Casa ao Sol, de Fairfield Porter
14 de Dezembro de 2009 ⋅ Filosofia da mente

A teoria representacional da mente

Vítor Pereira
Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa

A teoria representacional da mente pressupõe erroneamente que todos os estados mentais são intencionais. Mas há estados mentais, como dores e emoções, que claramente não o são.

Se considerarmos a parte cognitiva da mente (estados mentais como crenças, desejos, intenções — as chamadas atitudes proposicionais), a teoria representacional da mente parece estar bem: esses estados são intencionais. A maior dificuldade (admitindo a habitual divisão da totalidade dos fenómenos mentais) reside naquela categoria dos fenómenos mentais chamada a das sensações e experiências. Esta categoria inclui, por exemplo, não só, experiências auditivas como o acontecimento que consiste em ouvir uma certa sinfonia, experiências visuais como o acontecimento que consiste em ver um carro azul, experiências olfactivas, experiências tácteis, mas também sensações álgicas e emoções. Estados mentais como dores e cócegas não parecem ser acerca do que quer que seja ou significar o que quer que seja. Mas, de acordo com a teoria representacional da mente, também estes estados são intencionais.

Se aceitarmos a concepção relacional acerca de atitudes proposicionais, o estado psicológico em que está, por exemplo, quem acredita em Deus envolve uma certa relação (de carácter positivo), a relação de acreditar, entre essa pessoa e uma certa proposição, a proposição que Deus existe. O estado em que alguém está, por exemplo, se pelo contrário, duvida que Deus existe, envolve uma certa relação (de carácter negativo, pelo menos em certo sentido), a relação de duvidar, entre essa pessoa e uma certa proposição, a proposição que Deus existe. A relação que tal estado psicológico envolve, não é uma relação entre essa pessoa e um objecto físico, a relação é entre essa pessoa e um objecto abstracto, aquela proposição.

A concepção relacional acerca de atitudes proposicionais inclui versões em que as atitudes proposicionais são relações directas, não mediadas, entre pessoas (e outros organismos) e proposições. E inclui versões em que as atitudes proposicionais são relações indirectas entre pessoas (e outros organismos) e proposições. Nesta última versão, a relação entre pessoas (organismos) e proposições pode ser mediada por coisas diversas, dependendo da teoria particular defendida, como representações mentais, frases de uma linguagem natural, frases da “linguagem do pensamento”.

As atitudes proposicionais podem ser individuadas em termos do seu conteúdo e do seu modo psicológico.

Vejamos a identidade de conteúdo. Por exemplo, a crença do José de que o Joaquim é um vigarista e a crença do Joaquim de que o Manuel vai ganhar o totobola pertencem ao mesmo modo ou tipo de estado psicológico, são crenças, mas são estados mentais distintos por terem conteúdos distintos e têm conteúdos distintos porque o que individua a crença do José é a proposição que o Joaquim é um vigarista mas o que individua a crença do Joaquim é a proposição que o Manuel vai ganhar o totobola. Assim a identidade de conteúdo proposicional é uma condição necessária para a identidade de atitudes.

Vejamos agora a outra condição, a da identidade de modo psicológico. Por exemplo, a crença de José de que o Joaquim é um vigarista, a dúvida de Manuel de que o Joaquim seja um vigarista, têm o mesmo conteúdo proposicional, a proposição que o Joaquim é um vigarista, mas são estados mentais distintos por estarem subsumidos por modos ou tipos psicológicos distintos (crença, dúvida). Assim a identidade de modo psicológico é a outra condição necessária para a identidade de atitudes. Embora separadamente, ambas, a identidade de conteúdo e a identidade de modo psicológico, são necessárias para a identidade de atitudes proposicionais.

Quanto à parte cognitiva da mente a teoria representacional está em ordem: estados mentais como crenças, desejos, intenções são intencionais.

