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14 de Janeiro de 2016   Ética

Os valores são subjectivos

Bertrand Russell
Tradução de Pedro Galvão

As questões sobre “valores” — isto é, sobre o que é bom ou mau em si mesmo, independentemente dos seus efeitos — estão fora do domínio da ciência, como os defensores da religião afirmam veementemente. Eu penso que nisto têm razão, mas retiro outra conclusão que eles não retiram — a de que as questões sobre “valores” estão completamente fora do domínio do conhecimento. Por outras palavras, quando afirmamos que isto ou aquilo tem “valor”, estamos a exprimir as nossas emoções, e não a indicar algo que seria verdadeiro mesmo que os nossos sentimentos pessoais fossem diferentes.

[…] Qualquer tentativa de persuadir as pessoas de que algo é bom (ou mau) em si mesmo, e não apenas por causa dos seus efeitos, depende não de qualquer recurso a provas, mas da arte de suscitar sentimentos. O talento do pregador consiste sempre em criar nos outros emoções semelhantes às suas — ou diferentes, se ele for hipócrita. Ao dizer isto não estou a criticar o pregador, mas a analisar o carácter essencial da sua actividade.

Ética no Mundo Real
Tradução de Desidério Murcho
Já à venda

Quando um homem diz “Isto é bom em si mesmo” parece estar a exprimir uma proposição, tal como se tivesse dito “Isto é um quadrado” ou “Isto é doce”. Julgo que isto é um erro. Penso que aquilo que o homem quer realmente dizer é “Quero que toda a gente deseje isto”, ou melhor, “Quem me dera que toda a gente desejasse isto.” Se aquilo que ele diz for interpretado como uma proposição, esta é apenas sobre o seu desejo pessoal. Se for antes interpretado num sentido geral, não afirma nada, exprimindo apenas um desejo. O desejo, enquanto acontecimento, é pessoal, mas o que se deseja é universal. Penso que foi este curioso entrelaçamento entre o particular e o universal que provocou tanta confusão na ética.

[…] Se esta análise está correcta, a ética não contém quaisquer proposições, sejam elas verdadeiras ou falsas, consistindo em desejos gerais de uma certa espécie, nomeadamente naqueles que dizem respeito aos desejos da humanidade em geral — e dos deuses, dos anjos e dos demónios, se eles existirem. A ciência pode discutir as causas dos desejos e o meios para os realizar, mas não contém quaisquer frases genuinamente éticas, pois esta diz respeito ao que é verdadeiro ou falso.

A teoria que estou a defender é uma forma daquela que é conhecida por doutrina da “subjectividade” dos valores. Esta doutrina consiste em sustentar que, se dois homens discordam quanto a valores, há uma diferença de gosto, mas não um desacordo quanto a qualquer género de verdade. Quando um homem diz “As ostras são boas” e outro diz “Eu acho que são más”, reconhecemos que não há nada para discutir. A teoria em questão sustenta que todas as divergências de valores são deste género, embora pensemos naturalmente que o não são quando estamos a lidar com questões que nos parecem mais importantes que a das ostras. A razão principal para adoptar esta perspectiva é a completa impossibilidade de encontrar quaisquer argumentos que provem que isto ou aquilo tem valor intrínseco. Se estivéssemos de acordo a este respeito, poderíamos defender que conhecemos os valores por intuição. Não podemos provar a um daltónico que a relva é verde e não vermelha, mas há várias maneiras de lhe provar que ele não tem um poder de discriminação que a maior parte dos homens possui. No entanto, no caso dos valores não há qualquer maneira de fazer isso, e aí os desacordos são muito mais frequentes que no caso das cores. Como não se pode sequer imaginar uma maneira de resolver uma divergência a respeito de valores, temos que chegar à conclusão que a divergência é apenas de gostos e não se dá ao nível de qualquer verdade objectiva.

Bertrand Russell

Retirado de Religião e Ciência (1935)

Perguntas

  1. Como entende Russell os debates acerca de questões de valor?
  2. Segundo Russell, foi um “curioso entrelaçamento entre o particular e o universal que provocou tanta confusão na ética”. O que quer isto dizer?
  3. Que argumento apresenta Russell a favor do subjectivismo?
  4. Concordas com o argumento de Russell? Porquê?