Da Terra ao Universo (pormenor), de Donato Giancola
24 de Setembro de 2004 ⋅ Filosofia da mente

O enigma da experiência consciente

David J. Chalmers
Universidade de Arizona

Em 1995, David Chalmers (n. 1966) publica na afamada "Scientific American" o artigo "O Enigma da Experiência Consciente"; a publicação de um artigo de teor filosófico sobre a consciência numa revista maioritariamente naturalista pode representar uma abertura dos campos mais duros das ciências naturais a uma abordagem filosófica. Tal bastaria já só por si para fazer deste artigo um marco na história das relações da filosofia com as ciências, até porque o artigo apresenta um diálogo aberto com a teoria neurobiológica da consciência avançada por Francis Crick e Christof Koch. Mas os pontos verdadeiramente centrais deste artigo são a introdução daquilo que Chalmers chama o "problema difícil" e as soluções que ele propõe para a sua resolução. O autor distingue os problemas fáceis da consciência, aqueles que dizem respeito aos mecanismos objectivos do sistema cognitivo e que virão muito provavelmente a ser elucidados pelas neurociências, daquilo que ele denomina o problema difícil: como é que os processos físicos no cérebro dão origem à experiência subjectiva ou, por outras palavras, à consciência? Ao contrário dos primeiros, este mistério não será resolvido pelos métodos das neurociências ou da psicologia, quer usados por cientistas (Crick e Koch, Hameroff e Penrose) quer por filósofos (Daniel Dennett), na medida em que estes só abordam os chamados problemas fáceis. No fundo, o problema difícil de Chalmers é o porquê da consciência, um problema que está para além das explicações estruturais ou funcionais que mais não fazem do que prolongar a falha explicativa. Na medida em que Chalmers defende uma abordagem integrada da consciência, ele propõe que a consciência, ou experiência consciente, seja considerada uma propriedade elementar, irredutível a algo mais simples (pelo que não é uma postura reducionista do tipo da de Patricia Churchland); uma teoria completa da realidade terá que incluir este elemento e explicar a sua existência através de dois tipos de leis, físicas e psicofísicas. Mas se as primeiras não apresentam grandes dificuldades, as segundas pura e simplesmente não existem por falta de dados, falta essa que se deve ao seu carácter subjectivo. O interesse fundamental deste artigo reside precisamente nas soluções que Chalmers apresenta para suprir esta falta.

A tradução portuguesa, de Luís M. S. Augusto, é disponibilizada na Crítica, com a autorização do autor, em PDF.

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