Dicionário de Filosofia
12 de Março de 2008 ⋅ Filosofia da mente

Sobreveniência

Thomas Mautner
Universidade Nacional da Austrália

A sobreveniência é uma relação de dependência entre propriedades em níveis diferentes, que não é lógica nem causal.

Em geral, se as propriedades subvenientes, as que se situam no nível inferior, são as mesmas, então as propriedades correlatas no nível superior, as sobrevenientes, não podem diferir. No entanto, não se pode definir as propriedades sobrevenientes em termos de propriedades subvenientes ou reduzi-las a estas de qualquer outro modo.

O conceito de sobreveniência foi primeiro articulado por G. E. Moore em "The Conception of Intrinsic Value", Philosophical Studies, 1922. Moore afirmou que o valor intrínseco sobrevém às propriedades naturais na medida em que 1) não é idêntico a qualquer propriedade natural e 2) duas coisas que tenham as mesmas propriedades naturais não podem ter valor intrínseco diferente.

Embora Moore não tenha usado "sobreveniência", a palavra foi usada neste sentido em Oxford na década de 1940 (por exemplo, por Ryle no seu artigo na Philosophy, 1946), e o seu uso tornou-se estabelecido com a obra de R. M. Hare The Language of Morals, 1952. Nesta perspectiva, as relações de sobreveniência aplicam-se em geral entre predicados descritivos e valorativos, embora não se possa definir os predicados valorativos exclusivamente em termos de predicados descritivos.

Mais tarde, Donald Davidson usou o conceito de sobreveniência para dar conta da relação entre acontecimentos mentais e físicos: "não pode haver dois acontecimentos semelhantes em todos os aspectos físicos mas diferentes em alguns aspectos mentais" ("Mental Events", Essays on Actions and Events, 1980).

Subsequentemente reconheceram-se diversas distinções. Jaegwon Kim, em "Concepts of Supervenience", Philosophy and Phenomenological Research 45 (1984-5), começou por distinguir dois tipos de sobreveniência, fraca e forte. S sobrevém fracamente em B ("B" para base) — isto significa que se duas coisas têm as mesmas propriedades B, têm de ter as mesmas propriedades S. Por exemplo, se a bondade moral de São Francisco sobrevém à posse de certas disposições, então qualquer outra pessoa que tenha as mesmas disposições será também moralmente boa. Mas num mundo possível que seja "moralmente morto" (isto é, onde não se apliquem quaisquer conceitos morais) poderia haver tais disposições sem que houvesse qualquer bondade moral. Isto não se verifica se S sobrevém fortemente em B. Nesse caso, se um indivíduo num mundo possível tem essas disposições e outro indivíduo noutro mundo possível também as tem, então ambos têm também a mesma propriedade sobreveniente da bondade moral. Fez-se neste sentido distinções adicionais entre conceitos de sobreveniência.

Os filósofos da última metade do século XX que se inclinam para o materialismo têm considerado úteis os conceitos de sobreveniência. As análises em termos de sobreveniência permitem admitir um leque de conceitos sem que se tenha de admitir a existência real de entidades imateriais ou domínios ontológicos sobrenaturais. Assim, categorias contrastantes como factos/valores, corpo/mente, indivíduos/colectivos e outras, são vistas como pares subveniente/sobreveniente de domínios conceptuais.

Thomas Mautner

Retirado de Dicionário de Filosofia, dir. de Thomas Mautner (Lisboa: Edições 70, 2010)
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