Enigmas da Existência
24 de Julho de 2008 ⋅ Metafísica

O que é a metafísica?

Earl Conee
Universidade de Rochester, EUA
Tradução de Vítor Guerreiro

Introdução

A biologia é acerca da vida e a história da arte é acerca da história da arte. Da mesma maneira, a metafísica é acerca da metafísica. Mas o que é isso? Podemos identificar o objecto de estudo de uma maneira mais informativa? Nos capítulos anteriores ponderámos nove tópicos metafísicos principais e várias questões metafísicas relacionadas. O que faz estes tópicos e questões serem metafísicos? Consideremos algumas tentativas de resposta.

Ser enquanto ser

Uma resposta vem da Metafísica de Aristóteles. Naquele livro há uma área de investigação a que Aristóteles chama "filosofia primeira". Esta área parece similar à nossa metafísica. Aristóteles diz-nos que a filosofia primeira é a ciência do ser enquanto ser. Será isso a metafísica?

Bem, primeiro temos de descobrir o que se entende por "a ciência do ser enquanto ser". Para começar, o termo "ciência" significa aqui conhecimento teórico. É optimista considerar seja o que for como conhecimento metafísico. Como vimos, na metafísica reina a controvérsia. As conclusões estabelecidas são bastante raras (quando muito!). Felizmente, este optimismo acerca do conhecimento é inofensivo para o que nos interessa. Podemos ter de adquirir conhecimento metafísico de modo a completar uma investigação metafísica. Mas agora não estamos a tentar ver o que seria completar uma investigação metafísica. Estamos apenas a tentar identificar o objecto de estudo característico da metafísica. Quer tenhamos ou não conhecimento de quaisquer factos metafísicos, perguntamos agora apenas o que faz alguns factos serem metafísicos.

Ao responder a esta questão do objecto de estudo, a nossa resposta inicial de Aristóteles dá-nos a expressão: "ser enquanto ser". Eis uma interpretação disso: O primeiro "ser" da expressão identifica o tópico como sendo a existência. O "enquanto ser" acrescenta que o foco da metafísica é a existência em geral. Não se trata da existência dos peixes ou da existência de coisas no século XXI. Trata-se da natureza geral da existência. Portanto, se a "filosofia primeira" de Aristóteles for metafísica, então temos a proposta de que o objecto de estudo da metafísica é a própria existência. A metafísica não é acerca de quaisquer coisas que existam, nem da sua existência sob certas condições limitadas. É apenas acerca da existência.

A natureza da existência é definitivamente um tópico metafísico, e ainda por cima difícil. É um desafio afirmar seja o que for de informativo acerca do que é existir. Uma controvérsia metafísica acerca da existência tem a ver com a questão de a existência ser ou não uma propriedade. Para ver o que está em causa, imagine-se um balão que não existe. Imagine apenas um qualquer balão possível de que goste. Feito? Certo, agora imagine esse mesmo balão, mas tente adicionar a existência às propriedades que imagina que o balão tem. O que acrescentou? Nada! A existência não parece ser uma propriedade distinta que se possa adicionar ou apagar. Tendo reparado nisto, alguns filósofos foram levados a concluir que a existência não é uma propriedade de todo em todo. Outros pensam que a existência é uma propriedade especial que se requer para que haja quaisquer outras propriedades. A existência estava já incluída no seu acto de imaginar um balão possível, porque o leitor teve de o imaginar como existente para o poder imaginar de todo em todo. Esta é uma disputa metafísica acerca da própria existência.

Estamos a ponderar a afirmação de que a existência é o objecto de estudo da metafísica. Acabámos de ver muito brevemente uma questão metafísica acerca da existência. Mas grande parte da metafísica não é sobre a existência. Na verdade, vimos isto repetidamente nos capítulos anteriores. Por exemplo, o problema da natureza do tempo não se centra na existência. Quando a questão é sobre tudo estar ou não predestinado à partida, o tópico não é a existência. Investigar a natureza do livre-arbítrio não é estudar a existência. O mesmo se aplica à natureza da necessidade física e absoluta. A questão de haver ou não universais envolve a existência. Mas essa questão acerca dos universais não se centra na própria existência. A questão é a de haver ou não universais, deixando em aberto a questão da natureza da existência. Aplica-se o mesmo comentário ao tópico da existência das pessoas ao longo do tempo. O tópico não é a existência, mas antes as condições sob as quais a mesma pessoa se mantém em existência, independentemente do que a existência de facto seja.

