A Possibilidade de uma Ilha
16 de Fevereiro de 2007 ⋅ Livros

A cratera e o vazio

Wilson Coêlho
A Possibilidade de uma Ilha, de Michel Houellebecq
Lisboa: Dom Quixote, 2006, 400 pp.
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Chega um momento na vida em que o ato de ler é alimentar-se de si mesmo e a si mesmo. Assim, alguns se alimentam de idiotices (nenhuma referência a O Idiota, de Dostoievski) e, quando muito, de dogmas que são a base e a fundamentação dos medíocres. Outros se alimentam da inquietude. Num certo sentido, incluo-me entre esses outros. Daí, conheci Michel Houellebecq que, diga-se de passagem, a mim me foi elogiosamente apresentado por Fernando Arrabal, quando de sua recente e honrosa visita ao Brasil, como palestrante convidado no II Festival Nacional de Teatro "Cidade de Vitória", no Espírito Santo.

A idéia de entender se resume naquilo que convencionalmente tem-se aceito em nossa subjetividade cultural como um entendimento que se basta a si mesmo, engessado pelo nosso paideuma. Decidir por algo que não se entende é uma possibilidade de romper com as camisas-de-força da lógica clássica, novas tentativas de emprestar significado ao mundo ou, pelo menos, transitar pelo não-sentido como um exercício do devir, pois — de certa maneira — essa herança colonizadora do pensamento ocidental se divide em princípios e finalidades. De um lado, afirma-se uma espécie de essência originária que a tudo sustenta como garantia daquilo a que se tem acordado como o significado da existência e, por outro, tudo se justifica pelas finalidades ou, conforme Voltaire, "tudo vai da melhor forma para um determinado fim".

Michel Houellebecq, em sua obra A Possibilidade de uma Ilha, estabelece um divisor de águas, ou seja, tanto o princípio quanto o fim são determinados pelo meio que — na medida em que se movimenta — instala os valores do início e do fim que somente são início e fim em detrimento daquilo a que até então se tem compreendido como mundo no momento mesmo em que vivemos o meio e no meio, não como mero mediador de dois pólos, mas como condição sine qua non para se ratificar a opinião (doxa) de que apenas podemos dizer de alguma coisa a partir do lugar de onde dizemos. Se, em A Possibilidade de uma Ilha, Houellebecq propõe a sobrevivência como a única forma de engajamento para o homem, implica dizer que sobreviver não passa de uma possibilidade de dizermos sobre o viver. Aqui se assevera que a ficção e a realidade não passam de aspectos diferentes do mesmo e, do ponto de vista literário, não é por acaso que Houllebecq — na obra em questão — apesar de ter optado pelo gênero romance como estrutura da obra, transita como cronista do tempo através da filosofia, da poesia e do ensaio. Uma mirada fenomenológica que coloca sob várias perspectivas uma reflexão sobre o homem e suas tentativas utilitaristas para se inserir no mundo das paixões inúteis.

Com um pé na ficção científica e outro traçando rastros numa realidade repleta de buscas de soluções mitificadoras, o autor revela seus personagens marcados pela necessidade de inventar atalhos para amenizar o sentimento de paraíso perdido. Reina a nostalgia de um mundo que foi sem nunca ter sido através de uma história que se passa ao mesmo tempo no passado e no futuro, uma espécie de eterno retorno ou, quem sabe, como afirmou Raul Seixas, "o hoje é apenas um furo no futuro por onde o passado começa a jorrar".

Numa ciranda de variações sobre o tema da existência e, com fina e bem humorada ironia, o autor destila suas doses de depressão, monotonia e tédio, numa crítica à mediocridade e o reconhecimento de toda a gama de acontecimentos que conferem ao homem a sua dor de estar no mundo (Weltschmerz). Não a dor meramente psicológica, mas a dor que perpassa o próprio significado do ser, uma questão ontológica. É dizer que o fato de estar no mundo já é terrível, pois é um estado de ser no oceano das cotidianidades, um lugar onde não há entradas ou saídas, embora a possibilidade de uma ilha seja a manifestação de que algo venha a acontecer para alterar o destino. Mas o destino como a consciência existencial e niilista da finitude. Uma consciência que corta o espírito com a afiada lâmina da carne que se destrói na própria tentativa de se superar. Uma consciência de que ser humano é ser vítima dessa condição, um corpo que se vê pouco a pouco deteriorado de si mesmo pelo envelhecimento.

