George Orwell
27 de Janeiro de 2010 ⋅ Opinião

O que é a ciência?

George Orwell
Tradução de Desidério Murcho

No Tribune da semana passada havia uma carta interessante do Sr. J. Stewart Cook, na qual sugeria que a melhor maneira de evitar o perigo de uma “hierarquia científica” seria fazer todos os membros do grande público, tanto quanto possível, ter uma formação científica. Ao mesmo tempo, os cientistas deveriam sair do seu isolamento e ser encorajados a desempenhar um papel mais intenso na política e na administração.

Como afirmação geral, penso que concordaríamos, a maioria de nós, mas reparo que, como de hábito, o Sr. Cook não define Ciência, sugerindo apenas de passagem que significa algumas ciências exactas cujas experimentações se podem fazer sob condições laboratoriais. Assim, o ensino de adultos tende “a negligenciar os estudos científicos a favor de disciplinas literárias, económicas e sociais,” não considerando aparentemente que a economia e a sociologia sejam ramos da ciência. Este aspecto é de grande importância. Pois a palavra Ciência é actualmente usada em pelo menos dois sentidos, e toda a questão do ensino científico é obscurecido pela tendência corrente de fugir de um sentido para o outro.

A Ciência é geralmente tomada como querendo dizer a) as ciências exactas, como a química, física, etc., ou b) um método de pensamento que obtém resultados verificáveis raciocinando logicamente a partir de factos observáveis.

Se perguntarmos a qualquer cientista, ou na verdade a qualquer pessoa instruída, “O que é a Ciência?” é provável que se obtenha uma resposta que se aproxima de b. Na vida quotidiana, contudo, tanto oralmente como por escrito, quando as pessoas dizem “Ciência” querem dizer a. A ciência quer dizer algo que acontece num laboratório: a própria palavra evoca uma imagem de gráficos, tubos de ensaio, balanças, bicos de Bunsen, microscópios. Descreve-se um biólogo, um astrónomo, talvez um psicólogo ou um matemático, como um “homem de ciência”: ninguém pensaria aplicar este termo a um estadista, um poeta, um jornalista ou mesmo a um filósofo. E quem nos diz que os jovens têm de receber instrução científica quer quase invariavelmente dizer que lhes devem ensinar mais sobre radioactividade, ou sobre as estrelas, ou sobre a fisiologia dos seus próprios corpos, e não que lhes devem ensinar a pensar de maneira mais exacta.

Esta confusão quanto ao significado, que é parcialmente deliberada, encerra um grande perigo. Sugerida na exigência de mais instrução científica está a afirmação de que se recebermos formação científica a nossa abordagem a todos os assuntos será mais inteligente do que se não tivermos tal formação. As opiniões políticas de um cientista, presume-se, as suas opiniões sobre questões sociológicas, sobre moral, sobre filosofia, talvez até sobre as artes, serão mais valiosas do que as do leigo. O mundo, por outras palavras, seria melhor se fossem os cientistas a conduzi-lo. Mas um “cientista,” como vimos, quer dizer na prática um especialista numa das ciências exactas. Segue-se que um químico ou um físico, enquanto tal, é politicamente mais inteligente do que um poeta ou um advogado, enquanto tal. E, de facto, já há milhões de pessoas que acreditam nisto.

Mas será realmente verdade que um “cientista,” neste sentido mais restrito, tem mais probabilidades do que qualquer outra pessoa de abordar problemas acientíficos de um modo objectivo? Não há muitas razões para o pensar. Tome-se um teste simples — a capacidade para resistir ao nacionalismo. Diz-se muitas vezes sem grande exactidão que “A Ciência é internacional,” mas na prática os trabalhadores científicos de todos os países alinham com os pelos seus próprios governos com menos escrúpulos do que os sentidos por escritores e artistas. A comunidade científica alemã, como um todo, não resistiu a Hitler. Hitler pode ter arruinado as perspectivas de longo prazo da Ciência alemã, mas ainda há muitos homens de talento para fazer a investigação necessária em coisas como lubrificantes sintéticos, aviões a jacto, mísseis e a bomba atómica. Sem elas, a máquina de guerra alemã nunca poderia ter sido construída.