As atitudes proposicionais, de acordo com a aludida divisão habitual da totalidade dos fenómenos mentais, distinguem-se de sensações e experiências, por aquelas, mas não estas, envolverem necessariamente a cognição, isto é, um organismo não pode estar num estado psicológico atitudinal, sem que possua e exercite determinados conceitos. Distinguem-se ainda invariavelmente por ser possível atribuir-lhes a propriedade de terem conteúdos proposicionais, propriedade que muitas vezes não é possível atribuir a sensações e experiências.

A natureza de estados como acreditar que a relva é verde ou desejar que o cão não morda o sofá parecem não ter qualquer fenomenologia relevante, mas parecem ser acerca de coisas e significar algo.

Relevante para estados mentais como sensações e experiências, e praticamente irrelevante para atitudes proposicionais, é a sua fenomenologia, isto é, por exemplo, a maneira como a dor é sentida. A natureza desses estados, de estados como dores e cócegas, é exaurida pela maneira como são sentidos: é dessa maneira que eles, esses estados, são individuados, pela sua fenomenologia. Dores e cócegas são assim estados mentais que não parecem ser acerca do que quer que seja ou significar o que quer que seja.

Mas, de acordo com aquela teoria da mente, a representacional, o carácter qualitativo de estados mentais fenomenológicos como dores sobrevem sobre o conteúdo intencional de tais estados. E o que isto quer dizer é que não há uma diferença de conteúdo intencional sem que haja uma diferença fenomenológica. Esta é a versão fraca.

A versão forte da teoria representacional é a tese da identidade entre fenomenologia e representação (Tye 2000, 45): o carácter qualitativo de estados mentais fenomenológicos como dores é o conteúdo intencional de tais estados. (A discussão de ambas estas versões está amplamente documentada na bibliografia.1)

Assim para um filósofo como Tye (outro é Dretske 1997 mas difere daquele em que Tye (2000, 136; cf. 1995, 101) define a noção de representação em termos de co-variação e Dretske em termos teleológicos2 — em termos da função de representar ter surgido no decurso da evolução das espécies), o carácter fenomenológico da dor é o conteúdo representacional que tem. O conteúdo fenomenológico da dor é um tipo de conteúdo representacional. Este conteúdo está pronto para (poised), é abstracto e não-conceptual. É aliás corrente na literatura o acrónimo PANIC (Poised Abstract Conceptual Content) pelo qual é conhecida a proposta de Tye.

O que Tye (2000, 63; cf. 1995, 137) quer dizer com isto, com o conteúdo fenomenológico da dor ser PANIC é, em breves palavras, o seguinte.

Esse conteúdo é tal que a experiência da dor prontamente (poised) implica que o organismo se afaste do estímulo nocivo.

Ele é também abstracto, isto é, no conteúdo fenomenológico nada há de concreto: uma dor numa parte do corpo do organismo, numa perna (por exemplo), não pode ser uma experiência em que essa parte do corpo, essa perna, entre. O organismo pode ter perdido essa parte do corpo e ainda assim sentir aí dor, o que para Tye é fenomenologicamente indistinguível de o sentir na perna. O carácter fenomenológico das duas experiências é o mesmo, o seu conteúdo fenomenológico também: mas, num dos casos, o organismo perdeu uma parte do seu corpo.

Finalmente, esse conteúdo, o fenomenológico, é não-conceptual, e o que Tye quer dizer com isto é que a experiência da dor não implica qualquer posse pelo organismo do conceito de dor.

Estas condições — poised, abstracto e não-conceptual — são, para Tye, necessárias e suficientes para o conteúdo fenomenológico ser o conteúdo representacional que é, para estados mentais como dores serem intencionais.

