2 de Maio de 2010 ⋅ Opinião

Racionalidade distribuída

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

Quando li pela primeira vez Sobre a Liberdade, de John Stuart Mill, obra publicada pela primeira vez em 1859, fiquei surpreendido com um aspecto epistémico que não tinha visto mencionado pelos historiadores e comentadores (ainda que eu esteja longe de conhecer a bibliografia sobre esta obra). Mill defende uma tese epistémica extremamente forte, mas muitíssimo plausível, sobre a racionalidade: o que chamo tese da racionalidade distribuída. A concepção clássica de racionalidade, mais claramente visível em Descartes mas presente em grande parte do pensamento moderno, encara o agente cognitivo como alguém sozinho perante a realidade, olhando para as suas representações desta e procurando saber como pode distinguir as representações verdadeiras das falsas. Há razões para pensar que este modelo está profundamente errado.

Quem conhece Wittgenstein e a argumentação que geralmente lhe é atribuída contra a possibilidade conceptual de uma linguagem logicamente privada está já a ver aqui um padrão comum. Quem conhece Kripke e a sua teoria social da referência dos nomes próprios vê também um padrão. E quem conhece Putnam e a sua teoria social da referência dos termos gerais vê o mesmo padrão. O padrão comum é um conceito da racionalidade, ou de certos aspectos da racionalidade, que a tornam inerentemente social.

Mal compreendida, esta tese quer dizer o absurdo afirmado por pessoas sem formação intelectual adequada: que as verdades são invenções humanas, como a ficção ou a poesia. E deve ser por este patente absurdo esconder um grão de verdade que é tão atraente para tanta gente. A verdade é uma propriedade das nossas representações da realidade, e não depende da nossa vontade nem da força das nossas convicções: depende da realidade, a maior parte da qual é completamente alheia aos nossos interesses, expectativas e vontades. O acertar na verdade é consequentemente algo que depende em grande parte de algo que nos ultrapassa: a realidade. Mas os modos como podemos tentar acertar na verdade são inerentemente sociais.

Uma vez mais, a última afirmação tende a ser incompreendida por quem não tem uma formação intelectual adequada. Entende-se logo que isto implica a tese da verdade como negociação, manipulação retórica, erística, jogo de forças, etc. Quando os seres humanos se entregam a estas coisas (e infelizmente entregam-se frequentemente a estas coisas), estão a distorcer o papel social da descoberta da verdade, tornando-o uma luta simiesca. E quando o fazem, baixam terrivelmente a probabilidade de descobrir verdades, ficando com consensos irracionais.

A racionalidade distribuída consiste em assumir a nossa falibilidade. Daí segue-se que só na discussão conjunta podemos baixar a probabilidade de erro — mas nunca o eliminar. De facto, é o que se faz quando se faz boa filosofia ou boa ciência. É o que as pessoas fazem no dia-a-dia quando contrastam as suas crenças entre si. Mas este processo só funciona adequadamente quando a discussão é proba. Se a discussão for encarada como erística, os consensos não têm maior probabilidade de acerto do que o mero acaso.

"As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento", defende Mill na obra mencionada. E explica que isto se aplica tanto à física como a qualquer outra área cognitiva humana. Sem se aperceber, Mill está a defender uma tese prometedora interessantíssima e muitíssimo forte, que tanto quanto sei deita por terra o seu próprio trabalho em epistemologia desenvolvido no Sistema de Lógica, para não falar da epistemologia positivista e de grande parte da concepção tradicional de racionalidade e justificação. É uma via que vale a pena explorar. A ideia central é que é tanto mais racional crer em algo quanto mais esse algo é também objecto de crença de outras pessoas — desde que as outras pessoas também investiguem essa crença com probidade.

Esta visão da racionalidade e da justificação está intimamente relacionada com a concepção de argumento cogente que desenvolvi no artigo "Epistemologia da Argumentação", do meu livro Pensar Outra Vez. Deste ponto de vista, o que há de irracional numa petição de princípio, quando é um argumento válido com premissas verdadeiras, é violar o princípio de que as premissas devem ser mais plausíveis do que a conclusão para quem rejeita a conclusão. Mas este princípio é apenas, bem vistas as coisas, uma aplicação do princípio da racionalidade distribuída: a ideia de que só temos justificação para aceitar algo se um conjunto de outros agentes racionais considerou com probidade essa ideia e a aceitou. Que não há argumentos sem agentes é uma trivialidade. Mas o princípio da cogência implica que não há argumentos bons sem agentes, o que está longe de ser uma trivialidade e, na verdade, opõe-se a uma longa tradição filosófica. A mesmíssima tradição que vê a racionalidade e a justificação em termos solipsistas: a tradição que Mill põe em causa numa só frase.

Desidério Murcho
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