Essays
24 de Abril de 2005 ⋅ Livros

Paixão pela verdade

Desidério Murcho
Essays, de George Orwell
Organização de John Carey
Londres: Everyman's Library, 2002, 1369 pp.
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George Orwell é o nome literário de Eric Blair (1903-1950), autor conhecido entre nós sobretudo graças a O Triunfo dos Porcos, de 1945 (Europa-América) e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de 1949 (Antígona). Mas Orwell foi antes de mais um ensaísta popular. Pequenas crónicas e recensões, publicadas na imprensa inglesa, garantiram-lhe um lugar de respeito nas letras. E esse lugar é merecido por duas razões: a precisão e elegância do seu estilo, e a sua paixão pela verdade.

O ensaio "A Política e a Língua Inglesa" é um dos mais famosos de Orwell e merecia ser amplamente divulgado entre nós. Poderia contribuir para diminuir a má influência que tem o estilo obscurantista e manipulador, já denunciado por Eça de Queirós, na psique portuguesa. Este ensaio oferece uma análise lúcida e exemplar da relação entre a claridade da linguagem, a política e o pensamento. Das seis regras para uma escrita lúcida apresentadas por Orwell destaca-se a última, um bom símbolo da sua perspicácia: "Desobedeça a qualquer das outras regras de preferência a dizer qualquer coisa evidentemente bárbara". O estilo defendido e praticado por Orwell é preciso e directo, sem ornamentos pomposos (que prostituem a comunicação e visam engrandecer o próprio autor). Como refere o organizador deste volume, a simplicidade deste estilo é, contudo, ilusória: é muito difícil escrever como Orwell.

O ensaio "Reflexões sobre Gandi" começa com estas palavras sábias: "Os santos devem ser considerados culpados até se provar que são inocentes". Orwell desconfiava instintivamente de todos os políticos, sobretudo dos mais populares. Mas este ensaio mostra bem o outro aspecto central da sua obra ensaística: a paixão pela verdade. Apesar de admitir a sua animosidade relativamente a Gandi, reconhece-lhe virtudes e avalia com inteligência e imparcialidade a sua actuação política. Esta paixão pela verdade, aliada à recusa do lugar-comum e do pensamento pensado por cabeça alheia, confere aos ensaios de Orwell uma actualidade surpreendente. Em 1939, numa recensão do livro O Poder: Uma Nova Análise Social, de Bertrand Russell, Orwell declara: "Se algumas páginas do livro do Sr. Bertrand Russell parecem vazias, isso é unicamente porque descemos a um ponto tal que a reafirmação do óbvio é o primeiro dever dos homens inteligentes." Palavras que se aplicam hoje, quando é necessário relembrar que uma política baseada na mentira, na injustiça social e no falso moralismo serôdio não devia permitir ganhar eleições.

Foi a sua paixão pela verdade que o levou a reconhecer e recusar desde cedo o totalitarismo comunista. Defensor da liberdade e da racionalidade, da decência e da verdade, Orwell é um modelo do ensaísta que não cede à tentação do pensamento em piloto automático. Razão pela qual nunca escondeu os problemas da democracia: o populismo, a demagogia e o capitalismo bárbaro.

Este volume gracioso, apesar das suas quase mil e quatrocentas páginas em papel-bíblia, conta com a organização e introdução de John Carey, Professor Emérito de Literatura Inglesa na Universidade de Oxford e membro da Academia Britânica. Uma edição portuguesa de uma selecção destes ensaios seria fundamental para o reconhecimento público da importância de Orwell, do seu estilo e das suas ideias. Poderia até evitar a histeria salazarista endémica, que nos faz estar sempre a um passo do fascismo, como Mário Soares recentemente reconheceu — com perspicácia orwelliana.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (11 de Dezembro de 2004)
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