Pascal Engel
27 de Fevereiro de 2012 ⋅ Opinião

Má filosofia analítica

Pascal Engel
Universidade de Genebra
Tradução de Desidério Murcho

Os filósofos analíticos, na sua maior parte, concordam que a filosofia deve satisfazer certos requisitos mínimos: deve ser clara, precisa, bem argumentada, apresentando uma tese explícita e exemplificando o princípio de que a verdade emerge mais prontamente do erro do que da confusão. Todos concordam que deve também ser interessante, relevante, razoavelmente original, rigorosa, e que deve avançar propostas teóricas ou críticas sobre os problemas e enigmas que têm dado forma à tradição analítica ou que são objecto das nossas preocupações actuais. Muitos filósofos acreditam que quando estes desideratos básicos são cumpridos, a filosofia analítica não pode ser má. Contudo, todos sabemos que há má filosofia analítica. Isto não deveria ser propriamente uma surpresa, mas é uma verdade desagradável.

Poder-se-ia pensar que a existência de má filosofia é apenas um efeito de perspectiva devido ao facto de a etiqueta “filosofia analítica” designar hoje, como defendeu Hans Johann Glock, mais uma quantidade de semelhanças de família do que um conjunto de propriedades definidas. Abrange bastantes estilos e doutrinas. Alguns filósofos analíticos gostam de metafísica, outros odeiam-na; alguns dão muito valor aos métodos formais, outros não gostam deles; alguns gostam da “poltrona”, outros não, e praticamente todos os campos tradicionais, da estética à filosofia da religião, estão agora representados na filosofia analítica. É quase inevitável que quem pratica um certo estilo tenda a considerar menos interessante quem pratica outro. Na verdade, o próprio facto de a filosofia analítica se ter tornado mais ou menos a filosofia dominante, tendo perdido alguns dos seus estereótipos (por exemplo, falta de interesse pela história da filosofia e a convicção de que a lógica e a filosofia da linguagem desempenham o papel principal) enfraqueceu o poder normativo dos padrões associados. Apesar destas diferenças, continua a ser verdade que a filosofia analítica é reconhecível, como afirmou Donald Davidson, não como uma “doutrina ou método” mas antes como “uma tradição e atitude”. A tradição pode ser vasta, tanto histórica como geograficamente, e a atitude pode por vezes ser difícil de identificar, mas seria um erro afirmar que não há pura e simplesmente qualquer concordância quanto ao que a boa filosofia analítica pode ser. Por que pode então a filosofia analítica ser má? Que podemos fazer quanto a isso?

Uma resposta simples é que em certos escritos denominados “analíticos” não se obedece aos padrões. A. J. Ayer costumava chamar “boa prosa” ao tipo de escrita filosófica que ele contrastava com “o género de disparate que recebemos da Alemanha e agora também da França”1, mas não raro este género de disparate é produzido por filósofos que têm a reputação de ser “analíticos”, ou que a ela aspiram. Neste caso, a filosofia analítica, como as malas Vuitton e os sapatos Prada, é vítima do seu próprio sucesso. Como todo o contrabando, a única coisa a fazer é detectá-lo.

Inversamente, a filosofia analítica má pode também ser o resultado da confiança excessiva dos filósofos analíticos nos seus padrões. Muito do que obedece ao estilo “profissional” dos filósofos analíticos pode levar à rotina e à escrita sem originalidade. Nas palavras de um crítico da filosofia linguística de Oxford, H. D. Lewis, “a clareza não chega”. Todos conhecemos muitos artigos que satisfazem bons padrões argumentativos, ou que exibem todas as marcas do rigor lógico, mas que não têm brilho nem originalidade. Demasiados artigos vão atrás das modas e são vítimas de uma dose de escolástica. Também isto é um efeito da expansão da filosofia analítica. O fenómeno é reforçado pela competição crescente por empregos e pela necessidade de publicar mais. Quine queixava-se disto já em 1974.2 Tinha saudades dos tempos da sua juventude em que a filosofia analítica era feita apenas pelos “mais dedicados e melhores”, quando havia pouquíssimos empregos e não havia a necessidade de “publicar ou perecer”, quando só circulavam cópias dactilografadas de artigos e havia poucas revistas (ele não assistiu aos Relatórios Gourmet, às classificações das revistas nem à Internet). Alguns espíritos maiores lamentam-se que 90% da filosofia contemporânea, incluindo a filosofia analítica, é treta. Presumivelmente, não incluem o seu próprio trabalho nas estatísticas. Talvez gostassem de voltar ao tempo em que a filosofia analítica era praticada pelos poucos felizes de alguns centros privilegiados, apesar de se preservar ao mesmo tempo as vantagens do mercado. No mundo académico de hoje isto é sonhar alto, como naqueles inquéritos em que 94% dos académicos pensam que são melhores do que o seu colega médio. O elitismo é uma opção, mas desde os tempos do Círculo de Viena até ao das universidades para as massas de hoje nunca fez parte do espírito da filosofia analítica, que é próximo do ideal tradicional da ciência democrática e se exprime lapidarmente na máxima de Peirce: “Para ser profundo é por vezes necessário não ter brilho”.

