Isaac Newton
2 de Outubro de 2004 ⋅ Livros

O último alquimista

Desidério Murcho
Isaac Newton, de James Gleick
Londres: Fourth Estate, 2003, 288 pp., £7.99
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De James Gleick estão publicadas entre nós as obras "Cada Vez Mais Rápido" (Temas e Debates, 2003), "Feynman: A Natureza do Génio" (Gradiva, 1993) e "Caos" (Gradiva, 1989). Este novo livro não desilude. Rigoroso mas acessível, sintético mas abrangente, Gleick oferece-nos uma biografia surpreendente de Newton. Fugindo do estilo sonolento da biografia académica mas sem cair na superficialidade da biografia popular, o autor oferece-nos um retrato dinâmico mas fiel, amplo mas com suficiente pormenor, do biografado. Para quem conhece "A Obra ao Negro", de Marguerite Yourcenar (Dom Quixote, várias edições), um dos melhores romances do séc. XX, ficará surpreendido ao verificar como certas passagens desta biografia são estranhamente semelhantes às inesquecíveis páginas que descrevem as cogitações de Zenão. Efectivamente, Gleick escreve com verve e um estilo impressionista, logo desde o primeiro parágrafo: "Isaac Newton disse que pôde ver mais além porque estava aos ombros de gigantes, mas não acreditava nisso. Nasceu num mundo de trevas, obscuridade e magia; conduziu uma vida estranhamente pura e obsessiva, sem pais, amantes ou amigos; pelejou amargamente com grandes homens que se atravessaram no seu caminho; esteve pelo menos uma vez à beira da loucura; escondeu o seu trabalho em secretismo; e contudo descobriu mais no que respeita ao núcleo essencial do conhecimento humano do que qualquer outra pessoa antes ou depois dele."

A vida de Newton pautou-se desde cedo pela curiosidade extrema em relação ao funcionamento do mundo. Nascido em Lincolnshire, no Natal de 1642, o seu pai morreu antes do seu nascimento. A sua família era pobre, mas não indigente. Newton foi enviado para a escola e depois para a Universidade de Cambridge por revelar talento e um singular alheamento pelos aspectos práticos da vida: foi multado por deixar os seus rebanhos invadir os terrenos alheios e por não cuidar da cerca da propriedade da família. Em Cambridge, não fez amigos. Só muito mais tarde começou a escrever especificamente para dar a conhecer as suas teorias. Durante anos, escreveu em segredo para si mesmo, obcecado com marés, órbitas, a natureza da luz, alquimia e teologia. Escreveu longamente e em segredo sobre o dogma da Santíssima Trindade, que considerava uma patranha sem sustentação bíblica nem racional. Testou teorias alquímicas e tornou-se o maior alquimista do seu tempo. Foi sempre firmemente crente.

A divulgação das suas ideias começou por insistência alheia. A Royal Society, acabada de formar, insistia em publicar as suas cogitações. E desde logo um dos traços fundamentais da sua personalidade veio ao de cima: colérico, odioso, com a mania da perseguição, cedo procurava cilindrar qualquer pessoa que se lhe atravessasse no caminho, como aconteceu mais tarde com Leibniz. Nem o seu alheamento juvenil relativamente aos aspectos práticos da vida o resgatou de ser odiento: manipulou e procurou por todos os meios obter um cargo que lhe valesse muito dinheiro em Londres — e consegui-o. Morreu rico e não deixou qualquer testamento. E, contudo, o seu espírito continuou sempre a procurar a compreensão das coisas, a sua genialidade matemática e física continuou a premiá-lo. Inaugurou o método moderno da ciência, aliando firmemente a matemática à física e esta à experimentação cuidadosa — mas foi o último cientista que não distinguia a física da astrologia, da alquimia e da teologia.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Originalmente publicado no jornal Público (20 de Março de 2004)
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