Mona Lisa, de Victor Cauduro Rojas
Guia das falácias

Fugir ao assunto

Stephen Downes
Universidade de Alberta

As falácias desta secção fogem ao assunto, discutindo a pessoa que avançou um argumento em vez de discutir razões para aceitar ou não aceitar a conclusão. Em algumas ocasiões é aceitável citar autoridades, (por exemplo, citar o médico para justificar o uso de um medicamento) quase nunca é apropriado discutir a pessoa em vez dos seus argumentos.

Ataques pessoais (argumentum ad hominem)

Ataca-se pessoa que apresentou um argumento e não o argumento que apresentou. A falácia ad hominem assume muitas formas. Ataca, por exemplo, o carácter, a nacionalidade, a raça ou a religião da pessoa. Em outros casos, a falácia sugere que a pessoa, por ter algo tem algo a ganhar com o argumento, é movida pelo interesse. A pessoa pode ainda ser atacada por associação ou pelas suas companhias.

Há três formas maiores da falácia ad hominem:

  1. Ad hominem (abusivo): em vez de atacar uma afirmação, o argumento ataca pessoa que a proferiu.
  2. Ad hominem (circunstancial): em vez de atacar uma afirmação, o autor aponta para as circunstâncias em que a pessoa que a fez e as suas circunstâncias.
  3. Tu quoque: esta forma de ataque à pessoa consiste em fazer notar que a pessoa não pratica o que diz.

Exemplos:

  1. Podes dizer que Deus não existe mas estás apenas a seguir a moda (ad hominem abusivo).
  2. É natural que o ministro diga que essa política fiscal é boa porque ele não será atingido por ela (ad hominem circunstancial).
  3. Podemos passar por alto as afirmações de Simplício porque ele é patrocinado pela indústria da madeira (ad hominem circunstancial).
  4. Dizes que eu não devo beber, mas não estás sóbrio faz mais de um ano (tu quoque).

Prova: Identifique o ataque e mostre que o carácter ou as circunstâncias da pessoa nada tem a ver com a verdade ou falsidade da proposição defendida.

Referências: Barker: 166; Cedarblom e Paulsen: 155; Copi e Cohen: 97; Davis: 80.

Apelo à autoridade (argumentum ad verecundiam)

Ainda que às vezes seja apropriado citar uma autoridade para suportar uma opinião, a maioria das vezes não o é. O apelo à autoridade é especialmente impróprio se:

  1. A pessoa não está qualificada para ter uma opinião de perito no assunto.
  2. Não há acordo entre os peritos do campo em questão.
  3. A autoridade não pode, por algum motivo ser levada a sério — porque estava brincar, estava ébria ou por qualquer outro motivo.

Uma variante da falácia do apelo à autoridade é o "ouvi dizer" ou "diz-se que". Um argumento por "ouvir dizer" é um argumento que depende de fontes em segunda ou terceira mão.

Exemplos:

  1. O famoso psicólogo Dr. Frasier Crane recomenda-lhe que compre o último modelo de carro da Skoda.
  2. O economista John Kenneth Galbraith defende que uma apertada política económica é a melhor cura para a recessão. (Apesar de Galbraith ser um perito, nem todos os economistas estão de acordo nesta questão.)
  3. Encaminhamo-nos para uma guerra nuclear. A semana passada Ronald Reagan disse que começaríamos a bombardear a Rússia em menos de cinco minutos. (Claro que o disse por piada ao testar o microfone.)
  4. Sousa disse que nunca perdoaria ao Pinto. (Trata-se de um caso de "ouvir dizer" — de facto ele apenas disse que Pinto nada tinha feito para ser perdoado.)

Prova: Mostre uma de duas coisas (ou ambas):

  1. A pessoa citada não é uma autoridade no campo em questão;
  2. Entre os especialistas não há consenso sobre o assunto discutido.
Referências: Cedarblom and Paulsen: 155; Copi e Cohen: 95; Davis: 69.

Autoridade anónima

A autoridade em questão não é nomeada. Isto é uma forma de apelo à autoridade porque quando a autoridade não é nomeada é impossível confirmar se se trata de um perito. Esta falácia é tão comum que merece uma menção especial. Uma variante desta falácia é o apelo ao rumor. Como a fonte do rumor é, em regra, desconhecida, não é possível verificar se o rumor merece crédito. Rumores falsos e caluniosos são lançados muitas vezes intencionalmente com o objectivo de desacreditar o oponente.

Exemplos:

  1. Um membro do governo disse que uma nova lei sobre posse e uso de armas será proposta amanhã.
  2. Os peritos dizem que a melhor maneira de prevenir uma guerra nuclear é estar preparado para ela.
  3. Sabe-se que milhares de operações desnecessárias são realizadas todos os anos.
  4. Diz-se que o primeiro-ministro vai decretar outro feriado antes das eleições.

Prova: Argumente que pelo facto de não conhecermos a fonte e a base da informação, não temos maneira de avaliar a fiabilidade da informação.

Referências: Davis: 73.

Estilo sem substância

Pretende-se que o modo como o argumento ou o argumentador se apresentam contribui para a verdade da conclusão.

Exemplos:

  1. Nixon perdeu o debate presidencial porque tinha suor na testa.
  2. Trudeau sabe dirigir as massas. Ele deve ter razão.
  3. Por que não aceitas o conselho daquele jovem elegante e bem parecido?

Prova: É um facto que o modo como o argumento é apresentado, influencia a crença das pessoas na verdade da conclusão. Mas a verdade da conclusão não depende do modo como o argumento é apresentado. Para mostrar que esta falácia está a ser cometida, mostre que, neste caso, o estilo não afecta a verdade ou a falsidade da conclusão.

Referências: Davis: 61.

Stephen Downes

Tradução e adaptação de Júlio Sameiro