Why There Is Something Rather Than Nothing
15 de Janeiro de 2005 ⋅ Metafísica

Por que há algo e não o nada?

Desidério Murcho
Why There Is Something Rather Than Nothing, de Bede Rundle
Oxford: Oxford University Press, 2004, 216 pp.
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Abordando directamente e sem rodeios a questão claramente formulada por Leibniz ("Por que há algo e não o nada?"), Rundle oferece uma resposta que contraria a um tempo as respostas religiosas e algumas das respostas científicas. Não se pode avaliar uma teoria de um filósofo sem compreender cabalmente o problema ou plêiade de problemas que ele procura resolver. As mentes que sofrem de cientismo e desconhecimento têm tendência para rir e brincar com este problema, como se fosse apenas uma confusão, um jogo de palavras, uma tolice enfim. A chatice é que é muito difícil mostrar onde está a confusão e o jogo de palavras, pois aparentemente estamos a fazer precisamente o mesmo que faz um cientista quando se pergunta por que razão numa determinada zona do sistema solar há asteróides e não o espaço vazio. E a resposta será, neste caso, de carácter causal e temporal: irá apelar para estados anteriores do sistema solar, e para uma teia causal que deu origem à cintura de asteróides. A pergunta "Por que há algo e não o nada?" tem precisamente a mesma estrutura, mas aplica-se à totalidade do universo, e não apenas a um dos seus elementos. O universo, com tudo o que contém, existe. À partida, este parece um facto contingente, como é contingente a existência da cintura de asteróides. Nesse caso, parece que tem de haver uma explicação para a existência do próprio universo.

As duas reacções mais intuitivas ao problema consistem em procurar fazer-nos parar de pensar — não porque se tenha resolvido ou dissolvido o problema, mas porque se insiste numa estratégia enganadora. A primeira dessas reacções é a sobrenatural ou religiosa. Rundle argumenta que as respostas religiosas são ilusórias porque deixam a existência de Deus por explicar, declarando-a necessária:

uma crença inabalável de que tem de haver uma explicação não garante que a hipótese sobrenatural proposta conta como explicação, e que ao chamar a algo um milagre estamos a fazer mais do que a colar uma etiqueta que diz "Por Explicar". (p. 28)

A segunda dessas reacções consiste em afirmar apenas que a existência do universo é um facto bruto, que não requer explicação. Sem mais explicações convincentes, esta reacção é apenas uma recusa em avançar qualquer explicação. Outra resposta mais sofisticada, e subtilmente falaciosa, é a resposta do chamado princípio antrópico ou do "fine tuning" — cujas insuficiências são claramente expostas por Rundle.

Ao analisar as respostas disponíveis e ao propor a sua resposta naturalista, o autor aborda vários temas relacionados, de importância vital mesmo para quem não tem interesse no tema central do livro: a natureza das explicações e afirmações teológicas, assim como da causalidade e da necessidade, a ideia de essência e existência, e a dualidade entre a matéria e o abstracto, entre outros. Uma leitura obrigatória para qualquer estudante ou profissional de filosofia, e uma descoberta fascinante para o grande público.

Desidério Murcho
Texto publicado no jornal Público (24 de Julho de 2004)
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