26 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

O que é isso — metafilosofia?

Luiz Helvécio Marques Segundo
Universidade Federal de Ouro Preto

A metafilosofia — assim como a estética, a metafísica, a epistemologia, e etc. — é uma disciplina filosófica por excelência. O seu objeto de estudo é a própria filosofia, i.e., a metafilosofia é a filosofia da filosofia. Eis algumas questões metafilosóficas centrais:

O meu objetivo aqui é apenas indicar a existência desse tipo de questões filosóficas.

Antes de se ter tornado uma disciplina explícita, a metafilosofia estava já presente nas grandes discussões filosóficas desde os gregos. O próprio Sócrates (c. 496-399 a.C.) afastou-se das especulações dos seus predecessores (os pré-socráticos) por pensar que a filosofia se deveria voltar mais para questões humanas do que para questões cosmológicas. Descartes (1596-1650) queixou-se do modo de filosofar dos medievais, talvez por fazerem uma dieta excessivamente aristotélica, e propôs o seu próprio método, acreditando que o edifício do conhecimento deveria ser erigido a partir de bases sólidas, construídas após a demolição das antigas. Não satisfeito com o método cartesiano, Peirce (1839-1914), séculos depois, propôs que a filosofia deveria se tornar científica. Os filósofos a partir de agora deveriam se concentrar nos efeitos práticos das teorias filosóficas (poder de previsão, explicação, economia, etc.). Houve ainda filósofos como Heidegger (1905-1976), pelo menos o segundo, que propuseram que a filosofia fosse feita como uma atividade contemplativa como a poesia. Houve também filósofos que sustentaram que a filosofia deveria se preocupar apenas com a clarificação da nossa linguagem comum. Qual deles está certo? Não sei. Cada um ofereceu um conjunto de razões na tentativa de justificar os seus pontos de vista. Cabe-nos avaliar esses pontos de vista e dizer quem tem razão.

Veja-se outro exemplo de metafilosofia. Wittgenstein (1889-1951), no intento de resolver — ou melhor dizendo, dissolver — todos os problemas filosóficos, sustentou que na realidade não havia problemas filosóficos; ao invés, todos os pretensos problemas da filosofia eram, na verdade, pseudoproblemas. Esses pseudoproblemas surgem porque usamos a linguagem de maneira demasiado descuidada (para não dizer que abusamos dela) ao ponto de fazer uma imensa confusão conceitual que praticamente nos obriga a aceitar problemas como “Teremos livre arbítrio ou não?”. Este é realmente um problema para a filosofia, em particular para a metafilosofia: saber se há problemas filosóficos genuínos ou se na verdade não passam de pura confusão conceitual.

A metafilosofia também se ocupa de saber se os filósofos buscam sempre a verdade. Parece razoável aceitar (e é isso que lemos em muitos textos filosóficos) que os filósofos são mais amigos da verdade do que tudo. Mas também se pode duvidar disso; talvez a verdade nem tenha importância central na atividade filosófica, e tudo o que importa seja apenas a criação de ficções úteis que apazigúem as nossas inquietações intelectuais. Mais uma vez, o filósofo da filosofia entra em cena: será verdadeira a posição que sustenta que a verdade não é o objetivo central da filosofia?

Ouvimos falar freqüentemente de filósofos orientais: Buda (c. 563-483 a.C), Sun Tzu (544-496 a. C.), Confúcio (551-479 a. C), etc. Será que estes homens fizeram filosofia? Afinal, o modo como tratavam questões importantes como “Terá a vida sentido?” ou “Existe um Deus?” não se parece muito com o modo como Aristóteles ou Schopenhauer as trataram. Será que podemos encontrar um critério que nos permita dizer quando há e quando não há filosofia?

Tentei mostrar algumas questões que fazem parte da metafilosofia. Essa apresentação não foi de modo algum completa. Também não pretendi ser rigoroso. O meu único intuito foi apresentar uma área da filosofia que há muito é explorada, e que como toda a boa discussão filosófica gera muito desacordo e debate entre filósofos, estudantes e simpatizantes. Se o leitor não ficou convencido de que a metafilosofia é importante, convido-o a refutar esta ideia — mas não vale usar qualquer pressuposto metafilosófico, ou seja, não vale usar pressupostos acerca de como se faz filosofia, pois se o fizer estará provando a importância da metafilosofia.

Luiz Helvécio Marques Segundo
luizhelveciomarques@yahoo.com.br
Universidade Federal de Ouro Preto
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