2 de Julho de 2016   Filosofia da mente

O enigma da experiência consciente

David J. Chalmers
Tradução de Luís M. S. Augusto

A experiência consciente é ao mesmo tempo a coisa que melhor conhecemos no mundo e a mais misteriosa. Não há nada que conheçamos de forma mais directa do que a consciência mas é incrivelmente difícil conciliá-la com o resto dos nossos conhecimentos. Porque é que existe? O que faz? Como é possível que nasça de processos neuronais no cérebro? Estas são algumas das questões mais intrigantes de toda a ciência.

De um ponto de vista objectivo, o cérebro compreende-se de forma razoável. Quando o leitor olha para esta página um turbilhão de processamentos tem lugar: fotões atingem a sua retina, sinais eléctricos são transmitidos para o seu nervo óptico e entre diferentes áreas do seu cérebro e você pode até responder com um sorriso, com um semblante de perplexidade ou com um comentário qualquer. Mas há também um aspecto subjectivo. Quando o leitor olha para a página, está consciente dela e experiencia directamente as imagens e as palavras como parte da sua vida mental privada. Tem impressões vividas de flores coloridas e do céu vibrante. Ao mesmo tempo, pode estar a sentir algumas emoções e a conceber pensamentos. Todas juntas essas experiências constituem a consciência: a vida interior, subjectiva, da mente.

Durante muitos anos, os investigadores do cérebro e da mente evitaram deliberadamente a consciência. A visão predominante era a de que a ciência, dependente da objectividade, não podia incluir algo tão subjectivo como a consciência. O movimento behaviorista na psicologia, dominante no início deste século, concentrou-se no comportamento exterior e excluiu qualquer menção a processos mentais internos. Mais tarde, o desenvolvimento das ciências cognitivas focou a atenção nos processos que ocorrem no interior da cabeça. Contudo, a consciência continuava fora de alcance, prestando-se somente a ser um assunto de discussões pela noite fora com uns copos pelo meio.

Nos últimos anos, contudo, um número cada vez maior de neurocientistas, psicólogos e filósofos tem rejeitado a ideia de que a consciência não pode ser estudada e está agora a tentar explorar os seus segredos. Como é de esperar de uma área tão recente, deparamo-nos com um emaranhado de teorias diferentes e antagónicas, as quais por vezes se servem dos mesmos conceitos básicos de formas completamente incompatíveis. Para ajudar a desemaranhar este problema é fundamental o raciocínio filosófico.

A multiplicidade de perspectivas dentro deste campo estende-se desde as teorias reducionistas, segundo as quais a consciência pode ser explicada pelos métodos convencionais das neurociências e da psicologia, até às posições mais esotéricas que afirmam que jamais chegaremos a compreender a consciência. Penso que uma análise aturada pode mostrar que ambas as posições estão erradas e que a verdade se encontra algures a meio caminho entre ambas.

Contra o reducionismo pretendo demonstrar que os utensílios das neurociências não podem fornecer uma descrição da experiência consciente, apesar do muito que têm para oferecer. Contra os esotéricos argumento que a consciência pode ser explicada por um novo tipo de teoria. Os pormenores de uma tal teoria ainda não estão disponíveis mas um raciocínio aturado e inferências baseadas em conhecimento de factos podem revelar algo sobre a sua natureza geral. Por exemplo, uma tal teoria envolverá provavelmente novas leis fundamentais e o conceito de informação pode vir a desempenhar um papel fundamental. Esta luz no fundo do túnel sugere que a teoria da consciência pode vir a ter consequências espantosas no que diz respeito à nossa visão do universo e de nós próprios.

O problema difícil

Os investigadores usam a palavra “consciência” de muitas maneiras diferentes. De modo a esclarecer a questão temos que primeiramente separar os problemas que se encontram geralmente associados sob o manto deste substantivo. Para tal penso que é útil distinguirmos entre os “problemas fáceis” e o “problema difícil” da consciência. Os problemas fáceis não são por isso triviais — pelo contrário, representam um desafio tão grande quanto a maioria dos problemas da psicologia e da biologia — mas é no problema difícil que se encontra o principal mistério.

