The Great Ape Project
15 de Julho de 2010 ⋅ Ética

Símios, humanos, alienígenas, vampiros e robotas

Colin McGinn
Tradução de Ricardo Miguel

Em criança, tendes a considerar garantida a tua posição na vida, escrita na ordem natural das coisas. Nasceste, digamos, numa família branca de classe média, levas uma vida desafogada, de boa saúde e sem qualquer preocupação específica. Tens direitos e privilégios, e estes são geralmente respeitados. Não estás a passar fome, aprisionado ou escravizado. Passas férias agradáveis. Em tenra idade provavelmente pressupões que todos vivem assim. Parece natural que gostes do tipo de vida que a providência te concedeu. Não pensas sobre ela.

Depois começas a reparar que há outros menos afortunados (e outros mais). Vês pessoas à tua volta mais pobres que tu, possivelmente sem-abrigo, ou que têm algo grave física ou mentalmente de errado com eles. Começas a ouvir falar de pessoas noutros países que estão a morrer à fome, ou a serem arrasadas em guerras, ou a sofrer de doenças terríveis. Algumas são crianças como tu! Estes factos inquietam-te; e obrigam-te a fazer comparações com a tua própria vida. Depressa és atingido por um pensamento assustador: que é realmente apenas sorte não estares no lugar delas. Calhou teres nascido numa certa classe, numa certa parte do mundo, com certas estruturas sociais, num certo período da história. Mas não há coisa alguma de necessário nisto — é apenas resultado do acaso. As coisas poderiam ter sido de diferentes maneiras que são insuportáveis de pensar. Perguntas-te como teria sido a tua vida se tivesses tido azar e vivesses em condições menos felizes. Imaginas-te nascido numa região de fome, ou tendo surgido antes de a medicina ter feito qualquer progresso com pragas, ou antes da canalização moderna. Consideras então uma espécie de pensamento filosófico: que é apenas contingente que as coisas sejam como são, e que poderias estar numa situação muito pior. És apenas sortudo. Do mesmo modo, percebes que é apenas azar dos outros que as suas vidas sejam difíceis. Não há necessidade divina, ou lógica intrínseca, relativamente a nada disto. É basicamente um acidente moral. Assim estarias se não fosse a sorte...

E com este pensamento nasce a consciência social. Uma vez que não existe forte necessidade no ordenamento do bem-estar entre as pessoas, devemos tentar corrigir (evitáveis) desigualdades e desgraças. A arbitrariedade deve ser excluída da distribuição do bem-estar. Devemos descobrir as fontes de miséria e privação e tentar eliminá-las, dentro do possível. Certamente que não devemos contribuir voluntariamente para a posição desfavorecida de outros. Não devemos abusar do poder que, por pura sorte cósmica, gozamos. Assim, a moralidade baseia-se na consciência da contingência do mundo, e é alimentada pela capacidade de visualizar alternativas. A imaginação é fundamental para o seu funcionamento. A pessoa moralmente complacente é aquela que não consegue conceber como as coisas poderiam ter sido diferentes; é incapaz de dar apreço ao papel da sorte — em si, um conceito que depende de imaginar alternativas. Não faz sentido procurar mudar se este é o modo como as coisas têm de ser. A moralidade baseia-se então na modalidade: isto é, no domínio dos conceitos de necessidade e possibilidade. Ser capaz de pensar moralmente é ser capaz de pensar modalmente. Especificamente, consiste em ver outras possibilidades — não tomando o actual como necessário.

Para chegar à questão em causa, penso que os adultos humanos sobrestimam persistentemente o papel da sorte biológica em assegurar o nosso domínio sobre o resto da natureza. Ainda somos como crianças que tomam os factos contingentes como necessários, e por isso não conseguimos compreender a importância moral do que realmente se passa. De facto, as pessoas acreditam profundamente que há uma necessidade divina a subscrever o nosso poder sobre as outras espécies, por isso não questionam este uso de poder. Na verdade, esta suposição está escrita explicitamente em muitas religiões. Em todos os mundos possíveis estamos no topo da árvore biológica. Enquanto crianças, considerámos ingenuamente a posição da nossa família o lugar da necessidade cósmica; agora pressupomos que a posição da nossa espécie está cosmicamente garantida.

Ou seja, pressupomos que a nossa relação com outras espécies é essencialmente o modo como as coisas tinham de ser, não fazendo então sentido questionar a ética de tal relação. Logo, a consciência social acaba na fronteira da espécie humana, com mais ou menos um pouco de supererogação aqui e ali. Não levamos a sério a ideia de que é apenas sorte que a nossa espécie seja a número um na hierarquia do poder biológico. Portanto, a nossa consciência acerca da nossa conduta no mundo biológico não é ferida pela reflexão de que nós poderíamos estar mais abaixo na escala de dominação das espécies. Precisamos por conseguinte de alinhar as morais da nossa espécie com os factos reais da possibilidade biológica.

