Por Que Escrevo e Outros Ensaios
14 de Setembro de 2009 ⋅ Opinião

A política e a língua inglesa

George Orwell
Tradução de Desidério Murcho

As pessoas que dão alguma importância à questão admitiriam, na sua maior parte, que a língua inglesa vai mal, mas presume-se geralmente que nada há que se possa fazer em termos de acção consciente. A nossa civilização está decadente, e a nossa língua — segundo este argumento — tem inevitavelmente de partilhar o colapso geral. Segue-se que qualquer luta contra os abusos de linguagem é um arcaísmo sentimental, como preferir velas à luz eléctrica ou cabriolés a aviões. Subjacente a isto está a crença semiconsciente de que a língua é uma coisa natural e não um instrumento a que damos forma em função dos nossos propósitos.

Ora, é claro que o declínio de uma língua tem de ter, em última análise, causas políticas e económicas; não se deve apenas à má influência deste ou daquele autor. Mas um efeito pode tornar-se uma causa, reforçando a causa original e produzindo o mesmo efeito de forma intensificada, e assim por diante sem fim. Um homem pode entregar-se à bebida porque sente que é um falhado, e depois ser um falhado mais completo porque bebe. É precisamente a mesma coisa que está a acontecer à língua inglesa. Torna-se feia e imprecisa porque os nossos pensamentos são tolos, mas o desmazelo da nossa língua permite que mais facilmente tenhamos pensamentos tolos. O que importa é que se pode inverter o processo. O inglês moderno, especialmente o escrito, está cheio de maus hábitos que se espalham por imitação e que podem ser evitados se quisermos dar-nos a esse incómodo. Se nos livrarmos destes hábitos, podemos pensar mais claramente, e pensar mais claramente é um primeiro passo necessário em direcção à regeneração política; de modo que lutar contra o mau inglês não é frívolo e não interessa exclusivamente a escritores profissionais. Voltarei a este aspecto, e espero que nessa altura o significado do que aqui afirmei se tenha tornado mais claro. Entretanto, eis cinco espécimes da língua inglesa tal como é hoje habitualmente escrita.

As cinco passagens não foram escolhidas por serem especialmente más — poderia citar casos muito piores se o quisesse — mas porque ilustram vários vícios mentais que temos hoje. São amostras ligeiramente abaixo da média, mas razoavelmente representativas. Vou numerá-las para depois poder referi-las quando for necessário:

  1. "Não estou, de facto, certo se não se pode dizer que o Milton que já foi visto como não estando muito longe de um Shelley do séc. XVII não se tornou, em função de uma experiência mais amarga a cada ano que passa, mais alheio [sic] ao fundador dessa facção jesuíta que nada o poderia fazer tolerar." (Professor Harold Laski, ensaio em Freedom of Expression.)
  2. "Acima de tudo, não podemos jogar às sete pedrinhas com uma bateria de expressões que prescrevem colocações egrégias de vocábulos como o básico carregar uma cruz em vez de aguentar ou ficar perdido em vez de confundido". (Professor Lancelot Hogben, Interglossa.)
  3. "Por um lado, temos a personalidade livre: por definição, não é neurótica, pois não tem conflito nem sonho. Os seus desejos, que não são grande coisa, são transparentes, pois são apenas o que a aprovação institucional mantém na primeira linha da consciência; outro padrão institucional alteraria o seu número e intensidade; pouco há neles que seja natural, irredutível ou culturalmente perigoso. Mas, por outro lado, o próprio vínculo social nada é senão o reflexo destas integridades auto-asseguradas. Recorde-se a definição de amor. Não é isto a imagem exacta de um pequeno académico? Onde há lugar, nesta casa de espelhos, para a personalidade ou a para fraternidade?" (Ensaio sobre psicologia em Politics, Nova Iorque.)
  4. "Os "mais distintos" dos clubes de cavalheiros, e os frenéticos capitães fascistas, unidos no ódio comum ao Socialismo e no horror bestial da crescente maré do movimento revolucionário de massas, voltaram-se para actos de provocação, afirmações incendiárias baixas, lendas medievais de poços envenenados, para legalizar a sua própria destruição das organizações proletárias, e incitar a agitada pequena burguesia ao fervor chauvinista em nome da luta contra o modo revolucionário de resolver a crise." (Panfleto comunista)
  5. "Para que um espírito novo seja infundido neste velho país, há uma reforma espinhosa e contenciosa que tem de se enfrentar, a saber, a humanização e galvanização da BBC. A timidez será aqui sinal de gangrena e atrofia da alma. O coração da Grã-Bretanha pode ser sólido e bater com força, por exemplo, mas o rugido do leão britânico é hoje como o de Bottom no Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare — tão gentil quanto o de qualquer pomba de mama. Uma Grã-Bretanha viril não pode continuar indefinidamente a ser caluniada aos olhos, ou melhor, ouvidos, do mundo pelos caducos langores de Langham Place, mascarando-se desavergonhadamente de "inglês canónico". Quando a Voz da Grã-Bretanha é ouvida às nove horas, é muito melhor e infinitamente menos grotesco ouvir agás honestamente pronunciados do que os actuais pedantes, empolados e inibidos zurros afectados de mestre-escola de inocentes e tímidas donzelas choramingas!" (Carta no Tribune)

