Political Thought
2 de Agosto de 2006 ⋅ Filosofia política

Animal político

Desidério Murcho
Political Thought, org. de Michael Rosen e Jonathan Wolff
Oxford: Oxford University Press, 1999, 442 pp.
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A colecção Oxford Readers é constituída por antologias que apostam na diversidade de fontes. Ao invés de apresentarem textos relativamente longos, apresentam pequenos excertos, de apenas algumas páginas. Deste modo, podem apresentar uma maior diversidade. O segredo do sucesso é a organização temática dos textos apresentados, que é só por si muitíssimo informativa. Com volumes dedicados à estética, ética, evolução, fé e razão, fascismo, racismo, guerra e escravatura, entre outros, esta é uma colecção cuja tradução, de pelo menos alguns dos seus títulos, é urgente.

Michael Rosen é autor de diversos livros e artigos, tradutor de Kant e professor em Oxford. Jonathan Wolff é professor na University College London, autor de diversos artigos e dos livros Porquê Ler Marx Hoje? (Cotovia) e Introdução à Filosofia Política (Gradiva), entre outros. Esta antologia é absolutamente central para quem quiser ter uma visão panorâmica da filosofia política. Dividida em oito partes, aborda temas como a justificação do estado, a justificação da democracia, a liberdade e os direitos, a justiça económica e as alternativas ao liberalismo, entre outros. Cada uma destas grandes áreas divide-se em subsecções. A parte IV, por exemplo, dedicada à liberdade e aos direitos, contempla, entre outras, secções dedicadas à noção de liberdade (com textos de Isaiah Berlin, Ronald Dworkin e Charles Taylor, entre outros), à relação entre a lei e a moralidade (Stuart Mill e H. L. A. Hart, entre outros), à tolerância e liberdade de expressão (John Locke, Scanlon e Waldron, entre outros) e à virtude e cidadania (Péricles, Aristóteles e Skinner, entre outros). Sempre que uma dada teoria ou posição é apresentada, segue-se uma ou mais secções com críticas a essa posição e com posições alternativas.

Além dos autores mencionados, encontra-se ainda nesta antologia textos de Platão, Hobbes, Rousseau, Marx, Darwin, Weber, Kant, Hume, Hegel, Rawls, Nozick, Freud, Hayek, Walzer, Singer, Habermas, Rorty, Nietzsche, Popper e Fukuyama, entre outros. No total, são 135 textos, seguidos de um apêndice com alguns documentos fundamentais, como a declaração de independência dos EUA, que integra ideias e expressões de Locke, e a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas.

O texto de 1993 de Jeremy Waldron, sobre o caso de Rushdie, tornou-se infelizmente outra vez actual, em virtude do caricato caso das caricaturas dinamarquesas. O autor defende com sobriedade e lucidez que é uma ilusão pensar que é possível defender uma liberdade de expressão comedida e respeitadora dos tabus alheios (como pretende o nosso ministro dos negócios estrangeiros); é um pouco como defender que podemos ter eleições livres desde que os partidos da oposição, que tanto nos ofendem só com a sua existência, se abstenham de fazer campanha eleitoral. Isto porque seja o que for que alguém diga é potencialmente ofensivo para outra pessoa qualquer — sobretudo quando se trata das crenças mais queridas das pessoas. Assim, defender a liberdade de expressão e proibir a ofensa é como defender a liberdade para os solteiros, mas proibi-la para os não casados. O direito de ofender sensibilidades alheias faz parte da liberdade de expressão.

Professores e estudantes, assim como o grande público com interesse no pensamento político, encontram nesta antologia bons pontos de partida para um estudo aprofundado.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (4 de Março de 2006).
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