O Atiçador de Wittgenstein
27 de Fevereiro de 2004 ⋅ História da filosofia

A sensação filosófica do século

Leônidas Hegenberg
O Atiçador de Wittgenstein, de David Edmonds e John Eidinow
Lisboa: Temas e Debates, 2003, 294 pp., 22,05 €

Em 1976, traduzindo Unended Quest, de Karl Popper (que a Editora Cultrix, de São Paulo, distribuiria logo depois, com o título Autobiografia Intelectual), tomei conhecimento de uma discussão que Popper manteve, em 1946, com Wittgenstein.

Como sabido, Wittgenstein, em seu famoso Tractatus, defendeu a tese de que as questões filosóficas não passavam de problemas lingüísticos. A tal posição, Popper se opunha frontalmente. Em vista disso, o Moral Science Club, da Cambridge University, convidou Popper a pronunciar conferência em que examinaria a questão da existência de problemas filosóficos.

Dez minutos após o Início da palestra, Wittgenstein, brandindo o atiçador, apanhado na lareira, aproximou-se do rival e bradou "Popper, you are wrong!". Nesse momento, alguém (Bertrand Russell?) gritou "Wittgenstein, put that poker down at once!".

A um primeiro olhar, incidente desse gênero não parece material adequado para chegar às dimensões de um livro. Todavia, Edmonds e Eidinow, jornalistas da BBC, souberam reconstituir o episódio com graça, relatando interessantes aspectos da vida dos dois litigantes e, indiretamente, da Viena e dos judeus que ali viviam.

Wittgenstein e Popper, frutos de uma Áustria que começava a desmoronar, diante das forças nazistas, acabariam lecionando na Inglaterra. Suas idéias teriam notória influência no mundo acadêmico. São, pois, figuras que permitem retratar, de modo apropriado, aspectos fundamentais da vida intelectual que dominou o final do séc. XX.

Popper e Wittgenstein foram educados segundo linhas cristãs e não manifestaram grande interesse pelas suas raízes judaicas. Ambos ficaram deveras surpreendidos quando as forças nazistas os perseguiram. Wittgenstein, filho de pais aristocráticos e muito ricos, morava em palácio em que havia seis pianos. Para salvar-se e aos irmãos, gastou quase toda a fortuna da família, emigrando para a Inglaterra. Os pais de Popper, ao contrário, eram pequenos burgueses. A fim de fugir dos nazistas, foi para a Nova Zelândia, radicando-se, mais tarde, na Inglaterra.

Wittgenstein, pelo menos em Cambridge, era visto como figura excelsa, digna de todos os salamaleques. Todos o achavam um belo homem. Seus maneirismos eram apreciados e copiados. Até seu homossexualismo parecia "apropriado". Suas palavras eram recebidas com encantamento. O Tractatus era visto como a sensação filosófica do século. Em oposição, Popper, 13 anos mais moço, tinha uma aparência comum. Seu livro mais notável (Logik der Forshung) ainda não havia sido divulgado fora da Alemanha e da Áustria. Além disso, o traço que o caracterizava era o senso comum — inclusive o fato de ter uma esposa...

Convém notar que ambos detestavam ser contrariados. Eram intolerantes e agressivos. Popper chegava a ser grosseiro ao enfrentar opiniões divergentes. Wittgenstein, embora parecendo um tanto alheio ao que acontecia em volta, inspirava terror em seus ouvintes — não raro conduzindo os oponentes às lágrimas. Recorde-se que três irmãos de Wittgenstein se suicidaram e ele próprio falava constantemente em morte. Jim Holt, em comentário para o The New York Times (30 Dez 2001), sublinha que Wittgenstein foi impedido de lecionar em uma escola da região alpina por haver agredido um aluno.

Na reunião do Moral Science Club, Popper apresentava-se como opositor que tencionava contestar a posição de Wittgenstein. Este sustentava que a filosofia nada mais era do que uma porção de enganos linguísticos. Para Popper, era inconcebível admitir que a filosofia não passasse de terapia destinada a libertar-nos das confusões provocadas por mau emprego da língua. Em vez de ocupar-se de problemas linguísticos, dizia ele, a filosofia devia enfrentar problemas — como as relações corpo-mente, a natureza da ciência e a estrutura social. Tanto Wittgenstein quanto Popper estavam muito animados na reunião do Clube, especialmente porque o mentor de ambos, Bertrand Russell, estava presente — quase como um juiz capaz de decidir quem estaria certo... Popper e Wittgenstein se enfrentavam para saber quem ficaria no trono do ilustre "pai". Não causa espanto, pois, que o debate acabasse gerando o incidente do atiçador...

Se indagarmos quem venceu a "batalha do atiçador", creio que a resposta pode ser "Os dois". De um lado, cabe dizer que Wittgenstein se saiu melhor. De fato, por volta de 1997-98, ele ainda figurava entre os vinte maiores filósofos de todos os tempos (só perdendo para figuras do porte de Platão, Aristóteles, Kant, Descartes e Hume), ao passo que Popper sofreria, posteriormente, uma queda de prestígio, facilmente constatada, nesses anos de 97-98, no cada vez menor número de livros e artigos que a ele ainda aludem. De outro lado, porém, Popper venceu. Com efeito, os estudiosos agem como se os problemas filosóficos são reais, nunca reduzíveis a jogos verbais.

Encerrando, cabe dizer que vários trechos filosóficos deste livro dos jornalistas da BBC têm o mérito de cativar leigos e não desgostar especialistas. Uma leitura mais ou menos divertida. Como nota final, vale a pena ressaltar que, dando crédito a Edmonds e a Eidinow, o incidente do atiçador foi descrito de maneira imprópria na autobiografia de Popper.

Leônidas Hegenberg
Instituto Brasileiro de Filosofia
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