Cada uma destas passagens tem faltas próprias mas, à parte a escusada fealdade, há duas qualidades comuns a todas. A primeira é o bafio das imagens; a outra é a falta de precisão. O autor ou quer dizer algo e não consegue exprimi-lo, ou diz inadvertidamente outra coisa, ou é quase indiferente à questão de saber se as suas palavras querem ou não dizer alguma coisa. Esta mistura de vagueza e pura incompetência é a característica mais marcante da prosa inglesa moderna, e em especial de qualquer tipo de escrito político. Mal se levantam certos tópicos, o concreto dissolve-se no abstracto e ninguém parece capaz de pensar em expressões que não sejam estereotípicas; a prosa consiste cada vez menos em palavras escolhidas em função do seu significado, e cada vez mais em expressões pregadas umas às outras como secções de um galinheiro pré-fabricado. Apresento de seguida a lista, com notas e exemplos, de vários truques por meio dos quais se evita habitualmente o trabalho de construção de prosa.

Metáforas agonizantes
Uma metáfora acabada de inventar ajuda o pensamento ao invocar uma imagem visual, ao passo que, por outro lado, uma metáfora tecnicamente "morta" (como resolução de ferro) voltou de facto a ser uma palavra comum, podendo geralmente ser usada sem perda de vivacidade. Mas entre estas duas classes há um imenso terreno baldio de metáforas gastas que perderam qualquer poder evocativo, sendo usadas apenas porque poupam às pessoas o trabalho de inventar expressões. Eis alguns exemplos: tocar os sinos da mudança, empunhar a clava, pôr-se na linha, espezinhar os outros, marchar em uníssono, ser um joguete, não ter confraria, levar água ao moinho, pescar em águas turvas, tapar o Sol com a peneira, estar na ordem do dia, calcanhar de Aquiles, canto do cisne, antro. Muitas destas metáforas são usadas sem conhecimento do que significam (o que quer dizer clava, por exemplo?), e misturam-se frequentemente metáforas incompatíveis — um sinal seguro de que o autor não está interessado no que está a dizer. O significado de algumas metáforas hoje em dia correntes foi distorcido relativamente ao seu significado original sem que quem as usa tenha sequer consciência disso. Por exemplo, toe the line [pôr-se na linha] surge por vezes escrito como tow the line [favorecer]. Outro exemplo é o martelo e a bigorna, hoje em dia usado sempre com a implicação de que a bigorna é que fica na pior situação. Na realidade, é sempre a bigorna que parte o martelo, e nunca o contrário; um autor que parasse para pensar no que está a dizer teria consciência disto, e evitaria perverter a expressão original.
Operadores, ou muletas verbais
Estes poupam o trabalho de escolher verbos e substantivos apropriados, ao mesmo tempo que almofadam cada frase com mais sílabas, dando-lhe uma aparência de simetria. Algumas expressões características são as seguintes: torna inoperativo, milita contra, mostra ser inaceitável, entra em contacto com, está sujeito a, dá origem a, dá fundamentos para, tem o efeito de, desempenha um papel de relevo em, faz-se sentir, entra em vigor, exibe uma tendência para, serve o propósito de, etc., etc. A tónica dominante é a eliminação de verbos simples. Em vez de ser uma única palavra, como interromper, parar, arruinar, corrigir, matar, um verbo torna-se uma expressão, feita de um substantivo ou adjectivo acoplado a um verbo genérico como provar, servir, formar, desempenhar, tornar. Além disso, a voz passiva é sempre que possível usada de preferência à activa, e usam-se construções substantivadas em vez de gerúndios (por exame de em vez de examinando). A diversidade de verbos é ainda mais restringida por meio das formações -ize e de-, e dá-se uma aparência de profundidade a afirmações banais por meio da formação not un-.1 As conjunções simples e as preposições são substituídas por expressões como com respeito a, tendo atenção a, o facto de que, à força de, em vista de, no interesse de, na hipótese de que; e os fins das frases são poupados ao anticlímax usando lugares-comuns sonantes como deixa muito a desejar, não se pode esquecer, um desenvolvimento a esperar num futuro próximo, merecedor de séria consideração, conduzido a uma conclusão satisfatória, e assim por diante.
Dicção pretensiosa