Mas certamente não queremos falta de brilho sempre e não queremos ganhar a democracia por via do tédio. Afinal, a verdade, que se apresenta de uma só maneira, é entediante, ao passo que o erro é diversificado. Tem de se dizer que grande parte da filosofia analítica é entediante, e grande parte dela está mal escrita. Devemos então renunciar à procura da verdade e dar um pouco mais de espaço ao erro em prol da prosa elegante e inteligente — e não apenas clara? Nenhum objectivo é mais caro ao coração dos filósofos analíticos do que a procura da verdade. Mas este ideal pode ser mal compreendido de dois modos.

Primeiro, é fácil esquecer que a escrita filosófica pode estar errada de um modo interessante. Nunca me pareceu suficiente objectar a um artigo dizendo simplesmente que não é verdadeiro ou que está errado. Efectivamente, quão errado podemos estar sendo interessante, e quão interessante podemos ser estando errados é uma questão de grau, mas a verdade nunca emerge de modo tão arrumado.

Segundo, é fácil esquecer que o estilo conta. Para a maior parte dos filósofos analíticos, é a mensagem que conta, e não o meio. Odeiam floreados retóricos, que servem perfeitamente para os filósofos continentais e para os espíritos literários. O estilo é encarado como algo sem importância quando só a verdade e o argumento contam. Mas também o desprezo pelo estilo pode estar errado. Como observou Bernard Williams:

“Qualquer leitor de filosofia analítica sabe bem, e nós que a perpetramos sabemo-lo demasiado bem, que este estilo procura eliminar antecipadamente todas as incompreensões, interpretações erradas ou objecções concebíveis, incluindo as que ocorreriam apenas a pessoas maliciosas ou clinicamente literalistas. Esta própria actividade é muitas vezes infelizmente identificada com a superior clareza e rigor da filosofia analítica.”3

Mesmo no seio da procura da verdade, o estilo conta. A elegância e a concisão tornam mais fácil ver a verdade, e para ser profundo é por vezes necessário ser enxuto. Muitos dos grandes filósofos analíticos são também grandes estilistas. Será pedir demasiado aos actuais praticantes da filosofia analítica que escrevam melhor? Parte do problema está no facto de a filosofia analítica ser agora internacional, tendendo o globês a substituir o inglês. Apesar de haver excelente filosofia analítica em italiano, francês, alemão, espanhol e noutras línguas, é mais fácil e mais compensador trabalhar na lingua franca. Mas também isto tem um preço. Michael Dummett queixou-se que os livros escritos em “academolíngua” não usam os recursos apropriados do inglês literato, estando portanto empobrecidos.4 A resposta a isto, como fizemos notar, é que o inglês está agora condenado a tornar-se macarrónico, podendo-se até avançar argumentos sobre a justiça linguística que concluem que tudo isto é pelo melhor.5 Impede isso quem não tem o inglês como língua materna de escrever bem e com estilo em filosofia? Nem todos podem ser um Joseph Conrad ou um Kazuo Ishiguro, mas, pace Dummett, há muitas pessoas cuja língua materna não é o inglês e que escrevem boa filosofia nessa língua.

Diz-se muitas vezes que a confiança quase calvinista dos filósofos analíticos na sua predestinação devido à sua reverência pela verdade, clareza e argumentação, os torna arrogantes. Não me importa a arrogância, se for apropriada, mas eu sugerir-lhes-ia que, se acaso querem encontrar sinais de que serão possivelmente eleitos, devem também atentar no seu estilo.6

Pascal Engel
pascal.engel@unige.ch
Publicado originalmente na Dialectica 66.1: 1-4 (Março 2012)

Notas

  1. Citado por H. J. Glock, What is Analytic Philosophy, Cambridge, Cambridge University Press, 2008, p. 170.
  2. W. V. O. Quine, “Paradoxes of Plenty”, Daedalus, 1974, 103, 4, reimpresso em Theories and Things, Harvard, Harvard University Press, 1981.
  3. “Philosophy as a Humanistic Discipline”, in Philosophy as a Humanistic Discipline, Princeton, Princeton University Press, 2008, p. 282.
  4. Michael Dummett, recensão de Pasquale Frascolla, Wittgenstein’s Philosophy of Mathematics, The Journal of Philosophy, XCIV, 7, Julho de 1997, pp. 559-589.
  5. Veja-se Philip Van Parijs, Linguistic Justice for Europe and for the World, Oxford, Oxford University Press, 20011.
  6. Gostaria de aproveitar a ocasião deste último trabalho como director da Dialectica para agradecer a todos os consultores e membros dos comités e conselhos editoriais que nos ajudaram a publicar não tão má filosofia analítica.
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