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História da filosofia

Esclarecer argumentos

História Concisa da Filosofia Ocidental
de Anthony Kenny
Tradução de Desidério Murcho, Fernando Martinho, Maria José Figueiredo, Pedro Santos e Rui Cabral
Revisão Científica de Desidério Murcho
Temas & Debates, Outubro 1999, 460 pp.

Ao invés de se limitar a apresentar paráfrases e citações de filósofos, o autor procura esclarecer os argumentos que conduziram os grandes pensadores e filósofos, de Pitágoras a Wittgenstein, às posições que defenderam. É assim que, sem esquecer o contexto histórico, esta obra permite ao leitor tomar o gosto pela actividade própria da filosofia: apreciar a subtileza de doutrinas, a correcção de argumentos, a pertinência de problemas. É dada também especial atenção a alguns períodos e escolas normalmente ignorados nas histórias da filosofia até aqui disponíveis. Uma obra fundamental, que vem preencher uma grande lacuna no panorama editorial nacional.

Sem rival em abrangência e rigor, esta História Concisa da Filosofia Ocidental destina-se a todos quantos se interessam pelo pensamento ocidental, particularmente aos estudantes e professores de filosofia.

Sobre o autor

Anthony Kenny é um dos mais respeitados filósofos e historiadores da filosofia. Professor de Filosofia no Balliol College de Oxford, foi seu Presidente durante 12 anos. Presidiu igualmente à Academia Britânica. Actualmente, é Presidente da Fundação Rhodes de Oxford. É autor, entre outras obras, de Action, Emotions and the Will (1963), Descartes (1968), The Five Ways (1969), Wittgenstein (1973), Will, Freedom and Power (1975), The Aristotelian Ethics (1978), Freewill and Responsibility (1978), Aristotle's Theory of the Will (1979), Aquinas (1980), Thomas More (1983), The Legacy of Wittgenstein (1984), The Logic of Deterrence (1985), The Metaphysics of Mind (1989), Aristotle on Perfect Life (1992), What is Faith? (1992), Aquinas on Mind (1993) e Frege (1995).

Excerto

Aristóteles contribuiu para o desenvolvimento de muitas ciências, mas, em retrospectiva, percebe-se que o valor desse contributo foi bastante desigual. A sua química e a sua física são muito menos impressionantes do que as suas investigações no domínio das ciências da vida. Em parte porque não possuía relógios precisos nem qualquer tipo de termómetro, Aristóteles não tinha consciência da importância da medição da velocidade e da temperatura. Ao passo que os seus escritos zoológicos continuavam a ser considerados impressionantes pelo próprio Darwin, a sua física estava já ultrapassada no século vi d. C.

Em obras como Da Geração e Corrupção e Do Céu, Aristóteles legou aos seus sucessores uma imagem do mundo que incluía muitos traços herdados dos seus predecessores pré-socráticos. Adoptou os quatro elementos de Empédocles: terra, água, ar e fogo, caracterizado cada um deles por um único par de qualidades primárias, calor, frio, humidade e secura. Cada elemento tinha o seu lugar natural no cosmos ordenado, em direcção ao qual tinha tendência para ir por meio de um movimento característico; assim, os sólidos terrestres caíam, enquanto o fogo se erguia cada vez mais alto. Cada um desses movimentos era natural ao seu elemento; existiam outros, mas eram “violentos”. (Mantemos hoje um vestígio desta distinção aristotélica quando contrastamos a “morte natural” com a “morte violenta”.) A Terra ocupava o centro do universo: em seu torno, uma sucessão de esferas cristalinas concêntricas sustentavam a Lua, o Sol e os planetas nas suas viagens ao longo dos céus. Mais distante, uma outra esfera sustentava as estrelas fixas. Os corpos celestes não continham os quatro elementos terrestres; eram antes constituídos por um quinto elemento, ou quintessência. Além de corpos, possuíam almas: intelectos vivos divinos que guiavam as suas viagens ao longo do céu. Estes intelectos eram responsáveis pelo movimento, estando eles próprios em movimento, e por detrás deles, afirmava Aristóteles, deveria existir uma fonte de movimento, estando ela própria, no entanto, imóvel. Era a divindade última e imutável que punha em movimento todos os outros seres “em resultado do amor” — o mesmo amor que, nas últimas palavras do Paraíso de Dante, movia o Sol e as primeiras estrelas.