Palavras como fenómeno, elemento, indivíduo, objectivo, categórico, eficaz, virtual, básico, primário, promover, constituir, exibir, explorar, utilizar, eliminar, liquidar, são usadas para engravatar afirmações simples e dar um ar de imparcialidade científica a juízos tendenciosos. Adjectivos como marcante, épico, histórico, inesquecível, triunfante, longevo, inevitável, inexorável, vero, são usados para dignificar os processos sórdidos da política internacional, ao passo que a escrita que tem por objectivo glorificar a guerra assume geralmente um ar arcaico, sendo as seguintes as suas palavras características: reino, trono, quadriga, força couraçada, tridente, espada, escudo, broquel, estandarte, bota militar, clarim. Palavras estrangeiras e expressões como cul de sac, ancien régime, deux ex machina, mutatis mutandis, status quo, gleichschaltung, weltanschauung, são usadas para dar um ar de cultura e elegância. Excepto no caso das abreviaturas habituais, i.e., e.g. e etc., não é realmente necessário usar as centenas de expressões estrangeiras hoje correntes em inglês. Os maus autores, e em especial os autores de ciência, política e sociologia, são quase sempre assombrados pela noção de que as palavras latinas ou gregas são mais grandiloquentes do que as saxónicas, e palavras desnecessárias como expedite, amelirate, predict, extraneous, deracinated, clandestine, subaqueous e centenas de outras ganham constantemente terreno relativamente às suas equivalentes anglo-saxónicas.2 A gíria peculiar dos escritos marxistas (hiena, torcionário, canibal, burgueszinho, essa gente, lacaio, criado, cão raivoso, Guarda Branca, etc.) consiste na sua maior parte em palavras e expressões traduzidas do russo, alemão e francês; mas a maneira normal de introduzir uma palavra nova é usar uma raiz latina ou grega com o afixo apropriado e, quando necessário, a formação -ize. Muitas vezes é mais fácil criar palavras deste tipo (desregionalizar, impermissível, extramarital, não-fragmentário e assim por diante) do que pensar em palavras inglesas que abarquem o que queremos dizer. O resultado, em geral, é um aumento de desmazelo e vagueza.
Palavras sem significado
Em certos tipos de escrita, em particular na crítica de arte e na crítica literária, é normal encontrar longas passagens quase totalmente sem significado.3 Palavras como romântico, plástico, valores, humano, morto, sentimental, natural, vitalidade, tal como são usadas na crítica de arte, são rigorosamente destituídas de significado, no sentido em que não só não apontam para qualquer objecto que se possa descobrir, como nem sequer o leitor espera tal coisa. Quando um crítico escreve "A característica marcante da obra do Sr. X é a sua vitalidade", ao passo que outro escreve "O que é imediatamente óbvio na obra do Sr. X é a sua peculiar letargia", o leitor aceita isto como uma simples diferença de opinião. Se palavras como preto e branco estivessem envolvidas, em vez das palavras de gíria vitalidade e letargia, o leitor veria imediatamente que a língua estava a ser usada de modo impróprio. Abusa-se de modo semelhante de muitas palavras políticas. A palavra fascismo não tem agora significado, a não ser "algo indesejável". Cada uma das palavras democracia, socialismo, liberdade, patriótico, realista, justiça, tem múltiplos significados diferentes irreconciliáveis entre si. No caso de uma palavra como democracia, não só não há qualquer definição com a qual todos concordem, como todos resistem à tentativa de a definir. Há o sentimento quase universal de que ao chamar democrático a um país estamos a elogiá-lo; consequentemente, os defensores de todo o tipo de regimes defendem que é uma democracia, e receiam que talvez tenham de deixar de usar a palavra se ficar ligada a um significado qualquer. As palavras deste género são muitas vezes usadas de uma forma conscientemente desonesta. Ou seja, a pessoa que as usa tem a sua própria definição privada, mas permite que o seu interlocutor pense que ele quer dizer uma coisa muito diferente. Afirmações como Marshal Pétain era um verdadeiro patriota, A imprensa soviética é a mais livre do mundo, A Igreja Católica opõe-se à perseguição, são quase sempre usadas com a intenção de enganar. Outras palavras, usadas na maior parte dos casos com significados variáveis mais ou menos desonestamente são as seguintes: classe, totalitário, ciência, progressista, reaccionário, burguês, igualdade.