Assim, se o ser enquanto ser é a mera existência, então o objecto de estudo da metafísica não se limita ao ser enquanto ser.

Primeiros princípios

Consideremos uma nova ideia acerca daquilo de que versa a metafísica. Na Metafísica, Aristóteles diz-nos também que a filosofia naquele livro diz respeito apenas aos primeiros princípios e causas. O tópico das causas parece mais adequado às ciências naturais. Portanto, consideremos a ideia de que a metafísica diz respeito aos primeiros princípios. A abordagem da metafísica com base nos primeiros princípios sugere um melhoramento relativamente à nossa ideia anterior. O plural "princípios" aproxima-se de algum modo do reconhecimento da pluralidade de tópicos metafísicos.

Dada a situação, contudo, "primeiros princípios" é quase uma expressão vazia. Os princípios são "primeiros" segundo que ordem? Há muitos primeiros princípios. Os princípios metafísicos não são seguramente os primeiros princípios num código deontológico para agentes imobiliários! Provavelmente, a ideia é a de que os princípios metafísicos são "primeiros" porque são, de alguma maneira, mais básicos. Certo, mas agora temos de perguntar: mais básicos em que sentido? "Básico" por vezes significa elementar. Mas claro que os princípios mais importantes da contabilidade não são metafísicos. "Básico" por vezes significa importante. Mas claro que os princípios mais importantes da prevenção de incêndios não são metafísicos. Em breve consideraremos um terceiro modo pelo qual os tópicos da metafísica podem ser os mais básicos. Mas independentemente daquilo a que "básico" equivale, precisamos de mais ajuda no que diz respeito aos princípios envolvidos. Os primeiros princípios relevantes são acerca de quê? A expressão "primeiros princípios" não especifica de todo em todo um objecto de estudo.

Aparência por oposição a realidade última

Vamos tentar outra ideia. As investigações metafísicas começam com as aparências iniciais. Por exemplo, uma das questões metafísicas que considerámos começa pela aparência de que por vezes agimos livremente; outra das nossas questões começa pela aparência de que há propriedades que muitas coisas partilham. Os nossos outros tópicos começam pelas aparências que lhes são próprias. Na vida quotidiana, raramente se questiona estas aparências. Na metafísica, continuamos a investigar. Ao desenvolver um tópico metafísico, procuramos ir além das aparências. Ponderamos argumentos acerca de como as coisas são realmente. Procuramos conhecer a realidade da situação. A realidade pode confirmar as aparências iniciais ou pode infirmá-las. Seja como for, o nosso objectivo é descobrir a realidade última. Isto sugere que o objecto de estudo característico da metafísica é a realidade última.

Há algo indubitavelmente correcto nesta sugestão. Os factos metafísicos acerca da liberdade, propriedades, e por aí em diante, consistem efectivamente no estatuto último das coisas perante estes tópicos. As aparências não são conclusivas. Só as realidades últimas nos dão as verdades metafísicas acerca do assunto.

Devemos reflectir cuidadosamente na ideia de "realidade última". Suponha-se que uma dada coisa é real. A sua existência é genuína e não uma falsa aparência. Poderia algo ser "mais real" do que isso, de modo a ser "ultimamente real"? Como? Algumas coisas são mais importantes do que outras, de uma ou outra maneira, mas isso não as faz ter mais realidade. Quando vemos as coisas desta maneira, parece que o "última" em "realidade última" não acrescenta coisa alguma. Tudo aquilo que existe realmente é tão real quanto pode ser.

Se a realidade última consiste apenas nas coisas que existem realmente, contudo, então não é a orientação para a realidade última o que distingue a metafísica de qualquer outra investigação factual. Na paleontologia, por exemplo, a natureza aparente dos fósseis aparentes não é conclusiva. Só a natureza real dos fósseis reais fornece as verdades paleontológicas acerca do assunto. O mesmo se aplica à investigação policial. Os factos aparentes acerca de um crime não constituem o fim de uma investigação policial. Só quando se apreende os factos reais acerca do crime é que o trabalho policial está verdadeiramente concluído. Assim, a metafísica não é caracteristicamente acerca da realidade última.

