Sem Título, de s-a-m
15 de Março de 2011 ⋅ Filosofia da mente

O que Mary não sabia1

Frank Jackson
Tradução de Ricardo Miguel

Mary está fechada num quarto preto e branco, é educada por meio de livros a preto-e-branco e de aulas transmitidas numa televisão a preto-e-branco. Deste modo, aprende tudo o que há para conhecer sobre a natureza física do mundo. Conhece todos os factos físicos sobre nós e o nosso ambiente, num sentido lato de “físicos,” que inclui tudo em física, química e neurofisiologia completas, e tudo o que há para conhecer sobre os factos causais e relacionais que resultam de tudo isto, incluindo, claro, os papéis funcionais. Se o fisicismo for verdadeiro, Mary conhece tudo o que há para conhecer. Pois supor que não o conhece é supor que há mais para conhecer do que todo o facto físico, e isto é precisamente o que o fisicismo nega.

O fisicismo não é a tese incontroversa de que o mundo real é amplamente físico, mas a tese, que constitui um desafio, de que é inteiramente físico. É por isso que os fisicistas têm de sustentar que o conhecimento físico completo é um conhecimento completo simpliciter. Pois suponha-se que não o é: então o nosso mundo tem de se diferenciar de um mundo, M(P), para o qual é completo, e a diferença tem de ser em factos não físicos; pois o nosso mundo e M(P) concordam com respeito a todas as questões físicas. Logo, o fisicismo seria falso no nosso mundo [embora o fosse contingentemente, pois seria verdadeiro em M(P)].2

Parece, contudo, que Mary não conhece tudo o que há para conhecer. Pois quando a deixam sair do quarto a preto-e-branco ou lhe dão uma televisão a cores, aprenderá, digamos, como é ver algo vermelho. Isto é correctamente descrito como aprendizagem — Mary não dirá “pois.” Logo, o fisicismo é falso. Este é o argumento do conhecimento contra o fisicismo numa das suas versões.3 Esta nota é uma resposta a três objecções ao argumento elaboradas por Paul M. Churchland.4

I. Três esclarecimentos

O argumento do conhecimento não se apoia na afirmação duvidosa de que logicamente não se pode imaginar como é sentir vermelho a não ser que se tenha sentido vermelho. As capacidades de imaginação não estão em questão. A ideia acerca de Mary não é que, apesar do seu fantástico entendimento de neurofisiologia e de todas as outras coisas físicas, não podia imaginar como é sentir vermelho; é antes que, de facto, não o saberia. Mas se o fisicismo for verdadeiro, ela saberia; e nenhumas capacidades excepcionais de imaginação seriam precisas. A imaginação é uma faculdade a que precisa de recorrer quem não tem conhecimento.

Em segundo lugar, a intensionalidade do conhecimento não está em questão. O argumento não se apoia em pressupor falsamente que se S sabe que a é F e se a = b, então S sabe que b é F. O argumento diz respeito à natureza do corpo total de conhecimentos de Mary antes de ser libertada: é completo, ou escapam-lhe alguns factos? O que é relevante é que S pode saber que a é F e saber que a = b sem, contudo, argumentavelmente, saber que b é F, em virtude de não estar logicamente atento o suficiente para seguir todas as consequências. Se a falta de conhecimento de Mary fosse de todo em todo como esta, não haveria nela qualquer ameaça ao fisicismo. Mas é muito difícil acreditar que a sua falta de conhecimento poderia ser remediada se ela se limitasse a seguir explicitamente suficientes consequências lógicas do seu vasto conhecimento físico. Dotá-la de excepcional perspicácia lógica e persistência não é por si suficiente para colmatar as falhas do seu conhecimento. Ao ser-lhe permitido sair, Mary não dirá “Poderia ter percebido tudo isto antes, fazendo mais algumas inferências puramente lógicas.”

Em terceiro lugar, o conhecimento que faltava a Mary e que é de especial relevância para o argumento do conhecimento contra o fisicismo era o conhecimento sobre as experiências dos outros, e não sobre as suas. Quando lhe é permitido sair, Mary tem experiências novas, experiências de cor que nunca teve. Não é, portanto, uma objecção ao fisicismo que ela aprende algo ao ser-lhe permitido sair. Antes de lhe ter sido permitido sair, Mary não poderia ter conhecido factos sobre a sua experiência de vermelho, pois estes não existiam. Com isto tanto podem concordar o fisicista como o não fisicista. Depois de lhe ser permitido sair, as coisas mudam; e o fisicismo pode de bom grado admitir que ela o descobre; afinal, algumas coisas físicas irão mudar, por exemplo, os seus estados cerebrais e respectivos papéis funcionais. O problema para o fisicismo é que depois de Mary ver o seu primeiro tomate maduro, vai perceber quão empobrecida tem sido, desde o início, a sua concepção da vida mental dos outros. Irá perceber que havia, a todo o momento que efectuava as suas laboriosas investigações sobre as neurofisiologias dos outros e sobre os papéis funcionais dos seus estados internos, algo sobre estas pessoas de que não estava ciente de modo algum. Desde o início, as experiências alheias (ou muitas delas, as que tinham origem nos tomates, no céu, etc.) tinham uma característica conspícua para eles mas até agora oculta para ela (de facto, e não logicamente). Mas ela conhecia todos os factos físicos sobre as experiências alheias desde início; logo, o que não conhecia até ser libertada não era um facto físico sobre as suas experiências. Mas é um facto sobre elas. Esta é a dificuldade para o fisicismo.

