Revista Think: Philosophy for Everyone
26 de Outubro de 2004 ⋅ Filosofia

Filosofia em revista

Pedro Galvão
Think: Philosophy for Everyone, dir. de Stephen Law
Número 2, Outono de 2002
Revista trimestral
Londres: The Royal Institute of Philosophy, 112 pp.
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A ideia de uma revista dedicada à divulgação do pensamento filosófico, embora por cá possa ainda parecer estranha, tem vingado noutros países. Encontramos na Think a expressão mais recente desta ideia. Dirigida por Stephen Law, professor de filosofia no Heythrop College da Universidade de Londres, esta revista tem como objectivo central proporcionar a um público muito amplo artigos acessíveis e cativantes assinados por filósofos proeminentes, e entre os seus objectivos subsidiários conta-se o de "contrariar a impressão popular de que a filosofia é fútil e está completamente afastada da vida quotidiana".

Logo no início desta segunda edição da Think encontramos um artigo que vai exemplarmente ao encontro de ambos os objectivos: Alvin Plantinga, um notável defensor do teísmo no contexto da filosofia analítica, responde ao artigo de Richard Dawkins publicado na edição anterior, no qual o autor de O Gene Egoísta reagiu criticamente a um texto que o estado do Alabama mandou colar em todos os manuais de biologia de modo a desacreditar a teoria da evolução das espécies. Na sua resposta, Plantinga procura mostrar que a própria crítica de Dawkins, embora se apresente como um esclarecimento puramente científico, na verdade baseia-se em pressupostos filosóficos fortemente disputáveis.

O tema mais saliente desta edição da Think é o relativismo, que pode ser caracterizado como a ideia de que a verdade — ou pelo menos certos tipos de verdades — é sempre relativa a perspectivas particulares. Os três artigos dedicados a este tema são adversos a tal ideia, mas Stephen Law promete equilibrar um pouco a balança em edições posteriores.

No âmbito da ética e da filosofia política merecem destaque dois breves artigos. Num deles Jonathan Wolff, autor da mais prestigiada introdução à filosofia política, procura rebater um célebre argumento de Platão contra a racionalidade da democracia. No segundo artigo encontramos uma discussão esclarecedora de dois casos médicos recentes que envolvem o chamado "direito a morrer". Piers Benn explica como estes casos diferem legalmente e introduz o problema de saber se também diferem eticamente.

A diversidade temática é decididamente um dos pontos fortes da Think. Nesta edição, além dos temas já indicados encontramos artigos que introduzem o leitor em problemas centrais de filosofia da mente, filosofia da acção e filosofia da ciência. Esta última área é representada por um artigo de Mary Midgley, "How real are you?", no qual Dawkins volta a ser alvo de críticas, desta vez por exemplificar uma perspectiva reducionista que tende a resultar na sugestão de que num certo sentido as próprias pessoas não passam de ilusões.

Embora a Think tenha apenas pouco mais que cem páginas, a elevada concisão dos artigos deixa ainda espaço para duas secções fixas. Na secção dedicada a paradoxos podemos descobrir desta vez por que razão não é assim tão fácil Aquiles ultrapassar a tartaruga. E em "Thinking Tools", secção a cargo de Stephen Law, podemos familiarizar-nos com algumas das falácias mais frequentes.

Vale a pena acrescentar que o grafismo sóbrio e elegante, bem como a encadernação igual à de um pequeno livro, tornam a Think ainda mais apetecível enquanto objecto de leitura. Infelizmente, a língua constitui uma barreira considerável para muitos dos leitores portugueses que mais poderiam beneficiar desta revista: os estudantes do ensino secundário. Tendo em conta que em Portugal a disciplina de Filosofia é obrigatória neste nível de ensino, é de facto lamentável que ainda não tenha surgido entre nós espaço editorial para uma revista assim.

É fácil assinar a Think. Quem desejar receber em casa esta revista três vezes por ano deve dirigir-se a este site. Aqui, aliás, estão disponíveis gratuitamente muitos dos artigos das duas primeiras edições.

Pedro Galvão
Originalmente publicado no jornal Público
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