História da Ciência
16 de Dezembro 2005 ⋅ Livros

De Copérnico a Feynman

António Fonseca
História da Ciência: De 1543 ao Presente, de John Gribbin
Mem-Martins: Europa-América, 2005, 608 pp.

Quando pegamos pela primeira vez neste substancial volume de 600 páginas, que nos promete contar a história da ciência ocidental dos últimos 500 anos, somos assaltados pela inevitável vontade de o ler de um só fôlego. Logo na capa, na edição da Penguin, deparamos com uma belíssima reprodução renascentista de "Os Geógrafos", uma imagem fortemente ilustrativa que nos devolve a curiosidade laboriosa dos descobridores e paixão do desconhecido própria da descoberta científica. O pequeno formato e o baixo preço são também factores convincentes para a aquisição do livro e incentivos para uma leitura atenta e prazenteira. O contéudo articula-se em etapas cronológicas que nos guiam e convidam a uma viagem pelo tempo e à descoberta particular da vida dos cientistas e da influência que ela tem no próprio evoluir da ciência, desde Copérnico a Feynman e a outros protagonistas da ciência contemporânea.

John Gribbin é um prolífico escritor de divulgação cientifica, autor de quase uma centena de livros, de entre os quais se destaca À Procura do Gato de Schrödinger e de algumas novelas de ficção cientifica. È doutorado em astrofisica pela Universidade de Cambridge e mantém actividade como astrónomo na Universidade de Sussex. Fez parte da equipa que mediu a idade do Universo e ainda estudante foi o primeiro investigador inglês a receber o prémio anual da Gravity Research Foundation Americana. Desenvolveu uma intensa actividade de divulgador na rádio e na televisão da BBC e é frequentemente requisitado na qualidade de consultor para a elaboração de programas de investigação em ciência.

O livro divide-se em cinco grandes compartimentos temporais, sucessivos no tempo, na forma de viver no mundo e nas ferramentas disponíveis para o conhecer: A Renascença, Os Fundadores, O Iluminismo, "The Big Picture" e os Tempos Modernos. Estes compartimentos são delimitados pelo conhecimento e paradigmas próprios de cada época e pela biografia dos protagonistas. Ao longo deles é patente o carácter construtivo do conhecimento científico, do trabalho árduo com que as teorias são edificadas, como dependem do registo laborioso e persistente, da minúcia e da atenção, dos caprichos e das oportunidades e acima de tudo das condições de observação dos fenómenos naturais, da tecnologia. Trata-se de um livro sobre homens-cientistas, com uma ênfase na sua biografia pessoal. Nenhum nome é citado sem a referência à data de nascimento e na esmagadora maioria à da morte. Abundam histórias de vida, de família e de influência, do papel das instituições e dos seus líderes. Desta forma, conhecemos em mais detalhe Copérnico, Tycho Brahe, Kepler, Galileu, Descartes, Hooke, Newton, Lineu, Cuvier, Lavoisier, Laplace, Benjamin Thompson, Lamarck, Darwin, Wallace, Lord Kelvin, Maxwell, Mendeleyev, Boltzman, Faraday, Einstein, Weneger, Curie, Bohr, Rutherford, Plank, Schrödinger, Mendel, Crick e Watson e muitos mais outros seus contemporâneos que de uma forma ou de outra desempenharam um papel crucial no avanço científico.

Apesar de ser sobre ciência, não se trata de um livro de ciência, porque de facto não abundam em pormenor a descrição das próprias descobertas nem o seu impacto nos avanços em cada ramo. Sendo um livro escrito por um astrónomo é patente o enfoque na física e na astronomia em particular, mas apesar disso os pivots da narrativa são os cientistas que ficaram na história e por isso todas as àreas são abrangidas, à excepção da medicina e do conhecimento do corpo humano. Da química à biologia, passando pela geografia, assistimos à influência que as descobertas em cada ramo podem exercer no avanço ou no recuo numa outra àrea. Especialmente curiosa é a longa caminhada a que assistimos na descoberta do funcionamento da Terra. Neste tema particular, tanto a física como a química e a biologia desempenham à vez um papel fulcral, iniciado na especulação da idade do nosso planeta, perigosamente ligada à religião e aos ditames da Bíblia, até à moderna teoria da tectónica de placas só confirmada quase no final do século passado.

Apesar de ser sobre ciência, não se trata de facto de um livro cientificamente universal, no sentido transnacional que a ciência hoje em dia toma. Apesar do evidente esforço pela demarcação dos personagens mais importantes, é dada, do meu ponto de vista, demasiada evidência aos protagonistas e instituições anglófonas, como a Royal Society, a Royal Intituition, o Instituto Cavendish e outros, ficando na leitura a vaga impressão de que após o Renascimento e com a singular excepção de alguma contribuição francesa no Iluminismo e americana nos tempos mais recentes, nada se fez de relevante em ciência no passado que não tivesse partido das ilhas britânicas.

Apesar desta pequena pecha, compensada pela acutilância com que os pormenores biográficos e familiares dos maiores cientistas ingleses são abordados, a história é extensa e abrangente e por isso podemos nela descobrir o avanço civilizacional que representou e que continua a representar, o conhecimento da natureza que hoje quase ingenuamente temos como simplesmente adquirido. É um livro que vale a pena ler a quem goste de ciência e para se iniciar aos pormenores da sua história.

António Fonseca
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