Por outro lado, o que aconteceu à literatura alemã quando os nazis chegaram ao poder? Penso que nenhumas listas exaustivas foram publicadas, mas imagino que o número de cientistas alemães — excluindo os judeus — que voluntariamente se exilaram ou que foram perseguidos pelo regime foi bastante menor do que o número de escritores e jornalistas. Mais sinistro do que isto, vários cientistas alemães engoliram a monstruosidade da “ciência racial.” Encontramos algumas das afirmações a que apuseram os seus nomes em The Spirit and Structure of German Fascism, do Professor Brady.

Mas, de formas ligeiramente diferentes, é a mesma imagem em todo o lado. Na Inglaterra, uma grande proporção dos nossos principais cientistas aceitam a estrutura da sociedade capitalista, como se pode ver na relativa liberdade com que lhes são atribuídos títulos de cavaleiro, baronete ou até de par do reino. Desde Tennyson, a nenhum escritor que valha a pena ler — poder-se-ia talvez fazer uma excepção de Sir Max Beerbohm — foi atribuído um título. E aqueles cientistas ingleses que não se limitam a aceitar o status quo são frequentemente comunistas, o que significa que, por mais que sejam intelectualmente escrupulosos no seu trabalho, estão prontos a ser acríticos e até desonestos em certos assuntos. O facto é que uma mera formação numa ou mais ciências exactas, mesmo combinada com elevadíssimos talentos, não é garantia de um perfil humanitário ou céptico. Os físicos de meia dúzia de grandes nações, todos febril e secretamente trabalhando na bomba atómica, são a demonstração disto.

Mas quer tudo isto dizer que o grande público não deva ter instrução científica? Pelo contrário! Tudo o que quer dizer é que a instrução científica para as massas pouco bem fará, e provavelmente fará muito mal, caso se reduza simplesmente a mais física, mais química, mais biologia, etc., em detrimento da literatura e da história. O seu efeito provável no ser humano médio seria restringir o âmbito dos seus pensamentos e fazê-lo mais do que nunca desprezar qualquer conhecimento que não possua: e as suas reacções políticas seriam provavelmente um pouco menos inteligentes do que as de um camponês iletrado que mantivesse algumas memórias históricas e um sentido estético razoavelmente sólido.

A instrução científica deveria claramente querer dizer a implantação de um hábito mental racional, céptico e experimental. Deveria querer dizer adquirir um método — um método que pode ser usado em qualquer problema que enfrentemos — e não simplesmente o amontoar de muitos factos. Exprimamo-lo com estas palavras e o apologista da instrução científica irá habitualmente concordar. Insista com ele, peça-lhe para particularizar, e de algum modo acabamos por ver que a instrução científica quer dizer mais atenção às ciências exactas — mais factos. A ideia de que a Ciência quer dizer um modo de olhar para o mundo, e não apenas um corpo de conhecimento, é na prática algo a que se resiste fortemente. Penso que o simples ciúme profissional é parte da razão disto. Pois se a Ciência é apenas um método ou uma atitude, de modo que qualquer pessoa cujos processos de pensamento sejam suficientes racionais pode num certo sentido descrever-se como cientista — o que acontece então ao enorme prestígio de que goza agora o químico, o físico, etc., e a sua afirmação de que é de algum modo mais sábio do que nós?

Há cem anos, Charles Kingston descreveu a Ciência como “fazer maus cheiros num laboratório.” Há um ou dois anos um químico industrial jovem informou-me presunçosamente que “não conseguia ver para que servia a poesia.” De modo que o pêndulo vai para lá e para cá, mas não me parece que uma atitude seja melhor do que a outra. De momento, a Ciência está em alta, e por isso ouve-se, muito correctamente, a afirmação de que as massas deveriam ser cientificamente instruídas: não se ouve, como deveríamos, a afirmação contrária de que os próprios cientistas beneficiariam de um pouco de instrução. Pouco antes de escrever isto, vi numa revista americana a afirmação de que vários físicos britânicos e americanos recusaram desde o início fazer investigação sobre a bomba atómica, bem sabendo o uso que dela se faria. Eis um grupo de homens sãos no meio de um mundo de lunáticos. E apesar de nenhuns nomes terem sido publicados, penso que seria uma previsão segura que todos eram pessoas com algum tipo de formação cultural geral, algum contacto com a história, a literatura ou as artes — em suma, pessoas cujos interesses não eram, no sentido actual da palavra, puramente científicos.

George Orwell
Tradução de Desidério Murcho
Originalmente publicado no jornal Tribune, 26 de Outubro de 1945
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