História Concisa da Filosofia Ocidental, de Anthony Kenny
1 de Novembro de 2009 ⋅ História da filosofia

Nietzsche

Anthony Kenny
Universidade de Oxford

No século XIX, tudo aquilo que Kierkegaard defendeu foi bombasticamente rejeitado pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Enquanto para Kierkegaard o prazer estético era a mais baixa forma de existência individual e a abnegação cristã a mais elevada, Nietzsche considerava o Cristianismo o mais baixo aviltamento do ideal humano, que tem a sua mais elevada expressão em valores puramente estéticos.

Depois de uma educação luterana pelas suas piedosas mãe e tias, Nietzsche experimentou um sentimento de libertação quando, na Universidade de Leipzig em 1865, encontrou o ateísmo de Schopenhauer. Daí em diante apresentou-se, consequentemente, como opositor do espírito cristão e da personalidade de Jesus. A sua convicção de que a arte era a mais elevada forma de actividade humana exprimiu-se no seu próprio estilo filosófico, mais poético e aforístico do que argumentativo ou dedutivo. Nomeado com 24 anos para leccionar uma cadeira de filologia em Basel, dedicou o seu primeiro livro, A Origem da Tragédia, a Richard Wagner. Neste livro traça o contraste entre dois aspectos da alma grega: as paixões selvagens irracionais personificadas por Dionísio e a beleza disciplinada e harmoniosa representada por Apolo. A grandeza da cultura grega assenta na síntese dos dois, que foi rompida pelo racionalismo de Sócrates; a Alemanha contemporânea só podia ser salva da decadência que então dominava a Grécia se procurasse a sua salvação em Wagner.

Por volta de 1876, Nietzsche cortou relações com Wagner e perdeu a admiração por Schopenhauer. Em Humano, Demasiado Humano, foi atipicamente simpático para com a moral utilitarista e pareceu valorizar mais a ciência do que a arte. Mas considerava esta fase da sua filosofia como algo que devia ser tirado como a pele de uma cobra. Depois de desistir da sua cátedra em Basel, em 1879, começou uma série de obras que afirmavam o valor da Vida e denunciavam, como elementos hostis à vida, a abnegação cristã, a ética altruísta, a política democrática e o positivismo científico. As mais famosas destas obras foram A Gaia Ciência (1882), Assim Falava Zaratustra (1883-85), Além do Bem e do Mal (1886) e A Genealogia da Moral (1887). Por volta de 1889 começou a mostrar sinais de loucura, vivendo num isolamento senil até à sua morte em 1900.

Nietzsche pensava que a história exibe duas espécies diferentes de moralidade. Os aristocratas, sentindo que pertencem a uma ordem mais elevada do que os outros, usam palavras como “bem” para se descreverem a si mesmos, aos seus ideais e às suas características: o nascimento nobre, a riqueza, a bravura, a autenticidade e o facto de serem louros. Desprezam os outros como plebeus, vulgares, cobardes, inautênticos e morenos, e designam estas características como “mal”. Esta é a moral dos senhores. Os pobres e fracos, com ressentimentos relativamente ao poder dos ricos e aristocratas, erigem o seu próprio sistema contrastante de valores, uma moral de escravos ou de rebanho que premeia traços de carácter como a humildade, a simpatia e a benevolência, que beneficiam os vencidos. Nietzsche chama “transmutação dos valores” ao estabelecimento deste sistema de valores, que atribui aos judeus.

Foram os judeus quem, em oposição à equação aristocrática (bem = aristocrático = belo = feliz = amado pelos deuses), ousaram, com uma lógica aterradora, sugerir a equação contrária e cravar de facto os dentes do mais profundo ódio (o ódio da fraqueza) nesta equação contrária, nomeadamente “só os desgraçados são bons; só os pobres, os fracos, os humildes são bons; os que sofrem, os necessitados, os doentes, os repugnantes são os únicos que são piedosos, os únicos que são abençoados, a salvação é só para eles — mas vocês, por outro lado, vocês os aristocratas, vocês os homens de poder, são para toda a eternidade o mal, o horrível, o avaro, o insaciável, o ímpio; também eternamente serão os não abençoados, os amaldiçoados, os condenados ao Inferno!”