Entre os problemas fáceis da consciência incluem-se os seguintes: Como pode um sujeito humano discriminar estímulos sensoriais e reagir a eles de forma apropriada? Como é que o cérebro integra informação de muitas fontes diferentes e usa essa informação para controlar o comportamento? Como é que os indivíduos conseguem verbalizar os seus estados internos? Apesar de todas estas questões estarem relacionadas com a consciência, todas elas dizem respeito aos mecanismos objectivos do sistema cognitivo. Assim sendo, temos todas as razões para esperar que a investigação em curso em psicologia cognitiva e nas neurociências acabe por responder a estas questões.

O problema difícil, pelo contrário, é a questão de como é que processos físicos no cérebro dão origem à experiência subjectiva. Este mistério envolve o aspecto interno do pensamento e da percepção: o modo como as coisas sentem para o sujeito. Quando vemos, por exemplo, experienciamos sensações visuais tais como a de um azul vivo. Ou pensamos no inefável som de um oboé distante, no sofrimento causado por uma dor intensa, num instante de felicidade ou na qualidade meditativa de um momento perdido em pensamento. Tudo isto faz parte daquilo que chamo consciência. São estes fenómenos que fazem o verdadeiro mistério da mente.

De modo a ilustrar a distinção recorramos a uma experiência de pensamento elaborada pelo filósofo australiano Frank Jackson. Suponhamos que a Maria, uma neurocientista do século XXIII, é a especialista mundialmente mais reputada nos processos cerebrais responsáveis pela visão da cor. Mas a Maria viveu toda a sua vida num quarto preto e branco e nunca viu quaisquer outras cores. Ela sabe tudo o que há para saber sobre os processos físicos cerebrais — a sua biologia, estrutura e função. Este conhecimento permite-lhe compreender tudo o que há para saber acerca dos problemas fáceis: como é que o cérebro discrimina estímulos, integra informação e produz relatos verbais. A partir do seu conhecimento sobre a visão das cores, ela sabe o modo como os nomes das diferentes cores correspondem a ondas no espectro da luz. Mas há algo crucial acerca da visão da cor que a Maria ainda não sabe: como é experienciar uma cor como o vermelho. Conclui-se que há factos sobre a experiência consciente que não são dedutíveis dos factos físicos acerca do funcionamento do cérebro.

A verdade é que ninguém sabe porque é que estes processos físicos são acompanhados por uma experiência consciente. Porque é que quando os nossos cérebros processam a luz num certo comprimento de onda temos a experiência de vermelho vivo? Já agora, porque é que temos experiência? Não poderia um autómato insconsciente realizar as mesmas operações tão bem quanto nós? Estas são perguntas às quais gostaríamos que a teoria da consciência pudesse responder.

Não nego que a consciência tenha origem no cérebro. Sabemos, por exemplo, que a experiência subjectiva da visão está intimamente ligada a processos no córtex visual. Mas é exactamente esta ligação que nos deixa perplexos. É decerto espantoso mas a experiência subjectiva parece ter origem num processo físico. E nós não fazemos a mínima ideia do como ou do porquê disto ser assim.

Serão as neurociências suficientes?

Se olharmos para a vaga de trabalhos recentes sobre a consciência levados a cabo nas neurociências e na psicologia, podemos pensar que o mistério está prestes a ser desvendado. Contudo, uma análise mais atenta mostra-nos que quase todo o trabalho em curso se centra somente nos problemas fáceis da consciência. A confiança da perspectiva reducionista advém dos progressos alcançados no que diz respeito aos problemas fáceis, mas nada disto faz qualquer diferença no que diz respeito ao problema difícil.

