O Atiçador de Wittgenstein
6 de Março de 2004 ⋅ História da filosofia

Popper contra Wittgenstein

Desidério Murcho
O Atiçador de Wittgenstein, de David Edmonds e John Eidinow
Lisboa: Temas e Debates, 2003, 294 pp., 22,05 €

O incidente levanta ainda hoje discussões acaloradas. Na única situação na qual dois dos maiores filósofos de origem austríaca (Popper e Wittgenstein) estiveram juntos, as coisas não correram bem. Popper apresentava uma conferência no King's College de Cambridge, no Clube de Ciência Moral, sobre a existência ou não de problemas filosóficos genuínos. Wittgenstein era o presidente do Clube e, como é sabido, defendia veementemente que não havia quaisquer problemas filosóficos genuínos: era tudo uma questão de confusões linguísticas, quebra-cabeças sem qualquer substância. Popper discordava. Anos depois, na sua autobiografia, Popper narrou o acontecimento de forma algo parcial. Aquando da morte de Popper, o jornal britânico Times Literary Supplement descreve o incidente tal como Popper o apresenta — e estalou a controvérsia, em inúmeras cartas apaixonadas. Os autores deste livro, intrigados com tanta paixão filosófica, decidiram pôr tudo em pratos limpos e investigar a verdade da coisa. O resultado, é um livro admirável, biográfica e historicamente informativo, de boa leitura e filosoficamente rigoroso.

Do modo como Popper descreve a coisa, foi assim: mal começou a falar, foi violentamente interrompido por Wittgenstein, que se recusava a aceitar a existência de problemas filosóficos genuínos. Wittgenstein desafia Popper a dar exemplos de problemas filosóficos genuínos — mas Popper estava preparado e levava uma lista de vários problemas filosóficos genuínos, como o problema da indução, a questão de saber o que é uma regra moral, etc. A discussão começou a aquecer, já com Wittgenstein de pé a gritar e a brandir ameaçadoramente o atiçador da lareira. No desfecho dramático, Wittgenstein exige que Popper dê um exemplo de um princípio moral (pois Wittgenstein acha que não há tal coisa) e Popper remata: "Não ameaçar conferencistas convidados com um atiçador". Wittgenstein sai disparado da sala e bate com a porta.

Tudo isto aconteceu em apenas cerca de 10 minutos. Meio século depois, ainda desperta discussões acaloradas. O que está em jogo são não apenas duas abordagens muito diferentes da filosofia, mas também duas personalidades difíceis, casmurras e pouco dadas à disputa civilizada. Mas o que provoca paixões exacerbadas é saber até que ponto Popper mentiu deliberadamente, ou se guardou apenas uma memória falsa do incidente. Para começar, o comportamento grosseiro de Wittgenstein era comum; geralmente, nas reuniões do clube, o conferencista quase não falava. Dizia apenas três ou quatro coisas e era interrompido por Wittgenstein, que continuava a falar sozinho. Quando o conferencista não se encolhia perante Wittgenstein, este saía da sala, muitas vezes de forma ruidosa. Há até quem diga que nunca viu Wittgenstein fechar uma porta civilizadamente. Depois, as testemunhas oculares ainda vivas e os diferentes relatos registados do encontro não confirmam inteiramente a história tal como Popper a contou. Wittgenstein brandiu ameaçadoramente o atiçador — mas costumava fazê-lo frequentemente. Saíu intempestivamente da sala, mas fazia-o muitas vezes, e muitas outras vezes nem sequer assistia às conferências do clube do qual era presidente. Há quem afirme que o atiçador estava incandescente, mas isso é falso. E há quem afirme que foi Russell, igualmente presente na sala, quem mandou Wittgenstein largar o atiçador.

O que os autores deste livro delicioso fazem é, a um tempo, satisfazer a curiosidade do leitor e guiá-lo pela história dos dois personagens principais. Isto conduz-nos a páginas muito informativas, do ponto de vista histórico, tanto relativamente ao passado dos dois filósofos, como relativamente à própria Europa, a braços com uma guerra absurda. Ficamos a conhecer mais de perto o Círculo de Viena e o seu fundador, Moritz Schlick. A este respeito, é arrepiante assistir à ascenção nazi na Áustria, com o apoio activo das universidades. Quando Schlick foi assassinado, os seus colegas e a imprensa começaram a circular a história de que o assassinato era político porque ele era comunista e amigo de judeus, quando na realidade foi assassinado por um desequilibrado mental que já o havia ameaçado várias vezes e contra o qual Schlick tinha pedido protecção policial. Mais significativo ainda foi o facto de a disciplina de filosofia da ciência, que Schlick leccionava, ter sido encerrada com a sua morte, declarando o departamento que não tinha necessidade de investigações fúteis sendo mais importante dedicar-se à história da filosofia. Mais aterrador ainda é o facto de este tipo de mentalidades nazis não ter desaparecido com a derrota da Alemanha. Anos depois, quando Popper já era famoso, depois de ter fugido da Áustria para a Nova Zelândia, onde deu aulas antes de ir para a London School of Economics e de lhe ser concedida a cidadania britânica, a Universidade de Viena convidou Popper para regressar à sua cidade natal, o que ele teria feito de bom grado. Contudo, as condições eram aterradoras: tudo o que ele escrevesse teria de ser previamente aprovado pelo ministro da educação, antes de ser publicado. Popper, evidentemente, recusou, e assim passou à história como um filósofo britânico de origem austríaca, e não como um filósofo austríaco. Quando se pensa na chamada "fuga de cérebros" da Europa talvez seja bom pensar se isso não acontece porque o ambiente académico europeu é sufocante, dado ter sido formado por quem não fugiu da guerra — ou por ser nazi, ou por ser tão anódino que não era perigoso para os nazis.

Com grande rigor histórico, biográfico e filosófico, este é um livro que ensina, ao mesmo tempo, alguns elementos simples de filosofia. O único deslize do livro é misturar argumentos e afirmações, quando explica a diferença entre o que só pode verificar-se empiricamente e o que não carece de tal verificação. A leitura é recomendável para o leitor absolutamente alheio à filosofia, e é quase obrigatória para estudantes e professores de filosofia, cuja curiosidade sobre este pedaço da nossa história pode agora ser satisfeito.

Desidério Murcho
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