O Significado de Tudo, de Richard P. Feynman
7 de Maio de 2004 ⋅ Livros

Liberdade de pensamento

Célia Teixeira
O Significado de Tudo: Reflexões de um cidadão-cientista, de Richard P. Feynman
Tradução de José Luís Fachada
Gradiva, 2001, 129 pp.
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Richard Feynman, vencedor do prémio Nobel da Física em 1965, tem sido uma das grandes apostas editoriais da Gradiva, a qual já nos presenteou com vários livros deste autor, todos publicados na colecção "Ciência Aberta". "O significado de Tudo: Reflexões de Um Cidadão-Cientista" é a sua nova aposta.

Este livro consiste numa série de três conferências sobre o tema "Um Cientista Olha para a Sociedade". Nelas o autor fala-nos das suas preocupações sociais e da ligação entre a ciência, aquilo que conhece melhor, e a religião, a política e a sociedade em geral. Apesar de as conferências terem sido proferidas em 1963, os temas são ainda bastante actuais. O tópico comum a todas as conferências é o apelo inteligente e preocupado à liberdade de pensamento. Se há algo que qualquer pensador valoriza, se há algo de verdadeiramente importante para o desenvolvimento do conhecimento, em particular, e para o desenvolvimento de uma sociedade, em geral, é a liberdade de pensamento. Mas, por liberdade de pensamento não se deve entender a possibilidade de pensarmos sobre o que quisermos e como quisermos, não respeitando regras nem critérios. Claro que também podemos fazer isso, mas isso é absolutamente irrelevante para o incremento do conhecimento. Por liberdade de pensamento Feynman entende a possibilidade de exercermos o nosso raciocínio crítico. A possibilidade de podermos pensar criticamente sobre tudo, de podermos duvidar de tudo, com método, com rigor, com clareza, com honestidade, com coerência e com perseverança, sem medo de falhar e de expor as nossas ideias ao controlo e crítica racional. Afinal, "não há nada mais excitante do que a verdade, a reles paga do cientista, descoberta pelos seus penosos esforços". E o mesmo se aplica a qualquer ramo do conhecimento, quer se trate de ciência, de filosofia, de história ou do que quer que seja.

"Olhando para trás para os piores períodos, parece-nos sempre que foram tempos em que havia pessoas que acreditavam em algo com fé e dogmatismo absolutos. E levavam tão a sério essas crenças que insistiam em que toda a gente concordasse com elas. E em seguida faziam coisas que estavam em contradição directa com essas próprias crenças apenas para manterem que o que haviam afirmado era verdadeiro." É contra esta atitude dogmática e obscurantista que Feynman nos alerta, o pior inimigo da ciência e do conhecimento em geral. Nem a religião nem os governantes nem ninguém tem o direito de promover algo como se fosse a verdade absoluta, apenas porque isso lhes convém. E, acima de tudo, ninguém tem o direito de obrigar os outros a acreditarem nessa "verdade", a favor da qual não apresentaram nem factos nem argumentos. É esse tipo de atitude que está por detrás dos piores crimes contra a humanidade e contra o conhecimento, e é esse tipo de atitude que Feynman pretende combater e desmascarar.

As reflexões de Feynman são boas e edificantes, recomendáveis a todos, cientistas ou não. Infelizmente a edição está longe de as honrar. A tradução apresenta muitas falhas que dificultam ou mesmo impossibilitam a sua leitura. Um exemplo crasso encontra-se logo na primeira página em que as conferências são apresentadas: "A universidade de Washington tem o orgulho de apresentar o segundo conferencista John Danz". Isto não faz sentido. O que está no original é "as segundas conferências John Danz". Outro exemplo é quando se fala de "uma aula terminal de nível filosófico", que dá a ideia que toda a gente nessa aula estava prestes a morrer, ou de Feynman quando era "estudante de graduação em Princeton", como se Feynman tivesse estudado "graduação".

Célia Teixeira
Texto publicado na revista "Livros".
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