Feito o catálogo destas falcatruas e perversões, vou dar outro exemplo do tipo de escrita a que dão origem. Desta vez tem de ser um exemplo imaginário. Vou traduzir uma passagem de bom inglês para inglês do pior género. Eis um bem conhecido verso do Eclesiastes:

"Regressei e vi debaixo do Sol que a corrida não é para os ágeis, nem a batalha para os bravos, nem o pão para os prudentes, nem a riqueza para os doutos, nem o favor para os sábios: a todos acontece o tempo e o acaso."

Aqui está em inglês moderno:

"A consideração objectiva dos fenómenos contemporâneos compelem à conclusão de que o sucesso ou fracasso em actividades competitivas não exibe qualquer tendência para ser congruente com a capacidade inata, mas antes que um elemento considerável de imprevisível tem invariavelmente de ser tido em consideração."

Isto é uma paródia, mas não muito grosseira. O exemplo 3, acima, por exemplo, contém vários trechos do mesmo tipo de inglês. Veremos que não fiz uma tradução completa. O princípio e o fim da frase seguem o significado original bastante de perto, mas no meio as ilustrações concretas — corrida, batalha, pão — dissolvem-se na expressão vaga "sucesso ou fracasso em actividades competitivas". Tinha de ser assim porque nenhum autor moderno do tipo que estou a discutir — alguém disposto a usar expressões como "consideração objectiva dos fenómenos contemporâneos" — iria alguma vez dispor os seus pensamentos dessa forma precisa e pormenorizada. A tendência da prosa moderna é afastar-se do concreto. Analise-se agora estas duas frases mais de perto. A primeira contém 47 palavras mas apenas 75 sílabas, e todas as palavras usadas são da vida quotidiana. A segunda contém 44 palavras e 110 sílabas; 18 das suas palavras [da versão original] têm raiz latina e uma grega. A primeira frase contém seis imagens vívidas, e só uma expressão que se pode considerar vaga ("o tempo e o acaso"). A segunda não contém uma única expressão viçosa e atraente, e apesar das suas 110 sílabas apresenta apenas uma versão abreviada do significado contido na primeira. Contudo, é sem qualquer dúvida o segundo tipo de frase que está a ganhar terreno no inglês moderno. Não quero exagerar. Este tipo de escrita ainda não é universal, e ocorrerão aqui e ali ilhas de simplicidade na mais mal escrita das páginas. Contudo, se nos dissessem, ao leitor ou a mim, para escrever algumas linhas sobre a incerteza dos destinos humanos, ficaríamos provavelmente muito mais próximos da minha frase imaginária do que da retirada do Eclesiastes.