Explicações últimas

A distinção entre a aparência e a realidade pode induzir-nos em erro. Há outra maneira de compreender o que é "último" acerca do objecto de estudo da metafísica. Outra ideia é que os aspectos da realidade acerca dos quais versa a metafísica são os "últimos" na medida em que são os mais fundamentais nas explicações.

Esta ideia tem muito a seu favor. Para já, todos os tópicos discutidos neste livro parecem qualificar-se como metafísicos segundo este critério. As questões de saber por que existe sequer alguma coisa, se tudo está ou não predestinado, o que são realmente a necessidade física e absoluta, se há ou não universais, se Deus existe ou não, parecem todas dizer respeito a factos que são de algum modo fundamentais para explicar a realidade. O mesmo se aplica à natureza da liberdade, à identidade pessoal, à constituição material e ao tempo. Por contraste, os fósseis e os crimes parecem mais circunscritos e menos básicos para as explicações.

Mas a metafísica pode não estar completamente só no estudo das realidades explicativas fundamentais. Então e a física? Não é verdade que a física investiga os constituintes elementares da realidade e como estes explicam todos os acontecimentos e condições físicos? Esse género de explicação parece bastante fundamental.

Uma resposta em defesa da perspectiva da metafísica centrada no "básico explicativo" lembra-nos da partilha. Afirma que não se exclui um tópico da metafísica só porque o tópico é também estudado noutra área. Nesta perspectiva, a física implica de facto uma investigação do tópico metafísico da constituição elementar da realidade. Esta questão faz parte da física quando é tratada cientificamente. Mas continua a ser também um tema metafísico.

Esta defesa da proposta de que a metafísica é acerca das explicações mais fundamentais é ela própria discutível, contudo. Os físicos desejam frequentemente distanciar o seu trabalho da metafísica. Afirmam fazer ciência empírica em vez de metafísica. Estarão na verdade a fazer ambos? Não necessariamente. Talvez os físicos não estejam a fazer metafísica, porque usam métodos científicos em vez de filosóficos. Mas investigam cientificamente um objecto de estudo que partilham com os metafísicos.

De modo que temos uma proposta promissora, embora se levante uma dúvida acerca da sua correcção a propósito da sobreposição com a física. Vamos ver em seguida uma versão revista que evita esse género de dificuldades. Mostra-se prometedora, mas veremos em breve que ambas as versões enfrentam um problema mais difícil.

Necessidades e possibilidades básicas

A perspectiva revista é a de que a metafísica é acerca das necessidades e possibilidades básicas mais explicativas. A metafísica é acerca do que podia ser e do que tem de ser. Salvo raras excepções, a metafísica não é acerca dos aspectos explicativamente últimos da realidade que existem realmente, mas que não tinham de existir. A metafísica é acerca de algumas coisas que existem realmente, só porque aquilo que é necessário tem de existir realmente e aquilo que é possível pode existir realmente. Isto permite-nos afirmar que a física se ocupa da questão do que é efectivamente a constituição da realidade, ao passo que a metafísica é acerca do que tem de ser e do que podia ter sido.

Esta nova perspectiva pode permitir à metafísica uma reivindicação exclusiva do seu tópico. A perspectiva tem os seus próprios riscos, contudo. Parece deixar de fora muito do que dá pelo nome de "metafísica". Por exemplo, há a questão de saber se realmente temos ou não livre-arbítrio. Responder a esta questão parece fazer tanto parte da metafísica como responder às questões acerca do que o livre-arbítrio tem de ser e do que podia ter sido. De igual modo, a questão de saber por que há efectivamente qualquer coisa em vez de nada parece ser acerca de um facto contingente. No entanto esta questão é tão metafísica como todas as outras.

Estes riscos da nova perspectiva podem mostrar-se ilusórios. Talvez a metafísica aparentemente excluída seja incluída, de facto, segundo o presente critério, porque afinal é acerca de possibilidades e necessidades. Um metafísico que parece investigar se temos ou não livre-arbítrio pode não estar exactamente a fazer isso, de facto. Talvez esteja na verdade a investigar se o livre-arbítrio é possível para seres como nós. De igual modo, quando os metafísicos ponderam a questão da razão de algo em vez de nada, talvez estejam realmente a procurar uma explicação possível para a existência de coisas contingentes. Obviamente, também nos interessamos pelos factos reais acerca da liberdade, coisas contingentes, e por aí em diante. Mas talvez aquele aspecto ulterior, importante, do nosso interesse ultrapasse tecnicamente a pura metafísica.

