26 de Abril de 2010   Filosofia da religião

Reflexões sobre o ateísmo

Um Mundo sem Deus: Ensaios sobre o Ateísmo
dir. Michael Martin
Tradução de Desidério Murcho
Lisboa: Edições 70, 2010, 426 pp.

The Cambridge Companion to Atheism, no original, apresenta dezoito ensaios sobre vários aspectos relacionados com o ateísmo: aspectos históricos, filosóficos, sociológicos, antropológicos e até psicológicos. Sob a direcção de Michael Martin, especialista de renome desta área de estudos, trata-se de um volume pluridisciplinar, interessante não apenas para estudantes e professores de filosofia, teologia, antropologia, etc., mas também para o grande público. Efectivamente, a discussão pública de temas relacionados com a religião tem crescido nos últimos tempos, mas infelizmente nem sempre com o distanciamento e a verdade que seria desejável, transformando-se muitas vezes em mero combate político. Não é isso que encontramos aqui. Encontra-se, antes, um conjunto de artigos cuidadosamente pensados sobre vários aspectos relacionados com o ateísmo e a vida e ideias religiosas.

Sobre o autor

Nascido em 1932, Michael Martin é professor emérito na Universidade de Boston, e um dos mais conhecidos especialistas em filosofia da religião. Autor de inúmeros artigos nas revistas da especialidade, é também autor dos livros Atheism: A Philosophical Justification (1989), The Case Against Christianity (1991), Atheism, Morality, and Meaning (2002), The Impossibility of God (2003) e The Improbability of God (2006).

Viver para quê?

Excerto

Há uma diversidade de teorias antropológicas da religião. Baseiam-se ora em ideias de estruturas humanas sociais, emoções ou cognição. A maior parte concentra-se numa delas, mas algumas combinam mais de uma. Algumas olham para lá da natureza humana, para os outros animais, procurando análogos ou precursores da religião. Algumas teorias são próprias da antropologia, mas muitas foram tomadas de empréstimo. Assim, qualquer exame tem de ser também abrangente e de incluir material que não seja apenas antropológico. Ofereço aqui uma breve panorâmica histórica e um olhar sobre uma promissora abordagem contemporânea.

Nenhuma descontinuidade forte ou qualquer característica única distingue as explicações antropológicas da religião das suas antepassadas ou das explicações de outras disciplinas. Contudo, algumas características comuns tendem a agrupá-las separadamente. Destas, são centrais o humanismo, evolucionismo e comparações interculturais. O humanismo na antropologia quer simplesmente dizer que as explicações da religião (como os outros aspectos do pensamento e acção humanas) são seculares e naturalistas. Explicam as religiões como produtos da cultura e natureza humanas, e não como manifestações de algo transcendental, sobrenatural ou sui generis em qualquer aspecto.

O evolucionismo darwinista — a perspectiva de que todas as formas de vida são produtos da selecção natural — é também básico na antropologia, distinguindo-a de algum modo de outras disciplinas que estudam a religião. O evolucionismo não é surpreendente, é claro, na antropologia biológica, uma das suas grandes subdisciplinas. Mas mesmo na antropologia cultural, fundada pouco depois de Darwin, a selecção natural é fundacional. Na verdade, o evolucionismo cultural foi a “perspectiva com a qual a antropologia veio à vida” (Carneiro 2003: 287). Parcialmente em consequência disso, uma procura das origens e tendências de longo prazo caracterizou a disciplina desde o seu início e persiste ainda hoje. Uma dessas tendências de longo prazo, por exemplo, é as sociedades estratificadas, ao contrário das que não o são, atribuírem os seus sistemas morais a mandatos religiosos. Outra consequência parcial do evolucionismo é um certo apoio ostensivo do funcionalismo, a explicação das características dos organismos e das sociedades pelos seus efeitos positivos. Assim, explica-se por vezes a religião, por exemplo, pela coesão social que lhe é atribuída.

A terceira e última característica principal da teoria antropológica da religião é a comparação intercultural. Apesar de o método comparativo não ter origem na antropologia, tornou-se aí especialmente importante. Da perspectiva intercultural, o objecto de estudo último não é a religião em qualquer lugar ou momento do tempo particular, mas a religião em todo o lado e em qualquer momento do tempo. Tal estudo revela uma tal gama de crenças e práticas que quase exclui qualquer denominador comum (Saler 2000 [1993]). A diversidade parece excluir o ecumenismo, assim como qualquer “filosofia perene” comum (Huxley 1990 [1945]).

Assim, as questões de definição ganham proeminência. Estas questões são difíceis mesmo para os estudiosos que pertencem às poucas sociedades, relativamente semelhantes, que integram antropólogos. Quando tentamos comparar as religiões globalmente, a definição torna-se simultaneamente central e intimidadora. É defensável que esta situação desenvolva o humanismo, do mesmo modo que as notícias sobre religiões não ocidentais desenvolveu o iluminismo. Logo, estas três características da antropologia reforçam-se entre si.

Dada a grande diversidade de pensamentos e acções a que se chama religião, e dado que as linguagens não têm, na sua maior parte, palavra para tal coisa, levanta-se a questão de saber se a religião é universal. A resposta depende, é claro, da nossa definição. Quanto mais abstracta for a definição, mais difundido será aquilo que é definido. Se aceitarmos uma definição tão abstracta como a de Tillich (1948: 63), segundo a qual a religião é um comprometimento com um “cuidado último,” então presumivelmente as pessoas são religiosas em todo o lado, dado todas considerarem que um dado cuidado é mais importante do que outros. Se, contudo, se estipula a crença em Deus, juntamente com a moralidade sancionada por uma vida depois da morte, então os religiosos constituem um grupo menor. Em qualquer caso, os antropólogos pensam, na sua maior parte, que a religião pode ser definida de modo tão amplo que seja virtualmente universal (Rappaport 1999; Crapo 2001; Atran 2002: 264).

Índice

Autores
Prefácio
Glossário

Introdução geral

  1. O Ateísmo na Antiguidade
    Jan. N. Bremmer
  2. O Ateísmo na História Moderna
    Gavin Hyman
  3. Ateísmo: Números e Padrões Contemporâneos
    Phil Zuckerman

    Parte II Alegações contra o Teísmo

  4. Críticas Teístas do Ateísmo
    William Lane Craig
  5. O Insucesso dos Argumentos Teístas Clássicos
    Richard M. Gale
  6. Alguns Argumentos Teístas Contemporâneos
    Keith Parsons
  7. Naturalismo e Fisicismo
    Evan Fales
  8. Ateísmo e Evolução
    Daniel C. Dennett
  9. A Autonomia da Ética
    David O. Brink
  10. O Argumento do Mal
    Andrea M. Weisberger
  11. Argumentos Cosmológicos Kalam a Favor do Ateísmo
    Quentin Smith
  12. Argumentos da Impossibilidade
    Patrick Grimm

    Parte III Implicações

  13. Ateísmo e Religião
    Michael Martin
  14. Feminismo e Ateísmo
    Christine Overall
  15. Ateísmo e Liberdade Religiosa
    Steven G. Gey
  16. Ateísmo, A/teologia e a Condição Pós-moderna
    John D. Caputo
  17. Teorias Antropológicas da Religião
    Stewart E. Guthrie
  18. Ateus: Um Perfil Psicológico
    Benjamin Beit-Hallahmi

Errata

Na página 95, segundo parágrafo, onde se lê “Ou considere-se a omnipotência. Segundo a perspectiva canónica da omnipotência” deve-se ler “Ou considere-se a omnisciência. Segundo a perspectica canónica da omnisciência”.