Mas nós não concordamos. Dores não são estados mentais intencionais no mesmo sentido em que estados mentais cognitivos como crenças e dúvidas são intencionais: nada há na sensação além de ser sentida. Que tenhamos uma dor e a seguir cheguemos lá e olhemos para ela para falar acerca dela isto é já a nossa cognição a trabalhar, mas esta maneira (cognitiva) de procedermos não faz da sensação ela mesma um estado mental intencional da mesma maneira que quando cogitamos acerca dela. Essencial a estados mentais cognitivos é que sejam intencionais, sem essa marca, a da intencionalidade, eles são seriam os estados mentais que de facto são. Mas dores são outra coisa: aquilo que lhes é essencial é como as sentimos, é a sua fenomenologia — pois sem esta, sem fenomenologia, elas não seriam os estados mentais que de facto são. E de todo, estados mentais como dores não são acerca do que quer que seja, não são intencionais — não representam nada: ainda que possamos representá-los cognitivamente de alguma maneira, isto não são eles a serem acerca de alguma coisa, somos nós a falar acerca deles: isto não são eles a serem cognições, são eles a serem sensações.

Para Tye, o carácter fenomenológico da dor é o conteúdo representacional que tem: a fenomenologia da dor é uma sua propriedade representacional necessária (porque essencial3) e suficiente. Mas isto não faz da dor um estado mental intencional da mesma maneira que estados cognitivos são intencionais. Se esta é a ideia de Tye, há aqui o erro categorial de atribuir à categoria das sensações e experiências propriedades cognitivas necessariamente (mas não suficientemente) atribuíveis a estados mentais como crenças e desejos.

Olharmos para um pôr-do-sol ou estarmos/sermos assustados com/por alguma coisa são estados mentais com aspectos sensoriais e proposicionais, eles podem ser identificados quer pela fenomenologia neles envolvida quer pelas proposições com eles relacionadas.

Em todo o caso, a discriminação proposta para sensações e atitudes não é contrariada e esta maneira de dividir o mental conserva todo a sua utilidade. Tal como a possibilidade de haver sensações e experiências com conteúdo proposicional não contraria a discriminação proposicional das atitudes (ter conteúdo proposicional é uma condição necessária mas não suficiente para um estado mental ser uma atitude proposicional), também a possibilidade de haver atitudes com elementos fenomenológicos não contraria a discriminação fenomenológica das sensações e experiências (ter uma certa fenomenologia é uma condição necessária mas não suficiente para um estado mental ser uma sensação e uma experiência). E vamos concluir.

A assunção da teoria representacional da mente de que todos os estados mentais são intencionais é errónea: estados mentais como dores não são intencionais. É impossível uma dor não ser sentida como dor e é impossível algo que é de facto sentido como dor não ser uma dor. O que é característico da dor é a sua sensação. A dor é a própria sensação. Em qualquer mundo possível, há apenas uma maneira de identificar alguma coisa como dor, nomeadamente pela sensação: nada (pace Tye) na essência da dor requer que seja um estado mental intencional.

Sensações parecem ser mais simples, mais primitivas, do que atitudes proposicionais: elas, as sensações, estão presentes em animais incapazes de qualquer atitude em relação seja a que proposição for e naqueles capazes de tal coisa, de atitudes proposicionais, a sensação das coisas precede o pensamento acerca delas (os bebés sentem coisas antes de começarem a pensar coisas). Elas, sensações, parecem pertencer a um estádio mais primitivo da evolução e do desenvolvimento individual, as atitudes proposicionais a um seu estádio imposto sobre o daquelas.

As sensações são pré-racionais no sentido em que a sua presença não é suficiente para qualificar uma criatura como um agente racional: atribuímos estados mentais cognitivos a uma criatura, racionalizamos aquilo que ela faz, mas quando lhe atribuímos sensações não estamos a racionalizar nada do que essa criatura faça. Não há nada como o conteúdo proposicional a relacionar sensações como há a relacionar estados mentais como crenças e desejos.

Estados mentais como dores e estados mentais como crenças contrastam ainda em que a propriedade de ser um estado mental consciente é intrínseca aos primeiros, dores, mas não aos segundos, crenças. Não podemos conceber a dor como um estado mental inconsciente, nem a consciência a ser uma propriedade extrínseca contingentemente exemplificada pela dor. Mas não é intrínseco a uma crença que ela seja uma crença consciente. Isto porque ter uma dor é sentir dor e sentir dor é estar consciente dela.

Vítor Pereira
vpereira1@campus.ul.pt
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