O Que é a Arte?
27 de Fevereiro de 2008 ⋅ Estética

Arte e filosofia

Nigel Warburton

A questão da arte é a de saber o que é a arte. Esta tem sido importante tanto na estética do século XX como na prática da arte. Por vezes, parece que os artistas tiveram de a confrontar nos seus trabalhos para serem levados a sério pelo mundo da arte. Enquanto escrevo, o artista belga Francis Alys escolheu mandar um pavão vivo para a Bienal de Veneza em vez de comparecer pessoalmente. A actividade do pavão é apresentada como uma obra de arte intitulada O Embaixador. Os galeristas britânicos do artista forneceram um comentário útil sobre o significado desta obra de arte:

A ave irá pavonear-se em todas as exposições e festas como se fosse o próprio artista. É burlesca, insinuando a vaidade do mundo da arte e remetendo para velhas fábulas com animais. (Citado em "Portrait of the Artist as a Young Peacock", The Times, 6 de Junho de 2001, p. 1.)

Presumivelmente, estava alguém por perto para limpar os trabalhos menores deste artista substituto durante a bienal. Talvez estes venham a ser expostos numa futura bienal.

Alys está longe de ser o primeiro artista a apresentar um animal vivo como obra de arte. Uma Verdadeira Obra de Arte, de Mark Wallinger, por exemplo, é um cavalo de corrida e participou em competições. O nome da obra não deve ser entendido metaforicamente. É literalmente uma obra de arte. É um verdadeiro cavalo que participou em competições assim como é, também, uma verdadeira obra de arte. Nomear o cavalo e dar a conhecer a sua existência é um desafio para a maioria das posições aceites acerca do que é a arte. E, num certo sentido, é esse o objectivo — ou pelo menos uma boa parte do objectivo. Na criação de obras de arte como esta — um estilo baptizado por "objectos ansiosos" pelo crítico de arte Harold Rosenberg — os artistas aproximam-se da condição de filósofos. Para eles, os predecessores sugerem uma teoria da arte que refutam elegantemente através de um contra-exemplo bem escolhido. Com o tempo, esses contra-exemplos ficam integrados na corrente e perdem o poder de chocar, tornando-se a seu tempo alvo de uma nova avant-garde. E assim a arte evolui em direcções estranhas e imprevistas.

O exemplo mais bem conhecido deste tipo de inquietantes gestos — que é central na maioria das discussões sobre a questão da arte — é a Fonte, de Marcel Duchamp. É um urinol branco de porcelana toscamente pintado com o pseudónimo "R. Mutt" que Duchamp submeteu à Exposição da Sociedade para Artistas Independentes de Nova Iorque, em 1917. A exposição seria em princípio aberta a todos — os participantes teriam de pagar seis dólares, ganhando assim direito a expor dois trabalhos. Duchamp pagou a inscrição, mas o seu trabalho foi ainda assim rejeitado. O presidente da direcção da sociedade afirmou numa declaração à imprensa que a Fonte, de Duchamp, "não era uma obra de arte, sob qualquer definição" (Citado em Tomkins, Calvin, Duchamp: A Biography, Londres, Chatto & Windus, 1997, p. 182.). A fotografia de Alfred Stieglitz da Fonte apareceu no segundo número de uma revista, The Blind Man, juntamente com uma discussão de "O caso Richard Mutt" que incluía a seguinte justificação, respondendo à acusação de que esta era "uma mera peça de canalização" e não de arte:

É irrelevante que o senhor Mutt tenha ou não feito a fonte com as suas próprias mãos. Mutt ESCOLHEU-A. Pegou num objecto vulgar do dia-a-dia, colocou-o de modo a que o seu significado útil desaparecesse sob o novo título e perspectiva — criou um novo pensamento para esse objecto. (Citado em Tomkins, Calvin, Duchamp: A Biography, Londres, Chatto & Windus, 1997, p. 185.)

Portanto, era uma obra de arte segundo uma definição. Com a Fonte e outros "readymades" — um termo técnico forjado por Duchamp — o artista pôs em causa a confiança sobre o que a arte poderia ou deveria ser. Quer a Fonte tenha ou não começado por uma brincadeira, a posição que Duchamp estabeleceu com dela tornou-se séria com o tempo. A ideia de que todas as obras de arte têm de ser o produto das mãos do artista, ou que têm de ser esteticamente belas ou emocionalmente profundas, passou a ser difícil de sustentar assim que obras como a Fonte passaram a estar integradas no mundo da arte, como de facto acontece.

