Enciclopédia da Morte e da Arte de Morrer
27 de Abril de 2005 ⋅ Livros

E depois do adeus

Desidério Murcho
Enciclopédia da Morte e da Arte de Morrer, coord. de Glennys Howarth e Oliver Leaman
Lisboa: Quimera, 2004, 570 pp.

A morte parece tanto mais absurda quanto mais absurda for a vida, terá Sartre afirmado, e com razão. Contudo, a história da humanidade revela que as diversas tradições e religiões tendem a discordar do filósofo existencialista, pois abordam o problema do sentido da vida ao contrário: procuram dar sentido à vida pela via inesperada de dar sentido à morte. É assim que as tradições religiosas do Livro anunciam uma vida eterna de bem-aventurança, ao passo que os budistas anunciam que a bem-aventurança, o nirvana, é a libertação do ciclo dos renascimentos sucessivos e o regresso à verdadeira realidade: o nada. Epicuro tentou convencer os seus concidadãos de que o medo da morte é irracional, com o argumento falacioso de que quando a morte chega nós já não somos e enquanto nós somos, não estamos mortos. Todavia, a morte mantém uma presença viva nas tradições e preocupações humanas, sendo para a maior parte das pessoas a verdadeira razão do seu apego à religião: têm medo do que vem (ou do que não vem) depois do adeus.

Publicada com um cuidado editorial pouco habitual entre nós, e que merece o nosso carinho, esta enciclopédia será sobretudo do interesse de sociólogos, antropólogos e pessoal médico. A obra aborda vários temas relacionados com as práticas e instituições humanas associadas à morte, na maior parte dos casos de um ponto de vista histórico, sociológico e antropológico, mas explora também aspectos filosóficos, médicos e artísticos. Foi originalmente publicada pela Routledge, em 2001, e redigida por mais de cem autores. Os coordenadores (uma socióloga e um historiador da filosofia) procuraram oferecer uma perspectiva abrangente dos vários estudos relacionados com a morte. Os mais de quatrocentos artigos abrangem temas como o aborto, o absurdo da vida, os agentes funerários, o apocalipse, o assassínio, o ateísmo, a autópsia, o inferno, o luto, a ética, a pena de morte, o medo, a guerra, a violação e a vida depois da morte, entre muitos outros. A enciclopédia é acompanhada de uma introdução dos organizadores, uma lista de artigos, uma bibliografia e dois índices analíticos (onomástico e remissivo). Nesta edição houve o cuidado de acrescentar alguns factos legislativos referentes a Portugal, entre parêntesis rectos.

Alguns artigos são informativos, outros relatam meros lugares-comuns. Entre os informativos, alguns destacam-se por uma abordagem que surpreende o leitor:

"A arquitectura da morte e dos mortos é tão diversificada como a dos vivos. Tal como as atitudes perante a morte mudaram ao longo do tempo e são diversas nas várias culturas, também as construções erigidas para alojar ou celebrar os mortos se têm desenvolvido e evoluído. Estas construções espelham não só a relação com a morte, mas também a relação com a sociedade da qual os indivíduos provêm, e servem dois grupos essenciais de utilizadores: os vivos e os mortos." (pág. 33)

O subtil humor ao estilo de Gabriel García Marquéz presente nestas linhas é infelizmente raro na enciclopédia. Os artigos com conteúdo filosófico são correctos mas por vezes superficiais, mas outra coisa seria talvez difícil numa obra desta natureza. Os artigos menos conseguidos são os de natureza sociológica e antropológica. Raramente estas disciplinas, tal como estão representadas nesta enciclopédia, fornecem uma interpretação enriquecedora dos factos. Teria por isso sido desejável que os autores se tivessem atido à descrição de factos pouco conhecidos (pelo menos para o leitor comum) das várias culturas humanas, deixando ao leitor a sua interpretação.

Não é fácil saber se este tipo de obra terá muitos leitores. Como ensaio, não se aproxima do Dicionário de Suicidas Ilustres, de J. Toledo (Editora Record, Brasil), que se lê compulsivamente. Como obra de referência, não poderá ser adquirida na esperança de precisarmos dela quando estamos prestes a morrer. Também não é particularmente iluminante para quem estude a sociologia e antropologia da morte. Seria irónico (mas cruel, dado o cuidado evidente da edição portuguesa) se se revelasse um nado-morto editorial.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (11 de Dezembro de 2004)
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