Considere-se a hipótese avançada pelos neurobiólogos Francis Crick do Salt Institute for Biological Studies em San Diego e Christof Koch do California Institute of Technology. Eles sugerem que a consciência pode ter origem em certas oscilações no córtex cerebral que se sincronizam quando os neurónios disparam 40 vezes por segundo. Crick e Koch acreditam que este fenómeno pode explicar como é que diferentes propriedades de um mesmo objecto percepcionado (a sua cor e a sua forma, por exemplo), processadas em diferentes partes do cérebro, se fundem num todo coerente. De acordo com esta teoria, dois blocos de informação combinam-se precisamente quando são representadas por disparos neuronais sincronizados.

Esta hipótese poderia esclarecer de forma plausível um dos problemas fáceis relativos ao modo como a informação é integrada no cérebro. Mas porque é que oscilações sincronizadas deveriam dar origem a uma experiência visual, independentemente da quantidade de integração a ter lugar? Esta questão envolve o problema difícil, para o qual a teoria em causa nada tem para oferecer. A verdade é que Crick e Koch são omissos em relação à questão se a ciência pode chegar a resolver o problema difícil.

Esta crítica pode aplicar-se a quase todo o trabalho recente sobre a consciência. Nos seu livro de 1991, Consciousness Explained, o filósofo Daniel C. Dennett expôs uma teoria sofisticada sobre o modo como numerosos processos independentes no cérebro se combinam entre si para produzir uma resposta coerente ao fenómeno percepcionado. Esta teoria pode ser útil para explicar como é que produzimos relatos verbais acerca dos nossos estados internos, mas não diz quase nada acerca da questão do porquê de uma experiência subjectiva por trás destes relatos. Como outras teorias reducionistas, a teoria de Dennett é uma teoria dos problemas fáceis.

A principal característica que estes problemas fáceis têm em comum é a de que todos eles tratam do modo como se desempenha uma função cognitiva ou comportamental. Em última instância, todos estes problemas se reduzem a questões acerca do modo como o cérebro desempenha determinadas tarefas: como discrimina estímulos, integra informação, produz relatos e por aí fora. Assim que a neurobiologia especificar os mecanismos neuronais apropriados, mostrando o modo como as funções se desempenham, os problemas fáceis estarão resolvidos. O problema difícil da consciência, pelo contrário, está para além dos problemas relativos ao modo como as funções se desempenham. Ainda que cada uma das funções cognitivas e comportamentais relacionadas com a consciência fossem explicadas, restaria sempre um mistério por explicar: porque é que o processamento destas funções é acompanhado por uma experiência consciente? É este enigma suplementar que faz com que o problema difícil seja difícil.

A falha explicativa

Houve quem sugerisse que para resolvermos o problema difícil temos que introduzir novos instrumentos de explicação física: dinâmica não-linear, por exemplo, ou as novas descobertas das neurociências, ou a mecânica quântica. Mas estas teorias sofrem exactamente do mesmo mal. Tomemos uma proposta de Stuart R. Hameroff da Universidade do Arizona e de Roger Penrose da Universidade de Oxford. Eles defendem que a consciência tem origem em processos quântico-físicos que ocorrem em microtúbulos, estruturas de proteínas no interior de neurónios. É possível (senão mesmo provável) que uma tal hipótese possa levar a uma explicação do modo como o cérebro toma decisões ou até do modo como ele prova teoremas matemáticos, tal como sugerem Hameroff e Penrose. Mas mesmo que consiga alcançar este feito, a teoria nada tem a dizer sobre o modo como estes processos podem dar origem à experiência consciente. De facto, verifica-se este problema em qualquer teoria da consciência que se baseie exclusivamente em processos físicos.

O problema é que as teorias físicas servem para explicar porque é que os sistemas têm uma determinada estrutura física e como é que eles desempenham as suas várias funções. A maior parte dos problemas científicos tem esta forma; para explicar a vida, por exemplo, precisamos de descrever o modo como um sistema físico se pode reproduzir, adaptar e fazer o seu metabolismo. Mas a consciência é um tipo de problema completamente diferente, na medida em que está para além da explicação da estrutura e da função.

