Sabedoria sem Respostas
28 de Fevereiro de 2004 ⋅ Filosofia

Antídoto ao cepticismo

Sabedoria sem Respostas: Uma Breve Introdução à Filosofia, de Daniel Kolak e Raymond Martin
Tradução de Célia Teixeira
Lisboa: Temas e Debates, 2004, 219 pp., 11,00 €
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Apresentar a filosofia aos estudantes, assim como ao público em geral, enfrenta quase sempre esta dificuldade: habituados que estamos a um sistema educativo dogmático, que coloca a ênfase na mera transmissão da informação, do conhecimento adquirido, e não na capacidade para descobrir, para fazer conhecimento, tanto os estudantes como o público em geral tende a ler ou ouvir passivamente o que lhe é dito. Para os estudantes e para o público em geral a filosofia é apenas mais uma disciplina, como a física ou a história. Num certo sentido, é verdade que a filosofia é apenas mais uma disciplina. Mas como a ideia que temos das outras disciplinas está distorcida por um sistema educativo dogmático, tendemos a pensar que estudar filosofia é uma questão de compreender e saber explicar as ideias de Platão ou Kant, Descartes ou Popper, Hume ou Kripke, tal como estudar física é saber repetir muito bem as teorias estabelecidas. Em ambos os casos se trata de meras caricaturas das disciplinas em causa. A essência da filosofia, tal como a essência da física ou da literatura, está no fazê-las, e não no repeti-las.

Evidentemente, em filosofia como nas outras disciplinas, é necessário conhecer as teorias estabelecidas, é necessário dispor de informação sobre o que se fez, como se fez e por que razão se fez. Mas se nos limitarmos a fazer relatórios do que se fez, não estaremos a fazer filosofia, nem literatura, nem física. Como se estimula, então, o público e os estudantes a fazer filosofia, ao invés fazer apenas relatórios? Alguns livros introdutórios de filosofia procuram fazer isso mesmo. Um deles é o livro Que Quer Dizer Tudo Isto?, de Thomas Nagel. Outro é o presente livro.

Com 14 capítulos que apresentam outras tantas áreas da filosofia, cada capítulo procura mostrar que mal nos pomos a pensar de forma sistemática e não dogmática há problemas reais, que geram perplexidades inultrapassáveis, e a que se torna urgente procurar dar resposta. Mas este não é um livro de respostas; o objectivo é tornar vivas e urgentes os problemas e as perguntas. Depois de se sentir na pele a realidade dos problemas filosóficos, compreende-se melhor as ideias dos grandes filósofos do passado e do presente, que procuram, precisamente, responder a esses problemas com as suas teorias e argumentos. Assim, na parte final do livro (e ao contrário do livro de Thomas Nagel), encontra-se uma informativa bibliografia para cada um dos capítulos.

Ao longo dos capítulos os autores argumentam e contra-argumentam intensivamente. Não se trata de apresentar dogmaticamente, por exemplo, o problema do livre-arbítrio; trata-se de tornar este problema vivo e real, enfrentando os primeiros argumentos intuitivos que procuram afastar o problema apresentando respostas inadequadas. Deste modo, os autores combatem efectivamente o cepticismo ingénuo quanto à filosofia, de que sofrem infelizmente muitos cientistas e — surpreendentemente — muitos professores de filosofia. Este cepticismo é a ideia de que a filosofia é um artificialismo histórico e não uma forma de enfrentar problemas urgentes e vivos. Do ponto de vista deste cepticismo, os problemas da filosofia são artificialismos opcionais — da nossa linguagem, da nossa história ou de outra coisa qualquer. Tanto podemos tomá-los como importantes como abandoná-los ao esquecimento. Este livro é um bom antídoto para este cepticismo porque apresenta directamente os problemas filosóficos, argumentando e contra-argumentando com tal força que todas as tentativas de fugir à realidade dos problemas filosóficos ficam bloqueadas. E bloquear estas fugas é libertar o espírito humano.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br

Sobre os autores

Daniel Kolak

Daniel Kolak é doutorado em filosofia pela Universidade de Maryland e autor de inúmeros livros, entre os quais se destacam On Hintikka (Wadsworth, 2001), I Am You: The Metaphysical Foundations for Global Ethics (Kluwer Academic Publishers, 2001), Principles of Cognitive Science (Routledge, 2000) e Lovers of Wisdom (Wadsworth, 1997). Organizou ainda diversas antologias, entre as quais a famosa The Experience of Philosophy (Wadsworth, várias edições). Publicou diversos artigos em revistas académicas como Philosophical Psychology e American Philosophical Quarterly .

Raymond Martin

Raymond Martin é professor de filosofia e director do departamento de filosofia de Union College, Schenectady. É autor de vários livros, entre os quais se destacam Naturalization of the soul: Self & Personal Identity in the Eighteenth Century (co-autoria, Routledge, 2000), Self-Concern: An Experiential Approach to What Matters in Survival (Cambridge UP, 1998), The Elusive Messiah: Philosophical Overview of Quest for Historical Jesus (Westview, 1999) e The Past Within Us: An Empirical Approach to Philosophy of History (Princeton UP, 1989), assim de várias antologias, entre as quais se destacam Personal Identity (co-organização, Blackwell, 2003), God Matters: A Reader in the Philosophy of Religion (co-organização, Longman, 2003), Self and Identity: Contemporary Philosophical Issues (co-organização, Macmillan, 1991), The Experience of Philosophy (co-organização, Oxford University Press, 2002) e Self, Cosmos, God (co-organização, Harcourt Brace Jovanovich, Inc., 1993). Publicou diversos artigos em revistas académicas como British Journal of History of Philosophy, Journal of the History of Philosophy, History and Theory e Philosophical Studies.

Índice

Introdução
1 Onde
2 Quando
3 Quem
4 Liberdade
5 Conhecimento
6 Deus
7 Realidade
8 Experiência
9 Consciência
10 Cosmos
11 Morte
12 Sentido
13 Ética
14 Valores
Epílogo
Ligações filosóficas

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