas.

Tinha sido a leitura de Freud a levá-lo a estudar psicologia, apesar de os seus interesses estarem já voltados para a filosofia. Mas a filosofia, pensava ele, não dá emprego. Mesmo assim, depois de terminado o curso — que, de resto, não o entusiasmou muito — decidiu aprender filosofia a sério em Oxford, o centro filosófico mundial de então. Só após duas tentativas falhadas acabou por ser aceite, passando dois anos a aprender com empenho o que parecia ser tão fácil para muitos dos seus colegas. Aí ficou a conhecer filósofos tão prestigiados como Strawson, Ayer, Hare e Dummett, mas ficou sobretudo impressionado com as aulas de um jovem de cabelos longos, o promissor filósofo Gareth Evans, infelizmente falecido em 1980 com apenas 34 anos de idade. Foi também em Oxford que contactou com as mais recentes e estimulantes ideias — vindas do outro lado do Atlântico — de Kripke e Putnam.  Quase no final da sua pós-graduação decidiu, sem grande convicção, concorrer ao importante John Locke Prize, cujos vencedores se tornam normalmente pequenas celebridades no animado universo filosófico de Oxford. Para sua surpresa, venceu o prémio, ganhando as 150 libras em jogo.

Mas, muito mais importante do que o prémio pecuniário, as portas para se tornar filósofo profissional pareceram-lhe, pela primeira vez, abertas. E tinha razão. Por isso considera esse um dos momentos mais marcantes da sua viva. A sua explicação para o facto de ter ganho o prémio é surpreendentemente simples e constitui uma excelente lição. Diz ele:

"penso que aquilo que aconteceu foi que a minha relativa inexperiência jogou a meu favor, pois tive de lutar para encontrar as minhas próprias respostas às questões colocadas, por falta de conhecimento acerca do que outros disseram sobre isso. Em vez de misturar as minhas respostas com demasiados conhecimentos em segunda mão retirados da bibliografia filosófica, vi-me obrigado a desenvolver as minhas próprias ideias, mostrando assim uma capacidade para assumir um raciocínio filosófico original."

Na altura pareceu-lhe que se tratava apenas de sorte e que tal iria tornar-se patente em breve, mas o sucesso nas provas de pós-graduação e o incentivo de pessoas como Ayer e Strawson deixaram-no mais confiante.

Passado pouco tempo surgiu a possibilidade de ocupar uma vaga no University College London, o que, com muita pena sua, o levou a abandonar Oxford. Depois disso passou dois semestres na Califórnia, onde contactou com filósofos tão brilhantes como Kaplan e Donnellan, e mais tarde regressou a Oxford, desta vez para ocupar o lugar que antes tinha pertencido a Gareth Evans. Por essa altura Oxford já não possuía, para ele, os mesmos encantos de há alguns anos e os Estados Unidos pareciam-lhe então filosoficamente mais estimulantes. Até que recebeu o convite de Jerry Fodor para leccionar na Universidade de Rutgers, perto de Nova Iorque. Depois de alguma hesitação acabou por se mudar para os Estados Unidos, passando a viver em Nova Iorque.

Não se pense, contudo, que McGinn se limita a desfiar, com algumas ideias filosóficas pelo meio, uma aborrecida sucessão de nomes e lugares associados ao seu percurso académico e profissional. Longe disso! Não se trata da vida de uma espécie de semideus que habita o reino superior das ideias. Em vez de uma mente contemplativa e taciturna, encontramos um ser humano de carne e osso, bem humorado, que vive no mundo das pessoas comuns. Um ser humano que pratica bodyboard, toca bateria e que, aquando da sua passagem pela Universidade da Califórnia, fica durante algum tempo viciado em jogos de vídeo; que compra um Chevy Impala de dezassete anos e se deleita a conduzi-lo na imensidão de Los Angeles; que, ainda jovem, usa cachimbo para ver se fica tão inteligente como Bertrand Russell, o seu ídolo da altura, segundo McGinn comparável a John Lennon.

McGinn fala-nos de um ser humano que vai ao cinema e se interessa por literatura, mostrando que também isso é importante na formação de um filósofo. Utiliza até o exemplo do filme Matrix para introduzir o problema do cepticismo acerca do mundo exterior. E conta-nos a sua descoberta, ainda jovem, das ideias de Chomsky, que expõe com uma clareza notável, tal como o faz em relação à teoria das descrições de Russell. Pelo caminho desfaz alguns mitos acerca da vida académica, ensinando-nos também alguma coisa nessa matéria.

Todavia, mais importante do que tudo isso, é que Como se Faz um Filósofo constitui uma verdadeira introdução à filosofia do século XX. Alguns dos mais discutidos problemas filosóficos desse século são aqui apresentadas e discutidos, tal como se colocaram pela primeira vez ao autor. Da lógica e epistemologia à filosofia da linguagem e à filosofia da mente, os problemas são formulados e discutidos de forma brilhante e completamente acessível. As ideias de Frege, Russell, Wittgenstein, Grice, Quine, Davidson, Kripke, Putnam e Nagel, são introduzidas de forma elegante e rigorosa. Muitas vezes McGinn diz-nos que não concorda com as teorias apresentadas e mostra porquê, desafiando-nos sempre a avaliá-las criticamente e dando um exemplo perfeito do que é a filosofia em acção.

O livro termina com McGinn a conduzir-nos pelos domínios da metafilosofia e da estética. No primeiro caso, trata-se de uma preocupação em parte relacionada com a sua actividade de professor de filosofia. Avalia algumas das teorias disponíveis acerca da natureza da filosofia, de Platão ao positivismo lógico e à ideia de que a filosofia é uma espécie de "ciência imatura", defendendo ideias de certo modo provocadoras. No segundo caso, ocupa-se principalmente das relações entre a literatura e a ética, utilizando como exemplo algumas das obras literárias que mais aprecia: Lolita, de Nabokov, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, Billy Budd, de Melville e Frankenstein, de Mary Shelley.

Não são muitas as obras destinadas a leigos que nos conseguem fascinar de forma tão imediata e irresistível como este. Fascínio que nos prende da primeira à última linha e que é, como poucos, capaz de despertar verdadeiras vocações filosóficas. O seu segredo consiste em nos mostrar alguém que, a partir de situações comuns da sua própria vida, começou naturalmente a filosofar, até se tornar um filósofo profissional. Mostra-nos, assim, não só como se faz um filósofo, mas cima de tudo, como se faz filosofia.

É por isso que há um abismo entre uma introdução à filosofia como esta e outras que também o procuram fazer contando uma história, como é o caso do popular O Mundo de Sofia. Enquanto McGinn nos mostra como se faz realmente filosofia, Jostein Gaarder oferece-nos uma sebenta simplista e estereotipada; enquanto McGinn nos estimula a pensar por nós mesmos, Gaarder convida-nos a contemplar as ideias alheias; enquanto McGinn nos dá a conhecer as teorias e argumentos que actualmente se discutem, Gaarder abre-nos as portas do museu. Além disso, McGinn escreve muito bem, num tom bastante descontraído.

Aires Almeida
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