Nesse processo de envelhecimento ou experimentação do mundo, entra em cena o amor, na pele do personagem humorista que vive duas desastrosas paixões. A primeira dessas paixões é Isabelle, uma mulher cujo casamento se nutre de um amor mumificado e sem apetite sexual e, por isso mesmo, se exaure na tentativa mesma de se manter. A segunda é Esther que, assim como a outra, se assemelha no desastrado desfecho, embora se diferencia por ser daquelas em que o sexo está completamente dissociado do amor e, ainda, por ser uma dessas figuras que se recusaram a crescer, como os personagens do filme Kids, de Larry Clark, uma hóspede infantilizada do mundo em ruínas, "paralisada em uma bolha asséptica", experimentando um alheamento e quase como privilégio a iludida sensação de estar fora ou não ter nenhum compromisso com o mundo.

Se Nicolau Maquiavel escreve O Príncipe para demonstrar as peripécias que se fazem necessárias para que este se mantenha no poder e, ainda, Baldassari Castiglione, em O Cortesão, revela as estratégias da dissimulação para que a monarquia e a plebe se completem como uma unidade do sistema, Houellebecq coloca em xeque o próprio sentido do humano, a partir da idéia do neo-humano que se dá num processo de desumanização, onde os valores são travestidos na tentativa de garantir uma espécie de "ordem" para a sobrevivência. Como indagava Torquato Neto, "aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo... ou lá?" Sim, para Houllebecq, aqui é o fim do mundo. Aqui é o início e o fim deste mundo da forma como até então tem sido sustentado, mas também o início e o fim estão lá... na possibilidade de uma ilha inventada para este fim.

Em A Possibilidade de uma Ilha, autor e personagem se confundem. Talvez, como em Rimbaud o "eu é um outro" pode-se dizer que Houellebecq, mais que um autor, além de um outro, é vários autores, considerando que o autor se reveza com seus personagens, cada um por sua vez, ou seja, há tantos autores quanto personagens atuando como sujeitos e objetos que de tanto inverterem seus papéis já se torna impossível distinguir quem é um e quem é o outro. E por falar em personagens, ninguém melhor para ironizar o mundo que um popular e bem sucedido humorista, um bufão especialista em piadas sujas. Não somente ironizar, como é perceptível em um de seus espetáculos cujo título é Chupe Minha Faixa de Gaza, Meu Colono Judeu Gorducho, mas também colocar em questão a vida de um artista corroído pelo próprio gesto de analisar seu papel numa sociedade como a atual que, conforme ele mesmo diz, o "fez" construir a carreira e fortuna "em cima da exploração comercial dos maus instintos..."

Ainda dos personagens, Daniel 24 e Daniel 25 são separados por dois milênios (seria o tempo de duração da era cristã?) e que, para se protegerem dos humanos, se isolam em condomínios tipo bunkers. Estes, por intermédio de cortantes monólogos, estabelecem uma espécie de diálogo sobre a vida de Daniel — ou Daniel 1 — um espécime da sociedade contemporânea. Daniel 1, como representante deste vazio de dois milênios que separam Daniel 24 de Daniel 25, é o retrato de um modelo de sociedade falida. A princípio, diante de todos os fracassos do mundo contemporâneo, mostra-se incrédulo, mas aos poucos acaba por compartilhar com a idéia de que o ser humano não passa de um resultado da visita de extraterrestres. Numa mescla de ciência e misticismo e, talvez, como o último estágio dos suicídios em massa e a liberalidade sexual, os seguidores de uma nova seita com pretensões redentoras, os Elohim, que acreditam na passagem para a vida eterna a partir da clonagem.

Para os que têm consciência da vida num oceano, A Possibilidade de uma Ilha está em potência, abrindo as fronteiras como uma afirmação de que o limite da possibilidade é a impossibilidade frente ao mundo, pronto e acabado, onde tudo está por fazer e que não há mais como sustentar na mera esperança construída de velhos conceitos náufragos de humanidade. Desumanizemo-nos. Se, para alguns críticos, A Possibilidade de uma Ilha está fora de lugar ou, para outros, pelo seu caráter anedótico (sic) teria ficado no meio entre ficção e realidade, cabe-nos ressaltar que não existe um absoluto como o lugar dos lugares (nem no espaço nem no literário) e que o não-lugar é também um lugar, ou seja, reforçando a idéia anterior entre o início e o fim, é no meio que a realidade se realiza.

Parafraseando o dito popular, Houellebecq parece-nos afirmar que há males que vêm para pior e, ao mesmo tempo, coloca um dedo na ferida deste modelo de civilização em que se aposta em hecatombes e fracassos. Há um grito contra esse amontoado de códigos e signos e siglas que não passam de mentiras inventadas como saídas miraculosas para o nada, como um cachorro querendo morder o próprio rabo.

Enfim, em A Possibilidade de uma Ilha, Houellebecq abre as portas do século XXI com um novo romance cuja linguagem é capaz de abrir crateras para preencher o vazio cavado pela pós-modernidade.

Wilson Coêlho
wilsoncoelho@gmail.com
Wilson Coêlho é graduado em Filosofia e Mestre em Estudos Literários pela UFES.
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