Mesmo o melhor dos estudos científicos de Aristóteles possui hoje um interesse meramente histórico; em vez de registar as suas teorias em pormenor, passarei a descrever a noção de ciência que sustenta todas as suas investigações nos diversos domínios. A concepção aristotélica de ciência pode ser resumida se dissermos que era empírica, explicativa e teleológica.

A ciência começa pela observação. No decurso das nossas vidas apercebemo-nos das coisas com os nossos sentidos, recordamo-las, construímos um corpo de experiências. Os nossos conceitos são retirados da nossa experiência; na ciência, a observação tem primazia sobre a teoria. Embora, no seu estado de maturidade, se possa fixar e transmitir a ciência por meio da forma axiomática descrita nos Analíticos Posteriores, torna-se evidente, pelos trabalhos pormenorizados de Aristóteles, que a ordem da descoberta é diferente da ordem da exposição.

Se a ciência começa com a percepção sensorial, termina com o conhecimento intelectual, que Aristóteles vê como possuindo um carácter especial de necessidade. As verdades necessárias são como as verdades imutáveis da aritmética: dois mais dois são quatro, sempre assim foi e sempre assim será. Opõem-se-lhes as verdades contingentes, tais como a verdade de os gregos terem vencido uma grande batalha naval em Salamina; algo que poderia ter acontecido de outro modo. Parece estranho afirmar, como Aristóteles, que aquilo que é conhecido tem de ser necessário: não será que podemos ter também conhecimento de factos contingentes da experiência, tais como o de Sócrates ter bebido a cicuta? Houve quem julgasse que Aristóteles estava a argumentar, falaciosamente, partindo da verdade

Necessariamente, se p é conhecida, p é verdadeira.

para

Se p é conhecida, p é necessariamente verdadeira.

o que não é de modo algum a mesma coisa. (É uma verdade necessária que se eu sei que há uma mosca na minha sopa, há uma mosca na minha sopa. Mas, mesmo que eu saiba que há uma mosca na minha sopa, não é necessariamente verdade que haja uma mosca na minha sopa: posso tirá-la de lá.) Mas talvez Aristóteles estivesse a definir a palavra grega para “conhecimento” de modo a restringir-se ao conhecimento científico. É uma hipótese muito mais plausível, especialmente se levarmos em linha de conta que, para Aristóteles, as verdades necessárias não se restringem às verdades da lógica e da matemática, mas incluem todas as proposições universalmente verdadeiras, ou mesmo “verdadeiras na sua maior parte”. Mas a consequência — que seria certamente aceite por Aristóteles — de que a história não pode ser uma ciência, já que lida com acontecimentos individuais, mantém-se.

A ciência é, pois, empírica; é também explicativa, no sentido em que é uma procura de causas. No léxico filosófico incluído na sua Metafísica, Aristóteles distingue quatro tipos de causas ou explicações. Em primeiro lugar, afirma, há aquilo de que as coisas são feitas, e a partir da qual são feitas, tal como o bronze de uma estátua ou as letras de uma sílaba. A isto chama causa material. Depois, há a forma e o padrão de uma coisa, que podem ser expressos na definição da mesma; Aristóteles fornece-nos um exemplo: o comprimento proporcional de duas cordas de uma lira é a causa de uma ser a oitava da outra. O terceiro tipo de causa é a origem de uma mudança ou estado de repouso em qualquer coisa: Aristóteles dá como exemplos uma pessoa que toma uma decisão, um pai que gera uma criança, e em geral todos os que fazem ou alteram uma coisa. O quarto e último tipo de causa é o fim ou objectivo, aquilo em virtude do qual se faz algo; é o tipo de explicação que damos quando nos perguntam por que motivo estamos a passear e nós respondemos “para manter a boa forma”.

O quarto tipo de causa (a “causa final”) tem um papel muito importante na ciência aristotélica. Aristóteles investiga as causas finais não só da acção humana, como também do comportamento animal (“Por que razão tecem as aranhas teias?”) e dos seus traços estruturais (“Por que razão têm os patos membranas interdigitais?”). Existem causas finais também para a actividade das plantas (tais como a pressão descendente das raízes) e dos elementos inanimados (tais como o impulso ascendente das chamas). Às explicações deste tipo chamamos “teleológicas”, a partir da palavra grega telos, que significa fim ou causa final. Ao procurar explicações teleológicas, Aristóteles não atribui intenções a objectos inconscientes ou inanimados, nem está a pensar em termos de um Arquitecto Supremo. Está, sim, a enfatizar a função de diversas actividades e estruturas. Uma vez mais, estava mais inspirado na área das ciências da vida do que na química e na física. Até mesmo os biólogos posteriores a Darwin continuam a procurar incessantemente a função, ao passo que ninguém, depois de Newton, se lembrou de procurar uma explicação teleológica para o movimento dos corpos inanimados.