Como tentei mostrar, a escrita moderna no seu pior não consiste em escolher palavras por causa do seu significado e inventar imagens para tornar o significado mais claro. Consiste em colar longas filas de palavras que já foram ordenadas por outras pessoas, e em tornar os resultados apresentáveis por pura mistificação. A atracção deste modo de escrever é ser fácil. É mais fácil — e até mais rápido, uma vez adquirido o hábito — dizer Na minha opinião, não é um pressuposto injustificável que do que dizer Penso. Quando se usa expressões pré-fabricadas não só não é necessário procurar palavras, como não é necessário preocuparmo-nos com os ritmos das nossas frases, dado que estas expressões são construídas de tal modo que são mais ou menos eufónicas. Quando se compõe um texto à pressa — quando se dita a um estenógrafo, por exemplo, ou quando se discursa em público — é natural cair num estilo pretensioso e latinizado. Estribilhos como uma consideração que devemos ter em conta ou uma conclusão com a qual todos concordaríamos imediatamente salva muitas frases de cair com estrondo. Ao usar metáforas, símiles e expressões idiomáticas insípidas poupa-se muito esforço mental à custa de se deixar o significado vago, não apenas para o leitor mas também para o próprio autor. É este o significado das metáforas mistas. O único objectivo de uma metáfora é chamar uma imagem visual. Quando estas imagens entram em conflito — como em O polvo Fascista cantou o canto do cisne, atira-se a bota militar para o cadinho — pode-se ter a certeza de que o autor não está a ver uma imagem mental dos objectos que está a nomear; por outras palavras, não está realmente a pensar. Veja-se novamente os exemplos que dei no princípio deste ensaio. O Professor Laski (1) usa cinco negativas em 53 palavras [na versão original]. Uma é supérflua, tornando absurda toda a passagem, a que acresce o lapso de usar alheio [alien] em vez de próximo [akin], provocando mais um absurdo, e vários casos de inépcia que aumentam a vagueza geral. O Professor Hogben (2) joga às pedrinhas com uma bateria que é capaz de escrever prescrições e, apesar de desaprovar a expressão corrente carregar uma cruz, não quer consultar um dicionário para ver o que significa egrégio. 3, se não formos caridosos, é pura e simplesmente destituído de sentido; talvez se conseguisse chegar ao significado pretendido lendo todo o artigo em que ocorre. Em 4, o autor sabe mais ou menos o que quer dizer, mas uma acumulação de expressões estereotípicas sufocam-no como folhas de chá que entopem uma pia. Em 5, as palavras e significados quase ficaram de costas voltadas. As pessoas que escrevem desta maneira têm habitualmente um significado emocional geral — não gostam de uma coisa e querem expressar solidariedade com outra — mas não estão interessadas no pormenor do que estão a dizer. Um autor escrupuloso, em cada frase que escreve, faz a si próprio pelo menos quatro perguntas:

O que estou a tentar dizer?
Que palavras o exprimem?
Que imagem ou expressão idiomática o torna mais claro?
Terá esta imagem suficiente frescura para ter efeito?

E fará provavelmente ainda mais duas:

Posso dizê-lo em menos palavras?
Disse alguma coisa feia que se possa evitar?

Mas não precisamos de dar-nos a todo este incómodo. Podemos evitá-lo limitando-nos a deixar a cabeça vazia e a deixar que as expressões pré-fabricadas a encham. Essas expressões irão criar as frases por nós — irão até pensar por nós, de certo modo — e, consoante for necessário, prestam-nos o importante serviço de esconder parcialmente o significado até de nós próprios. É neste ponto que a conexão especial entre a política e a degradação da língua se torna clara.

No nosso tempo, é em grande medida verdade que a escrita política é má escrita. Nos casos em que isto não é verdade descobre-se geralmente que o autor é uma espécie de rebelde, exprimindo as suas opiniões privadas e não uma "linha partidária". A ortodoxia, de qualquer cor, parece exigir um estilo sem vida e imitativo. Os dialectos políticos que se encontram em panfletos, artigos de opinião, manifestos, relatórios e discursos de subsecretários variam, é claro, de partido para partido, mas são todos semelhantes nisto: quase nunca se encontra neles uma expressão viçosa, vívida, original. Quando se vê um amanuense cansado no pódio, repetindo mecanicamente as expressões do costume — atrocidades brutais, bota de ferro, tirania manchada de sangue, povos livres do mundo, estar na mesma trincheira — fica-se muitas vezes com a sensação curiosa de que não estamos a ver um ser humano vivo mas antes uma espécie de boneco; sensação que subitamente se torna mais forte nos momentos em que a luz se reflecte nos óculos do orador, transformando-os em discos vazios que parecem não ter olhos por detrás. E isto não é completamente fantasioso. Um orador que usa este tipo de fraseologia está a caminho de se tornar uma máquina. Os ruídos apropriados saem da sua laringe, mas o seu cérebro não está envolvido no processo, como teria de estar se estivesse a escolher as palavras que usa. Se está habituado a proferir aquele mesmo discurso repetidas vezes, pode quase não ter consciência do que está a dizer, como quem murmura responsos na igreja. E este estado de reduzida consciência, se não é indispensável, é em qualquer caso favorável ao conformismo político.

