The Magic Prism
25 de Setembro de 2007 ⋅ Filosofia da linguagem

Soluções engenhosas

Sérgio R. N. Miranda
The Magic Prism: An Essay in the Philosophy of Language, de Howard K. Wettstein
Oxford: Oxford University Press, 2006, 256 pp.
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Alguém poderia concordar com seu interlocutor quando este afirmasse a sentença 1) "Muhammad Ali foi o maior boxeador de todos os tempos", mas tomar por falso ou ficar sem saber o que dizer frente à afirmação de 2) "Cassius Clay foi o maior boxeador de todos os tempos". Esta pessoa ficaria certamente surpresa com a informação que 3) "Muhammad Ali é Cassius Clay". Ora, visto que "Muhammad Ali" e "Cassius Clay" se referem à mesma pessoa, como explicar que a substituição de um nome pelo outro pode levar alguém a retirar seu assentimento frente àquilo que diz o seu interlocutor e que a afirmação que Muhammad Ali é Cassius Clay é informativa, enquanto afirmar que Muhammad Ali é Muhammad Ali é trivial? Este tipo de problema é central no debate contemporâneo em filosofia da linguagem acerca da referência de termos singulares como nomes próprios, demonstrativos e outras expressões indexicais.

A solução proposta por Frege consiste em mostrar que afirmações como 1 e 2 não exprimem a mesma coisa, visto que termos co-referenciais podem introduzir no pensamento — o que exprimimos ao usar a linguagem — modos diferentes de apresentação do seu referente. É esta diferença nos modos de apresentação associados aos nomes "Muhammad Ali" e "Cassius Clay" que permite ainda a solução da dificuldade em relação ao conteúdo informativo da afirmação de 3, i.e. que Muhammad Ali é Cassius Clay. Esta solução, no entanto, esbarra em dificuldades relacionadas à nossa prática comum do uso de nomes próprios. Por exemplo, podemos não associar a um nome como "Boécio" um modo de apresentação que permita individuar este autor e diferenciá-lo de outros filósofos, muito embora possamos entender afirmações nas quais o nome ocorre e mesmo perguntar "Quem foi Boécio?". Parece mais natural tratar nomes próprios como etiquetas para aquilo que se referem; assim, a função de "Muhammad Ali" e "Cassius Clay" em afirmações como 1, 2 e 3 não seria outra que introduzir o boxeador americano como objeto de discurso. Mas podemos então abrir mão da noção de modos de apresentação para resolvermos as dificuldades mencionadas no parágrafo anterior?

Howard Wettstein propõe em The Magic Prism uma teoria da linguagem segundo a qual os termos singulares têm referência direta, abrindo mão da noção de modos de apresentação como intermediários entre nomes próprios e expressões indexicais e aquilo que elas designam. O livro pode ser dividido em duas partes. Na primeira, Wettstein apresenta os pontos de vista de Frege e Russell sobre termos singulares; em seguida avança uma crítica à idéia compartilhada por estes autores que a referência de termos singulares é fixada cognitivamente; finalmente, identifica na filosofia de Wittgenstein um contraponto às filosofias de Frege e Russell. Esta primeira parte apresenta não apenas uma introdução bastante acessível ao debate contemporâneo sobre a referência de termos singulares, mas também constitui uma base para Wettstein avançar sua própria contribuição para o debate.

A segunda parte do livro apresenta uma crítica das soluções tradicionais para os chamados enigmas de Frege. Trata-se do problema do conteúdo informativo de afirmações como "Muhammad Ali é Cassius Clay", do embaraço em relação à explicação do conteúdo expresso por elocuções de sentenças na qual ocorrem nomes próprios que carecem de referente, e finalmente das dificuldades em relação a relatos de crenças mantidas por terceiros. Wettstein procura mostrar que estes enigmas constituem um sério problema somente para aqueles que (como Frege e Russell) entendem que a referência de termos singulares é fixada cognitivamente. Não que estes enigmas não mereçam qualquer atenção. Mas uma boa solução não pode consistir em uma manobra ad hoc a fim de preservar nossa teoria preferida sobre a linguagem frente a dados recalcitrantes. O ponto de partida desta solução deve ser uma descrição acurada de nossas práticas lingüísticas.

Wettstein apresenta particularidades do uso de termos singulares que viabilizam soluções muito engenhosas para os enigmas de Frege, tornando seu livro uma leitura obrigatória para qualquer um interessado no debate sobre a referência de termos singulares. Visto ainda que neste debate estão envolvidas questões mais gerais como a natureza do conteúdo que exprimimos quando usamos a linguagem e sobre a relação entre a linguagem e o mundo, The Magic Prism é também altamente recomendável para qualquer pessoa com algum interesse em filosofia da linguagem.

Sérgio R. N. Miranda
Universidade Federal de Ouro Preto
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