Nietzsche afirmou que a revolta dos escravos, começada por Jesus, conquistara então a vitória. O ódio judeu triunfou sob a máscara do evangelho cristão do amor. Até mesmo em Roma, em tempos o protótipo da virtude aristocrática, os homens se inclinaram diante de quatro judeus: Jesus, Pedro, Paulo e Maria. O homem moderno, em consequência, é um simples anão, que perdeu a vontade de ser verdadeiramente homem. A vulgaridade e a mediocridade tornaram-se norma: só raramente brilha ainda uma incarnação do ideal aristocrático, como em Napoleão.

A oposição entre bem e mal é uma característica da moral dos escravos, agora dominante. Os aristocratas desprezavam o rebanho como mau, mas os escravos, com maior malevolência, condenaram os aristocratas não apenas como maus, mas como demoníacos. Devemos lutar contra a dominação da moral dos escravos: seguir em frente é transcender os limites do bem e do mal, e introduzir uma segunda transmutação dos valores. Se formos capazes de fazer isso, erguer-se-á, como síntese da tese e antítese do senhor e do escravo, o Super-Homem.

O Super-homem será a mais elevada forma de vida. As pessoas começam a aperceber-se, diz Nietzsche, de que o Cristianismo é indigno de crença e de que Deus está morto. O conceito de Deus foi o maior obstáculo à plenitude da vida humana: agora somos livres para exprimir a nossa vontade de viver. Mas a nossa vontade de viver não deve ser tal que, como a de Schopenhauer, favoreça os fracos; deve ser vontade de poder. A vontade de poder é o segredo de toda a vida; todas as coisas vivas procuram descarregar a sua força, dar o maior alcance às suas capacidades. O conhecimento não é senão o instrumento do poder; não há verdade absoluta, apenas ficções que servem melhor ou pior para fortificar a vida. O prazer não é o objectivo da acção, mas apenas a consciência do exercício do poder. A maior realização do poder humano será a criação do Super-homem.

A humanidade é simplesmente um estádio a caminho do Super-homem, que é o sentido da Terra. No entanto, o Super-homem não será alcançado pela evolução, mas sim por um exercício de vontade. “Que a vossa vontade diga “o Super¬ homem deve ser o sentido da Terra””. Diz Zaratustra:

É claro que poderão criar o Super-homem! Talvez não vocês mesmos, meus irmãos! Mas poderão transformar-se vocês próprios em ancestrais e antepassados do Super¬ homem: e que seja essa a vossa melhor criação!

A chegada do Super-homem será a perfeição do mundo; mas não será o fim da história. Porque Nietzsche defendia a doutrina do eterno retorno: a história é cíclica, e tudo o que aconteceu acontecerá outra vez, até ao mais pequeno pormenor.

É difícil avaliar Nietzsche friamente: a deslealdade biliosa das suas críticas aos outros gera no leitor uma correspondente impaciência irritável para com os seus escritos. Poder-se-ia dizer de A Genealogia da Moral, a sua última obra, o que ele mesmo disse da sua obra inicial: “Está pobremente escrita, é desajeitada, embaraçosa. As imagens são ao mesmo tempo desvairadas e confusas. Falta-lhe precisão lógica e está tão segura da sua mensagem que prescinde de qualquer tipo de prova.”

Nietzsche não oferece qualquer apresentação consistente do ponto de vista moral a partir do qual critica a moral convencional. A natureza do Super-homem é descrita de uma forma demasiado vaga para apresentar um padrão qualquer de avaliação das virtudes e vícios humanos. É difícil saber onde o próprio Nietzsche se situa numa questão como a da avaliação da crueldade. Ao denunciar a religião e o papel desempenhado pela culpa na moral dos escravos, Nietzsche descreve com eloquente injúria os sofrimentos amargos e as bárbaras torturas que os fanáticos e perseguidores infligiram. Mas, quando descreve os excessos das suas aristocráticas “bestas louras”,

que talvez provenham de um horrível ataque de assassínio, ímpeto incendiário, violação e tortura, com bravata e equanimidade moral, como se se tratasse apenas da representação de alguma selvagem peça estudantil, perfeitamente convencidos de que os poetas teriam agora um vasto tema para cantar e celebrar,

parece considerá-los um pecadilho, um escape necessário para os seus efervescentes espíritos elevados. Não seria filosófico considerar a insanidade final de Nietzsche como razão para desconsiderar a sua filosofia; mas, por outro lado, não é fácil sentir muita piedade por alguém que considerava a piedade a mais desprezível das emoções.

Anthony Kenny

Retirado de História Concisa da Filosofia Ocidental, de Anthony Kenny. Trad. Desidério Murcho, Fernando Martinho, Maria José Figueiredo, Pedro Santos e Rui Cabral (Temas e Debates, 1999).
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