II. As três objecções de Churchland

1.

A primeira objecção de Churchland é que o argumento do conhecimento tem uma falha que “não podia ser mais simples” (23). O argumento equivoca-se quanto ao sentido de “saber acerca de.” Como assim? Churchland sugere que o seguinte é “uma versão convenientemente rigorosa” do argumento do conhecimento:

  1. Mary sabe tudo o que há para saber acerca de estados cerebrais e suas propriedades.
  2. Não é verdadeiro que Mary sabe tudo o que há para saber acerca das sensações e suas propriedades.
    Logo, pela lei de Leibniz,
  3. As sensações e as suas propriedades ≠ estados cerebrais e suas propriedades. (23)

Churchland observa, o que é plausível, que o tipo ou espécie de conhecimento envolvido na premissa 1 é distinto da espécie de conhecimento envolvido na premissa 2. Podemos seguir a sua orientação e denominar o primeiro “conhecimento por descrição,” e o segundo “conhecimento por contacto;” mas, quaisquer que sejam as denominações, ele tem razão de que o argumento apresentado envolve um uso muitíssimo duvidoso da lei de Leibniz.

A minha resposta é que o argumento apresentado pode ser conveniente, mas não é fiel. Não é o argumento do conhecimento. Tome-se, por exemplo, a premissa 1. Toda a força do argumento do conhecimento está em que Mary (antes de ser libertada) não sabe tudo o que há para sabe sobre estados cerebrais e suas propriedades, porque não conhece certos qualia que lhes estão associados. O que é completo, de acordo com o argumento, é o seu conhecimento de questões físicas. Um modo conveniente e preciso de apresentar o argumento é:

  1. Mary (antes de ser libertada) sabe tudo o que de físico há para saber sobre outras pessoas.
  2. Mary (antes de ser libertada) não sabe tudo o que há para saber acerca de outras pessoas (porque descobre algo sobre elas quando é libertada).
    Logo,
  3. Há verdades sobre outras pessoas (e sobre ela própria) que ficam de fora da explicação fisicista.

O que está directamente em questão não é a espécie, modo, ou tipo de conhecimento que Mary tem, mas o que ela sabe. O que sabe previamente é ex hypothesi tudo o que de físico há para saber; mas será tudo o que há para saber? Esta é a questão crucial.

Há, porém, uma objecção relevante envolvendo questões acerca de tipos de conhecimento. Diz respeito ao que serve a apoio à premissa II. O que há a favor da premissa II é que Mary descobre algo quando é libertada, adquire conhecimento, e isto implica que o seu conhecimento prévio (o que ela sabia, independentemente de ser por descrição, contacto, ou o que for) era incompleto. A objecção, apresentada por David Lewis e Laurence Nemirow, é que quando é libertada Mary não descobre algo nem adquire conhecimento no sentido relevante. O que Mary adquire quando é libertada é uma certa capacidade representacional ou imaginativa: é um saber como e não um saber que. Logo, um fisicista pode admitir que Mary adquire algo muito revelador de um tipo de conhecimento — o que dificilmente se pode negar — sem admitir que isto mostra que o seu conhecimento factual anterior é incompleto. Ela conhecia previamente tudo o que havia para conhecer sobre as experiências dos outros, mas faltava-lhe uma competência até depois de ser libertada.5

Ora, é certamente verdade que Mary adquirirá vários tipos de competências depois ser libertada. Irá, por exemplo, ser capaz de imaginar e recordar como é ver vermelho, e será capaz de compreender por que os seus amigos a consideravam tão empobrecida (algo que, até ser libertada, sempre a intrigou). Mas será plausível que isto seja tudo o que adquire? Suponha-se que enquanto esteve encarcerada assistiu a uma aula sobre o cepticismo acerca de outras mentes. Quando é libertada vê um tomate maduro em condições normais e tem então uma sensação de vermelho. A sua primeira reacção é dizer que agora sabe mais sobre o tipo de experiências que os outros têm ao olhar para tomates maduros. Depois recorda-se da aula e começa a ficar insegura. Será que sabe realmente mais sobre como são as suas experiências, ou estará a incorrer numa generalização infundada a partir de um caso? Por fim, decide que de facto sabe, e que o cepticismo está errado (ainda que, como muitos de nós, não saiba demonstrar os seus erros). Sobre o que hesitava ela — as suas competências? Certamente que não; as suas competências representativas constituíram sempre uma constante conhecida. Sobre o que hesitava então, se não sobre ter ganho ou não conhecimento factual sobre os outros? Nada haveria sobre o que hesitar se a competência fosse tudo o que adquiriu quando foi libertada.

