Autoretrato I (pormenor), de David Tomb
24 de Setembro de 2004 ⋅ Filosofia da mente

Conhecer a própria mente

Donald Davidson

O artigo de Donald Davidson (1917-2003), "Conhecer a Própria Mente", publicado em 1987, é um exemplo do diálogo constante — nem sempre pacífico — que os filósofos da tradição analítica mantêm entre si: neste texto, Davidson defende uma posição em termos gerais holista (do grego hólos: todo, completo, tudo) que vai contra as posturas exclusivamente internalistas ou externalistas. Este holismo pretende, talvez paradoxalmente, salvar a autoridade da primeira pessoa no que diz respeito à consciência e ao conhecimento dos seus próprios estados mentais. Putnam e outros negam que os estados psicológicos (ter crenças, desejos, etc.) possam ser simultaneamente 1) internos — na medida em que não necessitam de quaisquer outros indivíduos para existirem — e 2) externos, isto é, em relação com o mundo exterior (identificam entidades, causas, etc.); para Davidson, pelo contrário, é a não-simultaneidade destas duas condições que implica a perda da autoridade da primeira pessoa em relação aos seus estados mentais, seja porque, satisfazendo somente a primeira condição, estamos perante o solipsismo, a crença de que para além de mim só existem as minhas experiências, enquanto que, no caso de se satisfazer somente a segunda condição, nos deparamos com o externalismo radical, segundo o qual os estados mentais dependem da imersão no mundo exterior, pelo que o sujeito não tem qualquer autoridade sobre os conteúdos da sua mente para além daquela que lhe é dada pelas convenções exteriores, nomeadamente linguísticas. A posição holista de Davidson defende, pois, que as duas condições podem ser simultaneamente satisfeitas e que, aliás, só assim se garante a autoridade da primeira pessoa: o meu conhecimento da minha própria mente depende do meu conhecimento dos outros e do mundo, não havendo, logo, objectos mentais privados aos quais só eu teria acesso; mas isso não impede que a minha vida mental seja minha, até porque os meus estados mentais são idênticos a estados do meu corpo. Esta identidade não implica a redução: duas pessoas podem ser fisicamente as mesmas e ter uma vida mental diferente na medida em que as suas histórias causais são diferentes, determinando o seu conhecimento de si, dos outros e do mundo. Esta posição é defendida por Davidson através do famoso exemplo do Homem dos Pântanos, o qual recebeu uma atenção desmesurada em relação ao uso pouco desenvolvido que o autor dele fez. Este exemplo (bem como alguns outros) causou tantos mal-entendidos e ataques que Davidson chegou mesmo a desejar nunca o ter usado.

O pensamento de Davidson é extremamente complexo, tratando simultaneamente e de forma interligada dos três principais objectos da filosofia da mente: a consciência, a racionalidade e a intencionalidade. Estas breves notas não fazem de modo algum justiça ao artigo em si nem, muito menos, ao pensamento do autor. Não é aqui o lugar para tratar do seu pensamento, mas importa, talvez, ler o artigo à luz de uma teoria de Donald Davidson que define grandemente toda a sua postura perante a filosofia da mente, a saber, o monismo anómalo, segundo o qual embora as ocorrências mentais sejam idênticas a estados físicos, não há quaisquer leis rígidas que relacionem as ocorrências físicas e mentais. Esta posição preserva em parte o fisicismo e permite a salvaguarda da psicologia do senso comum (folk psychology) que "postula" que temos crenças, pensamentos, intenções, significados — vida mental.

A tradução portuguesa, de Luís M. S. Augusto, é disponibilizada na Crítica, com a autorização do autor, em PDF.

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