No nosso tempo, o discurso e a escrita política são em grande medida a defesa do indefensável. Coisas como a continuidade do domínio britânico na Índia, as purgas e deportações russas, o bombardeamento atómico do Japão, podem realmente ser defendidas, mas apenas com argumentos que são demasiado brutais para que a maior parte das pessoas os assuma, e que não combina bem com os objectivos professados dos partidos políticos. Assim, a linguagem política tem de consistir em grande medida em eufemismo, petição de princípio e pura vagueza turva. Povoações indefesas são bombardeadas por aviões, os habitantes expulsos para o campo, o gado varrido a metralhadora, as cabanas postas a arder com balas incendiárias: a isto chama-se pacificação. Rouba-se as quintas a milhões de camponeses que são obrigados a caminhar penosamente pelas estradas com não mais do que o que conseguem carregar: a isto chama-se transferência da população ou rectificação das fronteiras. As pessoas são presas durante anos sem julgamento, ou levam tiros na nuca, ou são enviadas para morrer de escorbuto em explorações florestais no Árctico: a isto chama-se eliminação de elementos instáveis. Esta fraseologia é necessária quando se quer dar nome às coisas sem chamar as imagens mentais que lhes correspondem. Considere-se, por exemplo, um confortável professor inglês que defende o totalitarismo russo. Ele não pode dizer directamente "Defendo que se deve matar os oponentes quando se consegue com isso bons resultados". Logo, dirá provavelmente algo do seguinte género:

"Apesar de conceder de bom grado que o regime soviético exibe certas características que o humanitário pode sentir-se inclinado a deplorar, temos, penso, de concordar que uma certa limitação do direito a fazer oposição política é um concomitante inevitável de períodos de transição, e que os rigores que o povo russo foi chamado a suportar foram amplamente justificados na esfera do que concretamente se alcançou."

O próprio estilo inflamado é uma espécie de eufemismo. Uma massa de palavras latinas desce sobre os factos como neve macia, confundindo os contornos e apagando os pormenores. O grande inimigo da linguagem clara é a insinceridade. Quando há um hiato entre os nossos verdadeiros objectivos e os objectivos declarados, voltamo-nos como que instintivamente para as palavras longas e para as expressões gastas, como um choco a largar tinta. No nosso tempo, "não entrar na política" é coisa que não existe. Todas as questões são questões políticas, e a própria política é uma massa de mentiras, fugas, tolices, ódio e esquizofrenia. Quando a atmosfera geral é má, a linguagem tem de sofrer. Presumo — isto é algo que não tenho conhecimento suficiente para verificar — que as línguas alemã, russa e italiana se deterioraram nos últimos dez ou quinze anos, em resultado da ditadura.