Concedo que não tenho qualquer demonstração de que ao ser libertada Mary adquire, além de competências, conhecimento factual sobre as experiências dos outros — e não apenas porque não tenho qualquer refutação do cepticismo. O que defendo é que o argumento do conhecimento é um argumento válido a partir de premissas muitíssimo plausíveis, embora admitidamente não demonstráveis, a favor da conclusão de que o fisicismo é falso. E isto, afinal, é uma objecção tão boa quanto se pode esperar nesta área da filosofia.

2.

A segunda objecção de Churchland (24-25) é que algo tem de estar errado com o argumento, pois demonstra demasiado. Suponha-se que Mary assistiu a uma série especial de aulas na sua televisão a preto-e-branco, dadas por um dualista convicto, explicando as “leis” que regem o comportamento do “ectoplasma” e falando-lhe dos qualia. Isto não afectaria a plausibilidade da afirmação de que descobre algo quando é libertada. Assim, se o argumento funciona contra o fisicismo, também funciona contra o dualismo.

A minha resposta é que aulas de televisão a preto-e-branco sobre qualia não ensinam a Mary tudo o que há para conhecer sobre qualia. Podem ensinar-lhe algumas coisas sobre qualia, por exemplo, que não fazem parte da explicação fisicista, e que o quale para o qual usamos “amarelo” é quase tão diferente daquele para o qual usamos “azul” como é o branco do preto. Mas porquê supor que lhe dizem tudo sobre qualia? Por outro lado, é plausível que as aulas pela televisão a preto-e-branco possam em princípio ensinar a Mary todas as coisas da explicação fisicista. Não é preciso televisão a cores para aprender física ou psicologia funcionalista. Para se obter um bom argumento contra o dualismo (o dualismo das propriedades; o ectoplasma é uma pequena brincadeira), é preciso substituir a premissa do argumento do conhecimento, segundo a qual Mary, antes de ser libertada, conhecia a explicação completa do fisicismo, pela premissa de que conhece a explicação completa do dualismo. A primeira é plausível; a última não. Logo, não há a dificuldade da “paridade de razões” para os dualistas que usam o argumento do conhecimento.

3.

A terceira objecção de Churchland é que o argumento do conhecimento afirma “que Mary nem sequer podia imaginar como seria a experiência relevante, apesar do seu exaustivo conhecimento neurocientífico, e portanto deve ainda faltar alguma informação crucial” (25), uma afirmação contra a qual passa a argumentar.

Mas, como salientámos anteriormente, o argumento do conhecimento afirma que Mary não iria saber como é a experiência relevante. O que ela podia imaginar é outra questão. Se o seu conhecimento é incompleto, apesar de ser tudo o que há para conhecer de acordo com o fisicismo, então o fisicismo é falso, quaisquer que sejam as suas capacidades de imaginação.

Frank Jackson
Originalmente publicado em The Journal of Philosophy, Vol. 83, N.º 5 (Maio, 1986), pp. 291-295.

Notas

  1. Devo muito a discussões com David Lewis e Robert Pargetter.
  2. A afirmação aqui não é que, se o fisicismo for verdadeiro, só o que for expresso em linguagem explicitamente física é um item de conhecimento. É antes que, se o fisicismo for verdadeiro, então se se conhece tudo o que é expresso ou exprimível em linguagem explicitamente física, conhece-se tudo. Pace Terence Horgan, “ Jackson on Physical Information and Qualia,” Philosophical Quarterly, XXXIV, 135 (April 1984): 147-152.
  3. Nomeadamente, o argumento do meu “Epiphenomenal Qualia”, ibid., XXXII, 127 (April 1982): 127-136. Ver também Thomas Nagel, “Como É Ser Um Morcego?”, Crítica, 2004 (originalmente publicado em Philosophical Review, LXXXIII, 4 (Outubro 1974): 435-450), e Howard Robinson, Matter and Sense (Nova Iorque: Cambridge, 1982).
  4. “Reduction, Qualia, and the Direct Introspection of Brain States,” The Journal of Philosophy, LXXXII, 1 (Janeiro 1985): 8-28. Excepto indicação contrária, as indicações seguintes de páginas referem-se a este artigo.
  5. Ver Laurence Nemirow, recensão de Thomas Nagel, Mortal Questions, Philosophical Review, LXXXIX, 3 (Julho 1980): 473-477, e David Lewis, “Postscript to “Mad Pain and Martian Pain””, Philosophical Papers, vol. 1 (Nova Iorque: Oxford, 1983). Churchland menciona Nemirow e Lewis, e poderá ser ter pretendido que a sua objecção seja essencialmente a que acabei de apresentar. Porém, diz bem explicitamente (fim da p. 23) que a sua objecção não precisa de uma análise do conhecimento relevante em termos de “competência.”
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