Certamente que as neurociências não são irrelevantes para o estudo da consciência. Quanto mais não seja, podem ser capazes de revelar a natureza do correlato neuronal da consciência — os processos cerebrais mais directamente associados à experiência consciente. Pode mesmo chegar a fornecer uma correspondência pormenorizada entre processos específicos no cérebro e componentes da experiência com eles relacionados. Mas até sabermos porque é que esses processos dão origem à experiência consciente, não teremos ultrapassado aquilo que o filósofo Joseph Levine denominou a falha explicativa entre os processos físicos e a consciência. Para dar esse salto é necessário um novo tipo de teoria.

Uma teoria de tudo verdadeira

Ao procurarmos uma alternativa é bom ter em mente que nem todas as entidades da ciência são explicáveis em termos de entidades mais elementares. Na física, por exemplo, o espaço-tempo, a massa e a corrente eléctrica (entre outras coisas) são vistos como propriedades elementares do mundo não redutíveis a nada mais simples. Apesar desta irredutibilidade, há teorias pormenorizadas e úteis que relacionam estas entidades umas com as outras em termos de leis elementares. Em conjunto estas propriedades e estas leis explicam uma grande variedade de fenómenos complexos e obscuros.

Muita gente partilha da crença de que a física fornece um catálogo completo das propriedades e das leis elementares do universo. Como o físico Steven Weinberg diz na sua obra de 1992, Dreams of a Final Theory, o objectivo da física é uma “teoria de tudo” a partir da qual tudo o que se sabe acerca do universo pode ser derivado. Contudo, Weinberg concede que a consciência apresenta problemas especiais. Apesar do poder explicativo da teoria física, a existência da consciência não parece ser derivável das leis físicas. Uma maneira de ele defender a física é afirmar que ela acabará por explicar aquilo que ele chama os correlatos objectivos da consciência (ou seja, os correlatos neuronais), mas o que é certo é que isto não equivale a explicar a própria consciência. Se a existência da consciência não é derivável das leis da física, então uma teoria da física não é uma verdadeira teoria de tudo. Logo, uma teoria final tem que conter um componente suplementar elementar.

De modo a atingirmos esse objectivo proponho que se considere a experiência consciente como uma propriedade elementar, irredutível a algo mais simples. Esta ideia pode parecer inicialmente estranha, mas é exigida por questões de consistência. Descobriu-se no século XIX que os fenómenos electromagnéticos não podiam ser explicados em termos de princípios já conhecidos. A consequência disto foi que os cientistas introduziram a corrente electromagnética como uma nova entidade elementar e passaram a estudar as leis elementares que lhe estavam associadas. Devíamos aplicar o mesmo tipo de raciocínio no que diz respeito à consciência. Se as teorias existentes não conseguem explicá-la, então precisamos de algo novo.

Sempre que falamos de propriedades elementares, falamos igualmente de leis elementares. Neste caso, as leis devem relacionar a experiência com elementos da física. É quase certo que estas leis não irão interferir com as leis do mundo físico; parece que estas formam um sistema fechado de pleno direito. Pelo contrário, as leis irão servir como uma ponte, especificando o modo como a experiência depende de processos físicos subjacentes. É esta a ponte que irá suprimir a falha explicativa.

A ser assim, uma teoria completa terá dois componentes: leis físicas que exprimem o comportamento dos sistemas físicos do nível infinitesimal ao nível cosmológico e aquilo que poderemos chamar leis psicofísicas, as quais explicarão como é que alguns desses sistemas estão associados à experiência consciente. São estes dois componentes que irão constituir a verdadeira teoria de tudo.

À procura de uma teoria

Supondo, por enquanto, que elas existem, como é que podemos descobrir essas leis psicofísicas? O maior obstáculo para a consecução deste objectivo é a falta de dados. Do modo como a descrevi, a consciência é subjectiva, pelo que não temos nenhum meio de a controlar nos outros. Contudo, isto não representa um beco sem saída, mas tão somente um obstáculo. Para começar, cada um de nós tem acesso às suas próprias experiências, o que representa um manancial para a formulação de teorias. Podemos também confiar de forma plausível em informação indirecta como, por exemplo, as descrições que os sujeitos fazem das suas experiências. Os argumentos filosóficos e as experiências de pensamento também têm um papel a desempenhar. É certo que estes métodos apresentam limitações, mas oferecem-nos mais do que o suficiente para deitarmos mãos à obra.

