20 de Setembro de 2011  

Sentido na vida

O Sentido na Vida e por que razão é importante
de Susan Wolf
Tradução de Desidério Murcho
Lisboa: Bizâncio, Setembro de 2011, 192 pp.

Susan Wolf é uma das mais influentes filósofas contemporâneas no que respeita ao problema do sentido da vida. Nesta sintética obra defende a sua conhecida tese de que é no seio da vida que se encontra sentido, quando nos entregamos com entusiasmo a projectos e actividades meritórios. O livro contém ainda comentários e críticas de John Koethe, Robert M. Adams, Nomy Arpaly e Jonathan Haidt, a que Wolf responde no final. De leitura agradável, ao mesmo tempo que é estimulante, este é um livro para ler e reler, que nos ajuda a reflectir sobre um tema que a todos interessa.

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Excerto

Os modelos filosóficos da psicologia humana — ou, mais especificamente, da motivação humana — tendem a pertencer a uma de duas categorias. O modelo talvez mais antigo e perfilhado concebe os seres humanos como egoístas, exclusivamente motivados e guiados pelo que consideram ser do seu interesse próprio. Contudo, desde há muito que se conhece defensores de um modelo dualista da motivação, segundo o qual as pessoas podem ser motivadas não apenas pelo interesse próprio mas também por algo mais “elevado”. É famoso o pensamento de Kant, por exemplo, de que além de estarem sujeitas a inclinações, as pessoas são capazes de ser motivadas e dirigidas pela razão apenas.

Intimamente ligados a estes dois modelos descritivos da motivação humana estão os modelos prescritivos ou normativos da razão prática. A tese descritiva do egoísmo psicológico, que sustenta que as pessoas procuram exclusivamente o seu próprio bem, está intimamente conectada (e confunde-se muitas vezes) com a tese normativa do egoísmo racional, que sustenta que as pessoas só são racionais na medida em que procurarem maximizar o seu bem-estar. Correspondendo à concepção dual da motivação humana, encontramos uma concepção também dual da razão prática. Isto é talvez mais explícito nos escritos de Henry Sidgwick, que sustentava haver duas perspectivas que oferecem às pessoas razões igualmente legítimas para agir: a perspectiva egoísta, que fornece recomendações quanto ao que mais favorece o interesse próprio do agente; e a perspectiva impessoal, que nos insta a fazer o que for melhor “do ponto de vista do universo”.

No discurso comum, assim como na filosofia, parece que estamos vagamente a pensar num destes dois modelos quando oferecemos justificações para as nossas acções ou políticas. A maior parte das vezes, quando nos pedem para explicar ou justificar as nossas escolhas, oferecemos razões que parecem pertencer à categoria do interesse próprio. Quando tentamos persuadir outra pessoa a fazer algo, podemos ainda mais intensamente apelar para o interesse próprio — neste caso, o interesse próprio da outra pessoa. Mesmo assim, há algumas ocasiões em que invocar o interesse próprio não seria simplesmente persuasivo, e outras em que tais apelos seriam inadequados, ou pelo menos irrelevantes. Nestes casos, é provável que usemos a linguagem do dever: dizemos que a justiça ou a compaixão, ou simplesmente a moralidade, exige que ajamos de tal e tal modo, contribua isso ou não para o nosso próprio bem.

Parece-me, contudo, que estes modelos da motivação e da razão prática não incluem muitos dos motivos e razões que configuram as nossas vidas. Além disso, as razões excluídas não são periféricas nem excêntricas. Na verdade, podemos dizer que as razões e motivos omitidos por estes modelos são alguns dos mais importantes e centrais nas nossas vidas. São as razões e motivos em virtude dos quais nos entregamos às actividades que fazem as nossas vidas valer a pena; dão-nos razão para continuar; fazem girar os nossos mundos. São essas razões e motivos, e as actividades que engendram, que dão sentido às nossas vidas.

O meu objectivo nesta conferência é trazer à luz o carácter próprio destes géneros de razões e o papel especial que desempenham na qualidade das nossas vidas. Especificamente, irei sugerir que a nossa susceptibilidade a estes géneros de razões está ligada à possibilidade de termos vidas com sentido, entendendo o sentido como um atributo que as vidas podem ter e que não é redutível, ou subsumível, nem à felicidade, tal como esta é comummente entendida, nem à moralidade. Ocupar-me-ei principalmente da explicação da característica a que chamo o sentido na vida, apresentando-o de modo a que pareça valer a pena querê-lo, tanto para nós como para quem conta para nós. Como veremos, contudo, o que tenho a dizer será de pouco ou nenhum uso prático. Apesar de apresentar uma perspectiva sobre o que é ter uma vida com sentido, não posso senão oferecer o mais abstracto dos conselhos sobre o que fazer para ter ou viver tal vida. Consequentemente, na segunda conferência, depois de defender a minha perspectiva de um conjunto particularmente importante de objecções, dedicar-me-ei à questão de saber por que é importante que nos demos conta de que existe a categoria do sentido, distinta das categorias da felicidade e da moralidade, que estamos mais habituados a invocar ao pensar sobre o que fazer e como viver. Como irei argumentar, estar ciente de que o sentido é um terceiro género de valor que uma vida pode ter deve afectar a nossa compreensão dos dois primeiros géneros: ou seja, adoptar modelos da motivação e razão humana que tenham em atenção o sentido deve afectar o modo como pensamos sobre a felicidade e a moralidade — e também sobre o interesse próprio. Além disso, se a perspectiva que apresento nestas conferências estiver correcta, não podemos sequer conceber o sentido sem atribuir um certo género de objectividade aos juízos valorativos. Segue-se que se queremos continuar a falar, atender e encorajar a aquisição de sentido nas vidas das pessoas, temos de estar dispostos a incluir este género de objectividade na nossa discussão dos valores.

Índice

Agradecimentos
Introdução de Stephen Macedo

Sentido na vida e por que razão é importante

  1. Sentido na vida
  2. Por que razão é importante

Comentários e respostas

John Koethe
Robert M. Adams
Nomy Arpaly
Jonathan Haidt
Resposta Susan Wolf

Autores
Índice remissivo