Sabedoria sem Respostas
15 de Novembro de 2009 ⋅ Filosofia

Perguntas sem resposta?

Daniel Kolak e Raymond Martin
Tradução de Célia Teixeira

Está na margem de um rio, o mais profundo e traiçoeiro rio do planeta. Contudo, o leitor quer ir para o outro lado. Como fazer?

Procura uma ponte. Não há pontes.

Tenta encontrar um barco. Não há barcos.

Quer voar para o outro lado. Não há aviões.

Frustrado, procura materiais de construção. Não existem.

Pensa contornar o rio a pé, mas ele flúi sem interrupção desde o Pólo Norte até ao Pólo Sul.

Em desespero, pensa em nadar. Mas o rio é demasiado largo e turbulento. Todos aqueles que alguma vez nele entraram afogaram-se. Contudo, o leitor quer ir para o outro lado. Mas como?

Quando outros tentaram fazer um túnel por debaixo do rio, a água infiltrou-se e afogou-os. Quando tentaram drenar o rio, descobriram que as suas águas são inesgotáveis.

O leitor tentou tudo aquilo de que se lembrou. Nada funcionou. É impossível atravessar o rio. Contudo, quer passar para o outro lado. Como fazê-lo?

Não se sinta mal se não souber a resposta. A questão pergunta-lhe o que você deve fazer para atravessar um rio que é impossível atravessar. Obviamente, não pode atravessar um rio impossível de atravessar.

A resposta à pergunta “Como ir ao outro lado do rio?” não pode de modo algum ter algo a ver com atravessar o rio. Não é possível atravessar o rio. Contudo, o leitor quer ir para o outro lado. Como fazê-lo?

A pergunta parece irrespondível. Se o único objectivo de fazer perguntas é responder-lhes, então não faz sentido algum tentar responder a uma pergunta irrespondível. Mas será este o único objectivo?

Considere-se uma analogia. Poderia ter algum sentido ter pesos que não se conseguem levantar? Pode parecer que não. Os pesos tonificam os seus músculos apenas se os levantar. A isometria é, contudo, um sistema de exercícios nos quais se tonifica os seus músculos não através do levantamento de pesos mas usando os músculos uns contra os outros. Por exemplo, encaixam-se os dedos juntos das mãos e esforçamo-nos por as afastar. Na isometria, é como se o próprio leitor fosse o peso, e estivesse a tentar levantar-se. Não pode fazê-lo — mas tentar levantar-se a si mesmo pode tonificar os seus músculos mais eficazmente do que o convencional levantamento de pesos.

A isometria para o seu corpo é como tentar levantar pesos que não se podem levantar. Tentar responder a respostas irrespondíveis é como isometria para a sua mente. A maior parte da filosofia é como a isometria para a mente. Atira as suas mãos à cabeça em desespero perante um peso que não se pode levantar e nada ganha. Atira as suas mãos à cabeça perante as grandes e irrespondíveis perguntas, e nada ganha.

Note-se, contudo, que fomos quase todos condicionados para não fazer perguntas irrespondíveis. Fomos condicionados para pressupor que não há qualquer finalidade nisso. Nunca considerámos a possibilidade de que um dos objectivos de fazer perguntas irrespondíveis pudesse ser o de tonificar os músculos mentais. O mais surpreendente é que existe ainda outro objectivo e ainda mais importante para fazer e continuar a fazer perguntas irrespondíveis.

Está na margem de um rio. Quer ir para o outro lado. Como fazê-lo? Esgotou todas as respostas tradicionais. O que sobra? Respostas não tradicionais. Quando estamos desesperados por uma solução mas as respostas tradicionais não funcionam, temos de tentar as não tradicionais. E para achar repostas não tradicionais para respostas aparentemente irrespondíveis, temos de abandonar alguns dos nossos pressupostos acerca da pergunta e dos limites nos quais pode se pode responder à pergunta. Assim, tentar responder a perguntas aparentemente irrespondíveis não só fortifica a mente como a expande.

Considere-se a seguinte pergunta aparentemente irrespondível: “Qual é a distância mais curta entre dois pontos que é ainda mais curta que uma linha recta?” Se for matematicamente sofisticado saberá que isto é irrespondível apenas no quadro de referência da tradicional geometria euclidiana. Se abandonar um dos velhos pressupostos sobre linhas paralelas — o postulado de que duas linhas paralelas nunca se encontram — pode-se então responder à pergunta no quadro de referência de uma geometria não euclidiana. A resposta é “uma linha curva”.

Por outras palavras, as perguntas não são respondíveis ou irrespondíveis sem restrições. Não há uma pergunta absolutamente irrespondível — absolutamente nenhuma! Há apenas perguntas condicionalmente irrespondíveis. E não há perguntas absolutamente respondíveis — absolutamente nenhuma. Há apenas perguntas condicionalmente respondíveis. Se uma pergunta é respondível ou irrespondível depende apenas dos pressupostos da pessoa que tenta responder.

Dados os pressupostos da geometria euclidiana, a pergunta “Qual é a distância mais curta entre dois pontos que é ainda mais curta do que uma linha recta?” é irrespondível. Dados os diferentes pressupostos da geometria não euclidiana dos espaços curvos, a pergunta tem uma resposta.

Portanto, como ir para o outro lado do rio que não se pode atravessar? Como encontrar respostas para perguntas que, tanto quanto sabemos, são irrespondíveis?

Fazemo-lo abandonando alguns pressupostos. Mas quais? Se não é possível atravessar o rio, que pressupostos poderemos abandonar para nos levar para o outro lado? Parece só existir um: o pressuposto de que se estiver num lado do rio, ainda não está no outro lado.

Pode parecer de doidos abandonar este pressuposto, mas só é de doidos se não pudermos imaginar como o pressuposto poderia ser falso. E podemos. Imagine o rio a partir do espaço: Vê uma linha que vai do extremo norte ou extremo sul de um planeta esférico. Não é possível atravessar esta linha. Imagine um ponto de um lado do rio. Como poderia este ponto ir para o outro lado de uma linha que não se pode ultrapassar?

É fácil. Imagine-se que o ponto se vira de costas para a linha e começa a andar. Uma vez que nunca atravessa a linha e que o lado da linha em que está se estende à volta do globo, nunca deixa o seu lado; contudo chegará ao outro lado. O ponto nem sequer tem de andar para chegar ao outro lado. Andar não o levou ao outro lado. Andar só tornou evidente que o ponto já estava no outro lado.

A linha impossível de atravessar só tem um lado. Portanto, como chega ao outro lado de um rio impossível de atravessar?

É fácil. Não tem de fazer coisa alguma. Já lá está.

Daniel Kolak e Raymond Martin

Retirado do livro Sabedoria Sem Respostas (Lisboa: Temas e Debates, 2004)
Nota do director: agradeço a José Oliveira a detecção de várias gralhas.
Termos de utilização ⋅ Não reproduza sem citar a fonte