Estas teorias não serão testáveis de forma conclusiva, pelo que serão inevitavelmente mais conjecturais do que as teorias das disciplinas científicas mais convencionais. Contudo, não há nenhuma razão para que elas não possam ser fortemente circunscritas, de modo a poderem explicar de modo preciso quer as nossas experiências na primeira pessoa, quer os testemunhos dos relatos por parte de sujeitos. Caso encontremos uma teoria que explique melhor os dados do que uma outra teoria qualquer de igual simplicidade, então temos boas razões para a adoptarmos. Neste preciso momento nem sequer temos uma teoria que se adeque aos dados que possuímos, pelo que quaisquer preocupações com a testabilidade são prematuras.

Podemos começar por procurar leis de ligação de nível superior que ligam processos físicos à experiência a um nível comum. Os contornos básicos de uma tal lei podem ser esboçados a partir da observação do facto de que quando estamos conscientes de algo, somos regra geral capazes de agir de acordo com isso ou de falar sobre isso — e estas são funções físicas, objectivas. Por outro lado, quando há informação directamente disponível para a acção e para a linguagem, essa informação é geralmente consciente. Assim, a consciência correlaciona-se bem com aquilo que podemos chamar “conhecimento” (awareness)1: o processo pelo qual informação no cérebro se torna globalmente disponível para os processos motores tais como a linguagem e a acção física.

A noção pode parecer trivial. Mas tal como o defino aqui, o estar ciente (awareness) é objectivo e físico, o mesmo não se passando com a consciência. Precisamos de limar a definição de estar ciente de modo a podermos alargar o conceito aos animais e às crianças, ambos incapazes de usar a linguagem. Mas podemos, pelo menos nos casos que conhecemos melhor, ver os contornos de uma lei psicofísica: sempre que há estar ciente (awareness), há consciência, e vice-versa.

De modo a avançarmos nesta linha de pensamento, debrucemo-nos sobre a estrutura presente na experiência consciente. A experiência de um campo de visão, por exemplo, é um mosaico de cores, formas e padrões em constante mutação e como tal possui uma estrutura geométrica. O facto de podermos descrever esta estrutura, nomear muitos dos seus constituintes e realizar outras acções que dependem dessa estrutura sugere que ela corresponde directamente à estrutura da informação tornada disponível no cérebro através dos processos neuronais do estar ciente (awareness).

De modo semelhante, as nossas experiências da cor têm uma estrutura tridimensional intrínseca que se espelha na estrutura dos processos de informação no córtex visual. Esta estrutura é representada pelos círculos e tabelas de cores usadas pelos pintores. As cores ocupam uma posição de acordo com um padrão sistemático: do vermelho ao verde num eixo, do azul ao amarelo no outro, e ainda do preto ao branco num terceiro eixo. As cores próximas umas das outras num círculo de cores são experienciadas como semelhantes. É mais que provável que elas também correspondam a representações perceptivas semelhantes no cérebro, como parte de um sistema de complexa codificação tridimensional entre neurónios, um sistema que ainda não compreendemos completamente. Podemos reformular o conceito subjacente como um princípio de coerência estrutural: a estrutura da experiência consciente espelha-se na estrutura da informação no estar ciente (awareness) e vice-versa.

Um outro candidato a uma lei psicofísica é um princípio de invariância organizacional. Segundo este princípio, sistemas físicos com a mesma organização abstracta darão origem ao mesmo tipo de experiência consciente, independentemente daquilo de que são feitos. Por exemplo, se as interacções precisas entre os nossos neurónios pudessem ser reproduzidas com chips de silicone, o mesmo tipo de consciência originar-se-ia. Esta ideia é algo controversa mas penso que certas experiências mentais que descrevem a substituição gradual de neurónios por silicone a defendem bastante bem. A implicação digna de nota é que a consciência pode vir a ser obtida em máquinas.