Como sugeri, objectos ansiosos como O Embaixador, Uma Verdadeira Obra de Arte e a Fonte apresentam uma espécie de filosofia visual que aborda e responde à questão da arte. Mas tratá-los com um substituto adequado da filosofia é um erro. São na sua maioria meros remoques. A filosofia tem mais a dizer sobre esta questão do que é possível através de uma obra de arte visual. Este livro, na medida em que é uma obra de filosofia, provavelmente não deveria acabar como uma peça em exposição numa galeria de arte. A filosofia é um envolvimento crítico com as ideias através de palavras. Envolve argumentos e contra-argumentos, exemplos e contra-exemplos. Os filósofos não se limitam a expressar as suas crenças; justificam-nas com provas e argumentos. Raciocinam, definem, clarificam. Acima de tudo, os filósofos estão interessados na verdade, numa tentativa constante de ir além das aparências. Tentam formular as suas posições com a clareza e o rigor que lhes permite serem desafiados e até criticados. Deste modo, a filosofia não é uma questão de manifestos e atitudes, mas de posições racionais que conduzem a conclusões bem fundamentadas. Apesar disso, pode mesmo assim ser apaixonante e viva. Não precisa de ser um mero exercício de lógica.

A questão da arte parece mais adequada a uma resposta filosófica do que a uma resposta artística. Contudo, tal não significa que a filosofia tenha uma resposta simples. De facto, um dos resultados do estudo da filosofia é a tomada de consciência de que a maioria das perguntas aparentemente simples não tem uma resposta simples. A filosofia pode fornecer uma base teórica para as nossas crenças mais queridas; mas também pode, do mesmo modo, mostrar quão pouco sabemos. O oráculo de Delfos considerou Sócrates o homem mais sábio de Atenas, o que o surpreendeu, pois Sócrates sentia que não tinha a certeza de coisa alguma. Porém, ao questionar quem estava seguro dos seus conhecimentos o filósofo acabou por perceber que o oráculo tinha razão. A sua sabedoria consistia em conhecer os limites do seu conhecimento, ao passo que os outros emitiam dogmaticamente opiniões indefensáveis. O meu objectivo neste livro é pôr a claro um conjunto de posições indefensáveis, revelando os contra-argumentos e os contra-exemplos que as põem em causa.

Dada a dificuldade de dizer algo positivo e verdadeiro acerca da arte, pode ser tentador rejeitar em bloco a questão da arte. Para quê darmo-nos ao trabalho de filosofar acerca das obras de arte? Barnett Newman sugeriu que os artistas precisam tanto da teoria da arte como as aves da ornitologia. Mas uma verdadeira questão aqui, que merece ser examinada, precisamente por ser tão enigmática. E quanto mais os artistas põem em causa a noção do é que a arte, mais enigmática parece tornar-se. A questão torna-se mais evidente perante objectos ansiosos. Contudo, assim que reconhecemos a questão, pode tornar-se igualmente intratável quando consideramos as principais tendências da arte. Vale certamente a pena dedicar alguma energia à tentativa de responder à questão, ou pelo menos a mostrar por que não pode ser respondida.

Este livro explora algumas das principais tentativas filosóficas do século XX de responder à questão da arte. A maioria dos pensadores que discuto pertencem àquilo que começou a ser conhecido em filosofia como a tradição analítica e todos se centraram nas artes visuais. Não tratei as suas teorias como amostras mumificadas num museu arqueológico mas antes como potenciais contribuições para um debate em curso. Estas teorias estão, claro, intimamente ligadas ao período em que foram escritas. Porém, tal não nos impede de aprender com as perspectivas que podem ser relevantes para as preocupações dos nossos dias — se assim não fosse, dificilmente conseguiríamos justificar o seu estudo. Todas estas teorias têm uma vida própria e algumas contribuições a dar.

Começo pela teoria formalista da arte de Clive Bell, que defende que toda a arte, de todas as épocas, tem um denominador comum — a forma significante. R. G. Collingwood, a quem dedico o Capítulo Dois, defendeu que denominador comum da arte era a sua forma peculiar de expressão emocional, a clarificação daquilo que começa com um sentimento vago. O Capítulo Três analisa o argumento de que a arte tem resistido a ser definida porque não é o tipo de conceito que possa alguma vez ser definido em termos de denominadores comuns. Partindo das ideias de Wittgenstein acerca da natureza da linguagem, os defensores desta perspectiva afirmam que a arte é um termo para semelhanças de família. No Capítulo Quatro ocupo-me de uma das mais importantes teorias da arte recentes, a teoria institucional. Isto leva-nos a uma discussão da sua descendente, conhecida pela designação algo estranha de "definir a arte historicamente". No capítulo final proponho a minha própria hipótese acerca da questão da arte e ilustro-a através de uma comparação entre duas fotografias.

Este livro destina-se a quem se interessa pela questão da arte. Não pressupõe qualquer conhecimento de filosofia, e pressupõe pouco conhecimento de arte. Espero que o leiam artistas e amantes da arte assim como estudantes de filosofia. Têm-se escrito muitos disparates pretensiosos acerca da arte. Esforcei-me muito para não contribuir para esses disparates. Tentei deliberadamente manter o livro curto e directo, até porque acredito que quem está verdadeiramente interessado nas artes visuais deve passar uma parte significativa da vida a ver pinturas, desenhos, imagens, esculturas, fotografias, etc., não se limitando a ler sobre elas.

Nigel Warburton

Tradução de Célia Teixeira
Retirado de O Que é a Arte, de Nigel Warburton (Bizâncio, 2007)
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