Para ser específico, não conseguimos perceber que poderíamos estar em relação a outra espécie no tipo de posição que os símios ocupam agora em relação a nós; protegemo-nos assim das questões morais que surgem da nossa presente relação com os símios. Ou então reconhecemos a contingência da nossa posição biológica de formas ocasionais e circunscritas — como se o nosso inconsciente o reconhecesse demasiado bem, mas nós o reprimíssemos no interesse de escapar às suas consequências morais. Pois o nosso especismo instintivo oscila quando nos consideramos na extremidade receptora da dominação de outra espécie. Permitimo-nos fazer parte desta contingência em certos contextos imaginativos especiais reservados — não no mundo da rígida moral e realidade política. Em grande medida, estes contextos tipicamente envolvem terror e medo e perda de controlo. Sendo que a maior parte deles, hoje em dia, se passa no cinema. Estou a pensar, claro, em ficção científica e filmes de terror. Aqui, alternativas à nossa supremacia biológica são imaginativamente exploradas. Seja-me permitido mencionar três tipos de ficção nos quais nós, humanos, assumimos uma posição de espécie subjugada — ou planeamos escapar a uma tal posição contra vantagens significativas.

Em primeiro lugar, claro, temos os alienígenas invasores do espaço, que vêm para destruir, parasitar ou escravizar a espécie humana — os usurpadores de corpos, destruidores de estômagos e controladores de mentes. A ideia aqui é que somente o espaço protege a nossa espécie das depredações de seres mais poderosos, de modo que as viagens espaciais são uma potencial via para a despromoção de espécies. A pura distância é aqui a contingência salvadora. É apenas uma sorte que tais alienígenas não vivam na Lua, pois então ainda agora seríamos os seus brinquedos.

Depois temos as histórias de vampiros, nas quais o tema de usar a espécie humana para alimento é preponderante. Uma colónia de vampiros vive à custa dos habitantes humanos de uma certa área, bebendo-lhes o sangue, matando outros humanos que se metam no seu caminho. Os humanos são apenas um rebanho para os vampiros. Os vampiros são normalmente representados como extraordinariamente maus, admirando deleitosamente os pescoços prestes-a-serem-perfurados das suas belas jovens vítimas, mas às vezes são retratados mais simpaticamente, fazendo apenas aquilo que a natureza os projectou para fazer — escravos da sua própria biologia, de certo modo. De qualquer forma, são vistos como uma ameaça terrível para os humanos, e no geral há uma boa dose de sorte envolvida em evitá-los. Foi por pouco que toda a espécie humana não foi condenada a ser alimento de vampiro para toda a eternidade. E é uma sorte nós, os espectadores, não termos nascido na Transilvânia.

Uma terceira categoria de despromoção humana introduz máquinas, as nossas máquinas. Suponho que o monstro de Frankenstein entra nesta categoria, uma vez que foi construído por um humano, ainda que a partir de partes orgânicas; mas um exemplo mais recente do género são os filmes do Exterminador, nos quais a rede de computadores internacional, que controla armas nucleares, um dia ganha autoconsciência e, temendo pela sua própria sobrevivência nas mãos humanas, começa uma guerra contra os seus criadores humanos, com consequências muito graves. Este computador constrói os seus próprios robotas1 formidáveis (“exterminadores”) cuja missão é simplesmente matar tantos seres humanos quanto possível, e não irão parar. Este é então um caso no qual os nossos artefactos se revoltam e exercem domínio sobre nós, causando à nossa espécie miséria e assolação indescritíveis. E aqui a contingência é meramente o nível de avanço tecnológico das nossas máquinas. Se não formos cuidadosos, reza a história, a nossa tecnologia voltar-se-á contra nós, para nos oprimir; por isso é melhor não confiarmos na sorte para prevenir que isto aconteça no futuro. De facto, se for possível viajar no tempo, devíamos estar a pensar sobre isto agora, uma vez que o futuro pode conter as tais máquinas exterminadoras tornadas possíveis através de extensões da nossa tecnologia actual. Pelo menos assim sugerem os filmes.