Informação: física e experiencial

O objectivo último de uma teoria da consciência é alcançar um conjunto simples e elegante de leis elementares, análogas às leis elementares da física. Contudo, os princípios acima definidos possivelmente não são elementares. Parecem ser, pelo contrário, leis psicofísicas de nível superior análogas aos princípios macroscópicos na física como os princípios da termodinâmica e da cinemática. Quais poderão ser as leis elementares subjacentes? Ninguém sabe, mas eu não me importo nada de conjecturar.

Avanço que as leis psicofísicas primárias poderão envolver de modo central o conceito de informação. A noção abstracta de informação, tal como foi proposta nos anos 40 por Claude E. Shannon do Massachusetts Institute of Technology, é a de um conjunto de estados separados com uma estrutura básica de similaridades e diferenças entre si. Podemos conceber um código binário de 10 bits como um estado informacional, por exemplo. Esses estados informacionais podem ser concretizados no mundo físico. Isto acontece sempre que eles correspondem a estados físicos (voltagens, por exemplo); as diferenças entre eles podem ser transmitidas ao longo de um percurso como as linhas de telefone.

Podemos também encontrar informação concretizada na experiência consciente. O padrão de manchas de cor num campo visual, por exemplo, pode ser visto como sendo análogo ao padrão dos pixels que cobrem um ecrã. Surpreendentemente, encontramos os mesmos estados informacionais implicados na experiência consciente e nos processos físicos do cérebro. A codificação tridimensional dos espaços de cor, por exemplo, sugere que o estado informacional numa experiência de cor corresponde directamente a um estado informacional no cérebro. Podemos mesmo encarar os dois estados como aspectos distintos de um único estado informacional que é simultaneamente concretizado no processamento físico e na experiência consciente.

Daqui se segue uma hipótese natural. Talvez a informação, ou pelo menos alguma informação, apresente dois aspectos básicos: um aspecto físico e um aspecto experiencial. Esta hipótese tem o estatuto de um princípio fundamental que pode subjazer à relação entre processos físicos e experiência. Onde quer que seja que encontremos experiência consciente ela existe como um aspecto de um estado informacional, sendo que o seu outro aspecto está concretizado num processo físico no cérebro. Mas tal ajusta-se bem aos princípios mencionados acima — sistemas com a mesma organização concretizarão a mesma informação, por exemplo — e pode explicar muitas das características da nossa experiência consciente.

Esta teoria é pelo menos compatível com muitas outras, por exemplo, com a hipótese do físico John A. Wheeler de que a informação é fundamental para a física do universo. As leis da física poderão vir a ser enunciadas em termos informacionais, o que permitiria uma congruência satisfatória entre as construções quer das leis da física quer das leis psicofísicas. Pode até mesmo vir a dar-se o caso de uma teoria da física e uma teoria da consciência acabarem por se consolidarem numa teoria da informação mais abrangente.

A ubiquidade da informação pode representar um potencial problema. Até mesmo um termóstato substancia alguma informação, por exemplo, mas estará ele consciente? Há pelo menos duas respostas possíveis para esta questão. Em primeiro lugar, podíamos circunscrever as leis elementares de modo a que somente alguma informação tenha um aspecto experiencial, talvez dependente do modo como é processada fisicamente. Em segundo lugar, podemos resignar-nos à partida e deixar que toda a informação tenha um aspecto experiencial — onde ocorrer processamento de informação complexa há experiência complexa, e onde ocorrer processamento de informação simples há experiência simples. A ser assim, até mesmo um termóstato poderia ter experiências, ainda que estas fossem bastante mais simples do que até mesmo a mais básica experiência de cor e não fossem acompanhadas de emoção ou pensamento. Isto parece estranho à primeira vista, mas se a experiência é verdadeiramente fundamental, então pode bem dar-se o caso que ela seja amplamente difundida. Seja como for, a escolha entre estas alternativas deveria depender da questão de qual delas pode ser integrada na teoria melhor de que dispomos.