Mas se o pensamento corrompe a língua, a língua pode também corromper o pensamento. Um mau uso pode espalhar-se por tradição e imitação, mesmo entre quem devia saber das coisas e até sabe. A língua adulterada que tenho estado a discutir é, em alguns aspectos, muito conveniente. Expressões como um pressuposto que não é injustificável, deixa muito a desejar, não serviria qualquer propósito de valor, uma consideração que é boa ideia não perder de vista, são tentações constantes, um pacote de aspirinas sempre à mão. Releia-se este ensaio e é certo que se verá que cometi uma e outra vez as próprias faltas contra as quais estou a protestar. No correio desta manhã recebi um panfleto sobre as condições na Alemanha. O autor diz-me que se "sentiu impelido" a escrevê-lo. Abro-o ao acaso, e eis quase a primeira frase que encontro: "(Os Aliados) têm uma oportunidade não apenas para alcançar uma transformação radical da estrutura social e política alemã de maneira a evitar uma reacção nacionalista na própria Alemanha, mas ao mesmo tempo para lançar as fundações de uma Europa cooperativa e unida." Como se vê, o autor "sente-se impelido" a escrever — sente, presumivelmente, que tem algo de novo a dizer — e, no entanto, as suas palavras, como cavalos militares a toque de corneta, agrupam-se automaticamente segundo o lúgubre padrão do costume. Esta invasão do nosso espírito por expressões pré-fabricadas (lançar as fundações, alcançar uma transformação radical) só pode ser evitada se estivermos constantemente precavidos contra elas, e cada uma delas anestesia uma porção do nosso cérebro.

Disse que a decadência da nossa língua é provavelmente curável. Quem o negar argumentará, se chegar a fazê-lo, que a língua se limita a reflectir as condições sociais existentes, e que não podemos influenciar o seu desenvolvimento através de qualquer conserto directo de palavras e construções. No que respeita ao tom geral ou espírito de uma língua, isto pode ser verdade, mas não é verdade no pormenor. Palavras e expressões tolas desapareceram muitas vezes, não através de qualquer processo evolutivo, mas graças ao esforço consciente de uma minoria. Dois exemplos recentes foram explorar todas as avenidas e não deixar pedra alguma por virar, que foram mortas pelo escárnio de alguns jornalistas. Há uma longa lista de metáforas apodrecidas de que poderíamos analogamente livrar-nos se um número suficiente de pessoas tivesse interesse nisso; e seria também possível eliminar pela gargalhada a formação not un-,4 reduzir a quantidade de latim e grego na frase média, eliminar expressões estrangeiras e palavras científicas extraviadas, e, em geral, tornar o pretensiosismo deselegante. Mas tudo isto são aspectos menores. A defesa da língua inglesa exige mais e talvez seja melhor começar por dizer o que não exige.

Para começar, não tem a ver com arcaísmo, com a salvação de palavras e expressões obsoletas, nem com o estabelecimento de um "inglês canónico" do qual nunca devemos afastar-nos. Pelo contrário, trata-se em especial de eliminar toda a palavra ou expressão idiomática que já não é útil. Não tem a ver com a correcção gramatical e sintáctica, que não são importantes desde que o que queremos dizer seja claro, nem com evitar americanismos, nem com o que se chama "bom estilo de prosa". Por outro lado, não tem a ver com a simplicidade falsa nem com a tentativa de tornar coloquial o inglês escrito. Nem sequer significa que em todos os casos se deva preferir a palavra saxónica à latina, apesar de significar que se deve usar o menor número possível de palavras o mais curtas possível que abarquem o que queremos dizer. O que é acima de tudo necessário é deixar o significado escolher a palavra, e não o contrário. Na prosa, a pior coisa que se pode fazer com as palavras é rendermo-nos a elas. Quando se pensa num objecto concreto, pensa-se sem palavras, e depois, se queremos descrever a coisa que visualizámos, procuramos até encontrarmos as palavras exactas que parecem ajustar-se-lhe. Quando se pensa em algo abstracto há maior inclinação para usar palavras desde o princípio, e a menos que se faça um esforço consciente para o evitar, o dialecto pré-existente apressa-se a intervir e a fazer o trabalho por nós, à custa de obscurecer ou até mudar o que se queria dizer. Provavelmente, é melhor adiar tanto quanto possível o uso das palavras e tornar o que queremos dizer o mais claro que conseguirmos através de imagens ou sensações. Depois podemos escolher — e não apenas aceitar — as expressões que melhor abrangem o significado, e depois invertemos as coisas e decidimos que impressão é provável que as nossas palavras tenham nos outros. Este último esforço mental elimina as imagens estereotípicas ou baralhadas, as expressões pré-fabricadas, repetições desnecessárias e a treta e a vagueza em geral. Mas podemos muitas vezes ter dúvidas sobre o efeito de uma palavra ou expressão, e precisamos de regras nas quais nos possamos apoiar quando o instinto falha. Penso que as regras seguintes abrangem a maior parte dos casos:

  1. Nunca use uma metáfora, símile ou outra figura de estilo que esteja habituado a ler.
  2. Nunca use uma palavra grande quando uma pequena servir.
  3. Se for possível cortar uma palavra, corte-a sempre.
  4. Nunca use a voz passiva quando pode usar a voz activa.
  5. Nunca use uma expressão estrangeira, uma palavra científica ou uma palavra de gíria se conseguir pensar num equivalente inglês corrente.
  6. Viole qualquer destas regras de preferência a dizer algo obviamente bárbaro.

