Tipos de Mentes, de Daniel C. Dennett

A postura intencional

Desidério Murcho
Tipos de Mentes, de Daniel C. Dennett
Tradução de Maria Teresa Castanheira
Rocco/Temas e Debates, 2001, 202 pp.

Dennett começa por dizer que é

um filósofo e não um cientista, e os filósofos são melhores a fazer perguntas do que a dar respostas […] Encontrar melhores perguntas e quebrar velhos hábitos e tradições de formulação de perguntas é uma parte muito difícil do grandioso projecto humano de nos compreendermos melhor a nós e ao mundo. Os filósofos podem contribuir valorosamente para esta investigação, aplicando o seu talento, adquirido profissionalmente, de críticos de perguntas.

Este livro é uma exploração da mais recente ciência e filosofia da mente, uma disciplina praticamente desconhecida em Portugal.

Neste livro há problemas, teorias e argumentos formulados com rigor e clareza, e um desafio constante ao leitor para pensar por si nestas questões. Se o leitor é daqueles que adormeciam nas aulas do secundário a ouvir tolices pseudoprofundas, leia este livro e compreenda como a filosofia pode ser diferente: uma actividade criativa, uma discussão aberta de ideias, uma integração das artes, das ciências e das humanidades num pensamento criativo e rigoroso, límpido e responsável.

Dennett apresenta uma abordagem naturalista ao problema de saber o que é uma mente. Qual é o problema? O problema é compreender como pode o pensamento ser um produto da natureza. Claro que o pensamento pode ser o produto de uma alma sobrenatural criada por Deus. Mas isso também em nada nos ajuda a compreender os processos mentais: é só uma maneira de declarar que isso é território proibido ao pensamento. Mas compete à filosofia quebrar estes tabus, e continuar a pensar quando a religião nos diz para parar de pensar. Hoje sabemos muito sobre a evolução dos seres humanos como espécie biológica. E sabemos bastante sobre a evolução dos seres vivos no nosso planeta. A abordagem de Dennett integra o que sabemos acerca das origens biológicas dos seres humanos na questão de saber o que é o pensamento.

Todavia, este é um livro introdutório e de divulgação da filosofia da mente e não tanto uma exposição sistemática das ideias do autor. No primeiro capítulo, intitulado "Que tipos de mentes há?", o autor apresenta o seguinte problema: nós sabemos com toda a confiança que temos mentes, que temos pensamento. E pensamos que os nossos semelhantes também têm pensamento. Mas como sabemos isso? Como podemos saber que só os seres humanos têm pensamento? Por que razão nos parece disparatado dizer que o teclado do meu computador pensa? Em termos genéricos, trata-se de saber que critérios podemos usar para afirmar que algo tem ou não tem uma mente. O que Dennett mostra é que o melhor desses critérios é evolucionista. Pelo caminho fica uma distinção crucial entre epistemologia e ontologia: entre o que sabemos e o que há no mundo.

No segundo capítulo o autor explica a noção de "postura intencional", central na sua filosofia. O que é isto? É o modo como explicamos os fenómenos. Adoptamos a postura intencional quando achamos que temos de invocar intenções para explicar fenómenos. O exemplo do autor é elucidativo: quando explico por que razão o meu despertador toca às 7 da manhã não invoco intenções do despertador. Não digo: "Como eu disse ao despertador para me acordar às 7, ele assim fez". Achamos que uma descrição puramente física e electrónica é suficiente. Mas quando falamos de pessoas e de outros animais, usamos a postura intencional: o João acordou-me às 7 porque eu lhe tinha pedido na véspera. O João decidiu acordar-me; o despertador, não. Isto, claro, é só o princípio da controversa teoria de Dennett. Há muitas dificuldades com esta teoria. Dennett põe as cartas na mesa; compete ao leitor aceitar a teoria, ou recusá-la.

Este capítulo é muito importante para o leitor português, sobretudo para professores e estudantes. De uma maneira muito acessível e directa, Dennett apresenta algumas das noções centrais da filosofia da linguagem e da mente contemporâneas — e clássicas, com referências à filosofia medieval e antiga. Entre essas noções conta-se a distinção entre intensão (com "s") e extensão, e o "mentalês", a linguagem do pensamento defendida por Fodor — um dos mais importantes filósofos actuais da mente, que declarou que

ninguém faz a mais pequena ideia de como poderá uma coisa material ser consciente. Ninguém sabe, sequer, o que seria ter a mais pequena ideia de como poderá uma coisa material ser consciente. Tanto pior para a filosofia da consciência.

Também a intencionalidade intrínseca e derivada de Searle é explicada, assim como as noções de proposição e de atitudes proposicionais. Um tesouro para o leitor português, que infelizmente não tem acesso à riquíssima bibliografia filosófica onde estes conceitos são explicados.

O terceiro capítulo, "O corpo e as suas mentes", trata da relação entre o corpo e a mente. Uma pergunta quase inevitável (e que Dennett levou às últimas consequências no artigo "Onde Estou Eu?" de 1978) é esta: se o corpo é meu, e o cérebro é meu e até os pensamentos são meus, onde está o eu, que é o legítimo proprietário dessas coisas todas? Esta pergunta resulta de uma ilusão. Ryle chamou-lhe "erro categorial," como se depois de termos visto as faculdades todas da Universidade de Lisboa, perguntássemos: e onde está afinal a própria Universidade? Este é o capítulo onde a importância de António Damásio para a filosofia da mente contemporânea fica evidente, pois o que Damásio mostra é a completa dependência que os nossos eus emocionais e racionais têm em relação ao corpo: "A natureza parece ter construído o aparato da racionalidade não apenas sobre o aparato da regulação biológica, mas também a partir dele e com ele" — estas são as palavras de Damásio citadas por Dennett.

O quarto capítulo mostra-nos algumas das incapacidades cognitivas estranhas de alguns dos animais mais inteligentes; é como se eles não tivessem dado ainda um passo que nós demos há muito na direcção da inteligência. Mas isto mostra bem, por outro lado, a origem biológica da consciência — ou, pelo menos, é o que Dennett defende. Mas é no capítulo seguinte que encontramos a passagem que melhor representa a posição de Dennett: "o pensamento — o nosso tipo de pensamento — teve de esperar que o discurso emergisse, o que por sua vez teve de esperar que emergisse o secretismo, o que por sua vez teve de esperar pela complexificação apropriada do ambiente comportamental." A ideia é que a necessidade de prever o comportamento dos nossos semelhantes e a possibilidade de os enganarmos acerca das nossas intenções potenciam o aparecimento da intencionalidade e das mentes. O último capítulo recapitula as ideias principais de Dennett, chamando a atenção para a confusão filosófica e o erro científico que é pensar no eu como uma espécie de pequeno homúnculo no meio do cérebro, a comandar tudo: a sede da razão e da decisão, da moral e da consciência. É este dualismo cartesiano que Dennett e Damásio e tantos outros filósofos contemporâneos recusam, restituindo o ser humano à natureza de onde proveio.

Uma leitura deliciosa, estimulante, informativa, que mostra como se pode divulgar a filosofia sem a tornar uma tontice superficial.

Desidério Murcho
Texto publicado na revista Livros (n.º 25, Out/Nov 2001)
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