É possível que tais teorias estejam completamente erradas. Por outro lado, podem muito bem vir a desenvolver-se até formarem uma teoria mais forte capaz de predizer a estrutura precisa da nossa experiência consciente a partir de processos físicos nos nossos cérebros. No caso de este projecto ser bem-sucedido, teremos boas razões para aceitar a teoria. Caso contrário, se ela falhar, outros caminhos serão percorridos e outras teorias elementares alternativas serão formuladas. Deste modo pode bem ser que um dia possamos chegar a resolver o maior mistério da mente.

David J. Chalmers

Retirado de Scientific American, 237(6):62–68, Dezembro de 1995. David Chalmers gentilmente permitiu a tradução e publicação deste artigo.

Apêndice: qualia bailando num cérebro artificial

Uma questão que muita gente acha verdadeiramente fascinante é a da possibilidade de a consciência poder emergir de um sistema complexo artificial. Embora estejamos a décadas ou até mesmo a séculos de distância da construção de um tal sistema, temos uma experiência de pensamento simples que oferece bons indícios de que um cérebro artificial, se organizado de modo apropriado, teria o mesmo tipo de experiências conscientes de um ser humano.

Imaginemos um sistema de silicone no qual os chips estão organizados e funcionam do mesmo modo que os neurónios no nosso cérebro. Ou seja, cada chip no sistema de silicone faz exactamente aquilo que o seu análogo natural faz e está interligado com os elementos circundantes precisamente do mesmo modo. Deste modo, o comportamento do sistema artificial será exactamente o mesmo que o nosso. A pergunta fulcral é: Estará ele consciente do mesmo modo que nós?

Suponhamos, para argumentar, que não. (Usamos aqui um método de raciocínio conhecido como reductio ad absurdum no qual se assume a hipótese contrária e se demonstra que ela leva a uma conclusão insustentável.) Ou seja, ou esse sistema tem experiências diferentes — tem, por exemplo, uma experiência da cor azul enquanto nós vemos a cor vermelha — ou pura e simplesmente não tem qualquer experiência. Consideraremos o primeiro caso; o raciocínio é semelhante em ambos os casos.

Visto que os chips e os neurónios têm a mesma função, eles são intercambiáveis com o interfacing apropriado. Assim sendo, os chips podem substituir os neurónios, produzindo uma sequência de casos nos quais uma proporção sucessivamente maior de neurónios é substituída por chips. Ao longo desta sequência a experiência consciente do sistema irá também ela modificar-se. Por exemplo, podemos substituir todos os neurónios do nosso córtex visual por uma versão feita de silicone com idêntica organização. O cérebro daí resultante, possuindo um córtex visual artificial, terá uma experiência consciente diferente da do cérebro original: onde nós víamos vermelho podemos agora experienciar o púrpura (ou talvez mesmo um cor de rosa esbatido, no caso de o sistema integralmente feito de silicone não ter qualquer experiência).

Ambos os córtices visuais são então ligados aos nossos cérebros por meio de um interruptor de duas posições. Com o interruptor numa posição usamos o nosso córtex visual natural e com o interruptor na outra posição activamos o córtex visual artificial. Quando se muda a posição do interruptor, a nossa experiência passa de vermelho a púrpura ou vice- versa. Se mudarmos as posições do interruptor repetidamente, as nossas experiências “bailarão” entre os dois estados conscientes diferentes (vermelho e púrpura), conhecidos como qualia.

Visto que a organização do nosso cérebro não se alterou, não pode haver, contudo, uma alteração comportamental quando se muda a posição do interruptor. Logo, quando nos perguntarem o que vemos, diremos que nada mudou. Poderemos jurar que vemos vermelho e que não vemos nada mais que vermelho — ainda que as duas cores bailem em frente aos nossos olhos. Esta conclusão é tão impensável que será melhor que seja concebida como um reductio ad absurdum da hipótese original: que um sistema artificial com organização e funcionamento idênticos tem uma experiência consciente diferente daquela de um cérebro neuronal. Voltarmos atrás na nossa hipótese estabelece o contrário: que sistemas com a mesma organização têm a mesma experiência consciente.

D.C.