Estas regras parecem elementares, e são, mas exigem uma mudança de atitude profunda em qualquer pessoa que se tenha habituado a escrever no estilo agora em moda. É possível observar estas regras e mesmo assim escrever mau inglês, mas não o tipo de coisas de que dei cinco exemplos no princípio deste artigo.

Não tive aqui em consideração o uso literário da linguagem, mas unicamente a linguagem como instrumento para expressar o pensamento e não para o esconder ou impedir. Stuart Chase e outros chegam quase a afirmar que todas as palavras abstractas são destituídas de sentido, e têm usado isto como pretexto para advogar uma espécie de quietismo político. Dado que não sabemos o que é o fascismo, como podemos lutar contra ele? Não precisamos de engolir absurdos destes, mas devemos reconhecer que o presente caos político está ligado ao declínio da linguagem, e que podemos provavelmente trazer algumas melhorias começando pelo lado verbal. Se simplificarmos o inglês, libertamo-nos das piores tolices da ortodoxia. Não seremos capazes de falar os dialectos necessários, e quando fizermos um comentário estúpido a sua estupidez será óbvia, até para nós próprios. A linguagem política — e com algumas variações isto aplica-se a todos os partidos políticos, dos conservadores aos anarquistas — foi concebida para fazer as mentiras parecer verdades e o assassínio respeitável, e para dar uma aparência de solidez ao puro vento. Não se pode mudar isto de um momento para o outro, mas podemos ao menos mudar os nossos próprios hábitos e, de tempos a tempos, se troçarmos suficientemente alto, até podemos deitar uma ou outra expressão gasta e inútil — bota militar, calcanhar de Aquiles, antro, caldeirão cultural, teste de tornesol, vero inferno ou outro monte de entulho verbal — para o cesto dos papéis, que é onde está bem.

George Orwell

Notas

  1. Em mau português a substantivação abusiva dá um ar de falsa profundidade: usa-se o Outro para falar das outras pessoas, ou o saber, o ser, o existir, para falar respectivamente do conhecimento, da existência e da existência outra vez. Em mau português importa-se o prefixo inglês un- pensando que não- é um prefixo e escreve-se não-temporal em vez de intemporal ou não-moral em vez de amoral, ignorando os prefixos portugueses genuínos, in- e a-. (N. do T.)
  2. Uma ilustração interessante disto é o modo como os nomes ingleses das flores, que até muito recentemente estavam em uso, estão a ser eliminados a favor dos gregos: boca-de-leão torna-se antirrino, não-me-esqueças torna-se miosótis, etc. É difícil ver qualquer razão prática para esta mudança de moda; deve-se provavelmente a um afastamento instintivo da palavra mais modesta e a uma vaga sensação de que a palavra grega é científica.
  3. Por exemplo: "O conforto da catolicidade da percepção e da imagem, de alcance estranhamente whitmaniano, quase o exacto oposto em compulsão estética, continua a invocar aquele sugerir trémulo, atmosférico e acumulativo de uma cruel, serena intemporalidade [...] Wrey Gardiner marca pontos ao procurar alvos simples com precisão. Só que não são assim tão simples, e esta tristeza satisfeita é atravessada por mais do que a superfície amargo-doce da resignação." (Poetry Quarterly)
  4. Podemos curar-nos da formação not un- memorizando esta frase: A not unblack dog was chasing a not unsmall rabbit accross a not ungreen field. [Um cão que não era não-preto perseguia um coelho que não era não-pequeno através de um campo que não era não-verde.]
Publicado originalmente em Horizon (Abril de 1946). Tradução portuguesa publicada em Por Que Escrevo e Outros Ensaios (Lisboa: Antígona, 2008)
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