6 de Fevereiro de 2016   Filosofia política

A luta de Hitler

George Orwell
Tradução de Aluízio Couto
Mein Kampf
de Adolf Hitler
Tradução de Jaime de Carvalho
Lisboa: E-primatur, 2015, 656 pp.

É um sinal da rapidez com que os acontecimentos estão se sucedendo o fato de a edição sem cortes de Mein Kampf, de Hurst e Blackett, publicada há apenas um ano, ser editada de um ângulo pró-Hitler. A intenção óbvia do prefácio e das notas do tradutor é atenuar a ferocidade do livro e apresentar Hitler de um modo tão gentil quanto possível. Pois naquela data Hitler ainda era respeitável. Ele esmagara o movimento trabalhista alemão e por isso as classes detentoras de propriedade estavam dispostas a perdoá-lo por quase tudo. Tanto a esquerda quanto a direita concordaram com a ideia bastante superficial de que o Nacional Socialismo era meramente uma versão de conservadorismo.

E então repentinamente calhou de Hitler não ser, afinal, respeitável. Daí resulta que a edição de Hurst e Blackett foi reeditada com uma capa nova que explicava que todos os lucros seriam devotados à Cruz Vermelha. Mesmo assim, com base apenas nos indícios internos de Mein Kampf, é difícil acreditar que qualquer mudança real tenha ocorrido nas aspirações e opiniões de Hitler. Quando se compara as suas declarações de há aproximadamente um ano com as feitas há quinze anos, uma coisa que salta aos olhos é a rigidez do seu espírito, o modo como a sua visão do mundo não se desenvolve. É a perspectiva fixa de um monomaníaco, não muito propensa a ser afetada pelas manobras temporárias da política do poder. É provável que no espírito do próprio Hitler o pacto germano-soviético não represente mais do que uma alteração no cronograma. O plano formulado no Mein Kampf era o de esmagar a Rússia primeiro, com a intenção implícita de esmagar a Inglaterra depois. Agora calhou de se ter de lidar com a Inglaterra primeiro porque a Rússia era, das duas, a mais facilmente subornável. Mas a vez da Rússia virá quando a Inglaterra já estiver fora de cena – isso, sem dúvida, é o modo como Hitler vê as coisas. Se ocorrerá mesmo desse jeito é obviamente uma questão diferente.

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Suponha-se que o programa de Hitler pudesse ser posto em prática. O que ele vislumbra em cem anos é um estado contínuo de 250 milhões de alemães com uma abundância de “salas de estar” (i.e. chegando ao Afeganistão ou proximidades), um império estúpido e horrível no qual, essencialmente, nada ocorre com exceção do treinamento de jovens para a guerra e da eterna reprodução de noviços para servir de bucha de canhão. Como conseguiu ele dar visibilidade a essa perspectiva monstruosa? É fácil dizer que num ponto da sua carreira foi financiado pelos industriais da indústria pesada, que viam nele o homem que poderia esmagar os socialistas e os comunistas. No entanto, não o teriam apoiado se ele não tivesse já articulado um grande movimento. Uma vez mais, a situação na Alemanha, com seus sete milhões de desempregados, era obviamente favorável a demagogos. Mas Hitler não poderia ter sido bem-sucedido contra os seus vários rivais não fosse a atração exercida pela sua personalidade, que se pode sentir mesmo na escrita canhestra de Mein Kampf, e que é sem dúvida irresistível quando se ouve os seus discursos… O fato é que há algo profundamente apelativo em relação a ele. Sente-se isso de novo quando se vê as suas fotografias — e recomendo especialmente a foto que está no início da edição de Hurst e Blackett, que mostra Hitler nos seus tempos antigos de Camisa-Marrom. É uma face patética, canina, a face de um homem sofrendo de males intoleráveis. De uma maneira um tanto mais viril, reproduz a expressão de inúmeras imagens de Cristo crucificado, e não há muita dúvida de que é assim que Hitler se vê. Pouco mais se pode fazer do que especular sobre a causa inicial e pessoal do seu sentimento de injustiça contra o universo; mas, de qualquer maneira, o sentimento está aqui. Hitler é o mártir, a vítima, Prometeu acorrentado na rocha, o herói abnegado que luta sozinho contra adversidades impossíveis. Se ele fosse matar um rato, saberia fazê-lo parecer um dragão. Dá para sentir, como Napoleão, que está lutando contra o destino, que não pode vencer, mas que de alguma forma o merece. A atração exercida por essa pose é obviamente enorme; metade dos filmes que se veem exploram esse tema.

Além disso, compreendeu a falsidade da atitude hedonista perante a vida. Desde a última guerra, praticamente todo o pensamento ocidental, e certamente todo o pensamento “progressista”, pressupôs tacitamente que os seres humanos nada desejam além de conforto, segurança e fuga da dor. Nessa perspectiva de vida não há lugar, por exemplo, para o patriotismo e para as virtudes militares. O socialista que encontra seu filho brincando com soldados normalmente fica nervoso, mas nunca consegue pensar em substitutos para os soldadinhos de chumbo; pacifistas de chumbo não servem. Por senti-lo com vigor excepcional no seu espírito triste, Hitler sabe que os seres humanos não querem apenas conforto, segurança, poucas horas de trabalho, higiene, controle de natalidade e, em geral, senso comum; ao menos intermitentemente, querem luta e auto-sacrifício, sem falar em tambores, bandeiras e paradas que expressam lealdade. Independente de como se saem como teorias econômicas, o fascismo e o nazismo são psicologicamente muito mais sólidos do que qualquer concepção hedonista da vida. Provavelmente, isso também é verdadeiro acerca da versão militarizada do socialismo de Stálin. Todos os três grandes ditadores fortaleceram seu poder com a imposição de fardos intoleráveis sobre os seus povos. Enquanto o socialismo e, de modo mais relutante, o capitalismo disseram às pessoas “ofereço-vos bons tempos”, Hitler disse-lhes “ofereço-vos luta, perigo e morte”, e como resultado uma nação inteira se prostrou aos seus pés. Talvez mais tarde se cansem e mudem de ideia, como no fim da última guerra. Após alguns anos de matança e fome “a maior felicidade para o maior número de pessoas” torna-se um bom slogan, mas neste momento “melhor um fim com horror do que um horror sem fim” está na linha da frente. Agora que lutamos contra o homem que o batizou, não devemos subestimar o seu apelo emocional.

George Orwell

Publicado originalmente em 1940; republicado em The Collected Essays: Journalism and Letters of George Orwell, Volume 2, org. por Sonia Orwell e Ian Angus, 1968.