Revista Think: Philosophy for Everyone
18 de Setembro de 2004 ⋅ Filosofia

Filosofia para todos

Desidério Murcho
Think: Philosophy for Everyone, dir. de Stephen Law
Revista trimestral
Londres: The Royal Institute of Philosophy, 112 pp.
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A qualidade da investigação, em qualquer área do conhecimento, está directamente relacionada com a qualidade do ensino dessa mesma área. Pois se o ensino não for de qualidade, mesmo os estudantes mais destacados terão deficiências formativas de base, que mais tarde serão de correcção muito difícil, dificultando ou impedindo a investigação de ponta de qualidade. E se o ensino não for de qualidade, muitos dos mais talentosos estudantes afastam-se das universidades por considerar que o trabalho académico é uma espécie de farsa, que consiste em complicar o óbvio e baralhar o simples em teses de mil páginas e artigos ininteligíveis que, depois de descodificados, são meros relatórios elementares de ideias alheias, falhos de pensamento original.

Não é de espantar que seja precisamente nos países onde se faz a melhor investigação de ponta que se faz igualmente um trabalho de qualidade ao nível do ensino e da divulgação. Apesar de em língua inglesa abundarem os livros de filosofia de carácter introdutório, tantas vezes escritos por alguns dos mais destacados filósofos contemporâneos (como Bertrand Russell, Thomas Nagel, Simon Blackburn, William Lycan, James Rachels, Graham Priest, Peter Singer e tantos outros), o Instituto Real de Filosofia decidiu publicar uma revista dedicada ao ensino e divulgação da filosofia — precisamente o que fazia falta traduzir no nosso país. Em pequenos artigos (por vezes de apenas três páginas), sempre acessíveis a estudantes e ao leitor leigo, alguns dos filósofos e professores mais destacados apresentam ideias importantes da filosofia, de forma simples e despretensiosa — com o objectivo de ensinar e esclarecer, e não de se autopromoverem. No último número da revista, o sexto, podemos ler artigos de Richard Swinburne, Frank Jackson, Michael Ruse e Alan Sidele, entre outros. Nos números anteriores encontramos artigos de Colin McGinn, Susan Blackmore, Alan Montefiore, Richard Dawkins, Mary Warnock, Susan Haack, James Rachels e Michael Clark (o director da Analysis, uma das mais importantes revistas académicas de filosofia). Os artigos abordam as diferentes disciplinas da filosofia: filosofia da biologia e da religião, ética e filosofia da ciência, lógica e filosofia da linguagem, metafísica e estética, filosofia política e história da filosofia. Num dos artigos mais interessantes, Richard Swinburne defende a existência de Deus, contra os argumentos de Dawkins, apresentados num número anterior; noutro, Adam Swift, da Universidade de Oxford, discute os argumentos a favor e contra a existência do ensino privado; noutro ainda, Michael Bradie explora as perplexidades da sociobiologia e o problema mais profundo da normatividade.

Seria possível traduzir esta revista e disponibilizá-la nas escolas e universidades do país, torná-la uma revista de referência, verdadeiramente útil para estudantes e professores do secundário e do superior? Sem dúvida que sim. Melhor ainda, todavia, seria a existência de uma revista portuguesa com este perfil, que não se limitasse a traduzir os artigos da Think, mas que publicasse também artigos originais portugueses, esclarecedores, despretensiosos e úteis. A revista Intelectu satisfaz parcialmente estes requisitos, mas infelizmente existe apenas na Internet.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Originalmente publicado no jornal Público (6 de Março de 2004)
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