A expressão "básico mais explicativo" levanta um problema diferente. O estudo filosófico da ética é em parte acerca da natureza da conduta moralmente correcta. Muitos filósofos vêem isto como uma investigação da natureza da propriedade de ser moralmente correcto. Encaram-na como uma questão que pertence firmemente à ética, e não à metafísica. No entanto, a natureza da acção correcta parece ser tão fundamental para as explicações como, digamos, os tópicos metafísicos do destino e do livre-arbítrio.

Mas talvez essa não seja uma consequência demasiado má para a presente perspectiva. Talvez este seja um caso de sobreposição de tópicos, e o estudo da natureza da correcção moral seja um tópico metafísico dentro da ética.

O problema parece pior quando consideramos as descobertas da lógica e da matemática. Estes factos formais parecem ser todos verdades necessárias, e alguns parecem ter um estatuto bastante básico para as explicações. Para já, a lógica de uma explicação — a conexão entre uma teoria explicativa e os factos explicados — parece a coisa mais básica acerca da explicação. A presente perspectiva faz desta conexão um objecto de estudo da metafísica. O que é duvidoso. Parece pertencer à lógica.

Mais uma vez, uma objecção deste género pode não ser conclusiva. Talvez a lógica e a metafísica partilhem este objecto de estudo. Diferem por trabalhar nele de diferentes maneiras.

Há aqui um problema mais difícil, contudo. Ambas as versões da ideia do básico explicativo limitam o objecto de estudo metafísico da matemática e da lógica às partes destas áreas que desempenham um papel básico nas explicações. No entanto, todos os tópicos da matemática e da lógica parecem estar metafisicamente em pé de igualdade. Estas áreas estudam coisas como objectos matemáticos, como números, e as características lógicas que constituem a validade dos argumentos. Todas as estas coisas parecem objectos dignos de interesse metafísico. Talvez algumas tenham importância metafísica especial, por serem infinitas ou por serem espantosas de outro modo. Em todo o caso, o que parece determinar o seu estatuto como tópicos metafísicos é o seu interesse como entidades em si, e não o seu papel nas explicações. A presente ideia acerca do objecto de estudo da metafísica afirma o contrário, pelo que se encontra em dificuldades.

Fazendo o inventário

Reflectimos no objecto de estudo da metafísica. Nada descobrimos de conclusivo. Ah bom, eis a filosofia. O estatuto obstinadamente irresolvido das questões metafísicas dessatisfaz aqueles que preferem estudar o que é inequívoco. Os filósofos acham o estatuto desafiador, estimulante e mesmo consolador (porquanto é improvável que se torne obsoleto).

Algumas questões finais

O que investigámos neste capítulo? De certo modo, fomos explícitos em relação a isso. Investigámos a natureza do objecto de estudo da metafísica. Mas que género de tópico é esse? Em particular, será que este nosso tópico é metafísico?

É tentador pensar que a resposta óbvia a esta questão é "Sim". Mas devemos notar que ter como tópico a natureza dos tópicos metafísicos não nos faz ter automaticamente um tópico metafísico. Pode-se ver isto através de uma analogia. A física é acerca do mundo físico. Pelo que a física tem seguramente um tópico físico. Mas, teoricamente, a própria física é uma coisa imaterial, talvez porque consiste em proposições abstractas que constituem a verdade teórica acerca do mundo físico. Se isto é assim, então a física é acerca do mundo físico mas não faz parte dele.

Assim, se temos por tópico de investigação a natureza da própria física, então essa investigação não tem automaticamente um objecto de estudo físico. Analogamente, a nossa investigação acerca da metafísica, neste capítulo, pode ter um objecto de estudo que não é metafísico. Pelo que devíamos perguntar: se o tópico da nossa investigação acerca dos tópicos metafísicos é realmente um tópico metafísico, por que o é? E se este tópico não é metafísico, então que género de tópico é?

Finalmente, agora que pegámos nestas questões, qual a natureza do nosso tópico agora?

Earl Conee

Tradução de Vítor Guerreiro
Retirado de Enigmas da Existência, de Earl Conee e Theodore Sider (Lisboa: Bizâncio, 2010).

Leitura complementar

O melhor modo de aprender mais acerca do que constitui a metafísica é aprender mais metafísica. Eis algumas colectâneas de artigos acerca de numerosas questões metafísicas:

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