Bem, isto é tudo boa diversão e entretenimento, mas a questão que quero frisar é que estes pesadelos imaginários representam, de forma sublimada, a nossa sensação reprimida da contingência da nossa supremacia biológica enquanto espécie. Dizem: “Vocês podiam estar na posição que efectivamente outras espécies estão — na posição em que vocês as puseram.” E, claro, espera-se que simpatizemos connosco próprios nestes mundos possíveis imaginários: aplaudimos os combatentes pela liberdade que procuram libertar-nos da dominação egoísta de outros tipos de seres. Com certeza que não pensamos que nestas lutas entre espécies vale o poder da força. Temos de os combater precisamente porque são moralmente cegos a respeito do que nos estão a fazer, ou apenas completamente insensíveis. O que estou então a sugerir é que levemos a sério a ideia de que poderíamos estar, ou podemos estar, numa tal posição, e que nos perguntemos que princípios morais iríamos querer ver observados se de facto fossemos nós a espécie mais fraca. Isto é, precisamos de uma moralidade das espécies informada pela ideia de sorte biológica. Do mesmo modo, precisamos de nos perguntar que direitos têm de ser garantidos às espécies que calham então a ser nossas subservientes — no caso actual, os símios. Que aparência tem isto do ponto de vista deles? Se os seres humanos nunca tivessem evoluído, não teria havido experimentação científica usando símios, nem confinamento de símios em jardins zoológicos e noutros lugares, nem morte sistemática de símios por desporto. Os símios estariam sem dúvida bem melhor sem nós. Têm azar cósmico, tal como nós teríamos se algum dos pesadelos acima se tornasse realidade. E tal como no nosso caso lutaríamos para ter os efeitos nocivos de tal azar invertidos — usando argumentação moral sólida como nossa justificação — assim também deveríamos reconhecer que não deve passar despercebido o azar dos símios em ter seres humanos com quem rivalizar. Numa palavra, devemos deixar de os oprimir. Devemos garantir-lhes os direitos que a sua natureza intrínseca exige, e não apenas aquiescer aos abusos de poder resultantes da nossa casual supremacia biológica. Aqueles que estão nas jaulas ou nas mesas de vivissecção poderíamos ter sido nós: e é uma certeza inabalável que não iríamos ter gostado disso, nem um pouco. Em suma, a moralidade não deve ser ditada pela sorte.

Seja-me permitido terminar com uma ideia para um argumento cinematográfico. Estamos a dois milhões de anos no futuro e o tempo não foi favorável para a espécie humana. A inteligência humana atingiu um nível estável no século XXI quando as limitações fisiológicas de dar à luz impediram as cabeças das crianças de se tornarem maiores. Igualmente por infortúnio, as doenças do mundo moderno — físicas e psicológicas — não foram vencidas, ficando os seres humanos em geral uma espécie débil e neurótica. A poluição, o sobreaquecimento, o crime e a pressão fizeram dos humanos uma espécie fraca e enervada. Porém, os símios gozaram de um progresso constante. Os seus lóbulos frontais têm estado sempre em expansão, estão aptos e robustos, e desde há muito que se soltaram dos grilhões humanos. Têm todos os adereços da civilização. De facto, agora o status quo foi invertido: os humanos estão agora vulneráveis aos seus caprichos. Sem olhar a meios, alguns dos gorilas mais inescrupulosos — aqueles com casas vistosas e jactos privados — iniciaram o negócio de venda de espécimes humanos para vários fins. Alguns vão para experimentações médicas concebidas para beneficiar os símios, outros para matadouros, os poucos que têm sorte tornam-se animais de estimação, porém outros são vendidos para prostituição interespécies. Até então tudo isto é ilegal, feito no mercado negro, e é oficialmente desaprovado pelo governo dos símios. Mas, dado o estado vulnerável de tantos humanos, é fácil de perpetrar. O grande problema para os empresários símios é conseguirem a aceitação e legalização do comércio de seres humanos de forma a não terem de operar fora da lei. Existe este incómodo grupo de pressão símio que desaprova a subjugação humana nestes modos e, claro, os próprios seres humanos não estão entusiasmados com a situação. Os duvidosos negociantes símios estão a tentar corromper alguns altos oficiais para que aceitem uma lei a autorizar o que agora é feito apenas ilegalmente. Felizmente, a propaganda é muito fácil, dado o que todos os símios sabem acerca do seu tratamento nas mãos dos seres humanos durante tantos séculos — está aí nos livros de história. É bem feito, não é? Parece que vão conseguir institucionalizar a exploração de seres humanos, a não ser que uma corajosa aliança entre bons símios e seres humanos desesperados consiga impedi-los...

Muito bem, a minha questão é a seguinte. Suponha-se que esta história se tornou realidade: não seria melhor poder dizer aos símios, que no geral são uma espécie decente e amigável, que parámos voluntariamente de os explorar na última década do XX? Nós entendemos a incorrecção da nossa conduta; então, por que haveriam eles de repetir os nossos erros anteriores? Não fomos simplesmente forçados, pela sua ascendência biológica e pelo nosso declínio, a conceder-lhes direitos em, digamos, meados do século mil após uma guerra sangrenta; fizemo-lo simplesmente por uma questão de princípio moral, bem antes de sermos obrigados a fazê-lo. Poderíamos assim apelar para o sentido moral deles citando o nosso próprio exemplo moral anterior. Teríamos uma resposta para os símios mais cínicos que insistiam que foi apenas “azar” nosso que eles tenham assumido agora a posição mais poderosa. Eu, pelo menos, gostaria de pensar que, se o meu argumento cinematográfico um dia vier a ocorrer, os nossos descendentes humanos terão alguma defesa moral para contrariar a sua exploração cruel nas mãos e mandíbulas de outras espécies. Se nós podemos fazê-lo, por que não podem eles?

Colin McGinn

Retirado de The Great Ape Project, org. Paola Cavalieri & Peter Singer (Nova Iorque: St. Martin's Griffin, 1993), pp. 146-151. Também disponível online.

Nota

  1. Para uma pequena mas substancial defesa desta tradução de “robot” veja-se Vítor Guerreiro, "Robotnik". (N. T.)
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