Índice

Prefácio
Agradecimentos

1 Na infância da filosofia

Os Milésios   Xenófanes   Heraclito   A Escola de Parménides   Empédocles   Os Atomistas

2 A Atenas de Sócrates

O Império Ateniense   Anaxágoras   Os Sofistas   Sócrates   Eutífron   Críton   Fédon

3 A filosofia de Platão

Vida e Obra   A Teoria das Ideias   A República de Platão   O Teeteto e o Sofista

4 O sistema de Aristóteles

Discípulo de Platão, Mestre de Alexandre   A Fundação da Lógica   A Teoria da Arte Dramática   Filosofia Moral: Virtude e Felicidade   Filosofia Moral: Sabedoria e Entendimento   Política   Ciência e Explicação   Palavras e Coisas   Movimento e Mudança   Alma, Sentidos e Intelecto   Metafísica

5 A filosofia grega depois de Aristóteles

A Era Helenística   Epicurismo   Estoicismo   Cepticismo   Roma e o seu Império   Jesus de Nazaré   Cristianismo e Gnosticismo   Neoplatonismo

6 A filosofia cristã primitiva

Arianismo e Ortodoxia   A Teologia da Incarnação   A Vida de Agostinho   A Cidade de Deus e o Mistério da Graça   Boécio e Filópono

7 A filosofia medieval primitiva

João Escoto Erígena   Alkindi e Avicena   O Sistema Feudal   Santo Anselmo   Abelardo e Heloísa   A Lógica de Abelardo   A Ética de Abelardo   Averróis   Maimónides

8 Filosofia no século XIII

Uma Era de Inovação   S. Boaventura   A Lógica do Século XIII   Vida e Obra de Tomás de Aquino   A Teologia Natural de Tomás de Aquino   Matéria, Forma, Substância e Acidente   Essência e Existência em Tomás de Aquino   A Filosofia da Mente de Tomás de Aquino   A Filosofia Moral de Tomás de Aquino

9 Os filósofos de Oxford

A Universidade do Século XIV   Duns Escoto   A Lógica da Linguagem de Ockham   A Teoria Política de Ockham   Os Calculadores de Oxford   John Wyclif

10 A filosofia do Renascimento

O Renascimento   O Livre-Arbítrio: Roma versus Lovaina   O Platonismo do Renascimento   Maquiavel   A Utopia de More   A Reforma   A Filosofia do Período Pós-Reforma   Bruno e Galileu   Francis Bacon

11 A era de Descartes

As Guerras Religiosas   A Vida de Descartes   A Dúvida e o Cogito   A Essência da Mente   Deus, Mente e Corpo   O Mundo Material

12 A filosofia inglesa no século XVII

O Empirismo de Thomas Hobbes   A Filosofia Política de Hobbes   A Teoria Política de John Locke   Locke, Ideias e Qualidades   Substâncias e Pessoas

13 A filosofia do continente na época de Luís XIV

Blaise Pascal   Espinosa e Malebranche   Leibniz

14 A filosofia britânica no século XVIII

Berkeley   Hume e a Filosofia da Mente   Hume e a Causalidade   Reid e o Senso Comum

15 O iluminismo

Os Philosophes   Rousseau   Revolução e Romantismo

16 A filosofia crítica de Kant

A Revolução Copernicana de Kant   A Estética Transcendental   A Analítica Transcendental: A Dedução das Categorias   A Analítica Transcendental: O Sistema dos Princípios   A Dialéctica Transcendental: Os Paralogismos da Razão Pura   A Dialéctica Transcendental: As Antinomias da Razão Pura   A Dialéctica Transcendental: Crítica da Teologia Natural   A Filosofia Moral de Kant

17 O idealismo e o materialismo alemães

Fichte   Hegel   Marx e os Jovens Hegelianos   O Capitalismo e os seus Descontentes

18 Os utilitaristas

Jeremy Bentham   O Utilitarismo de J. S. Mill   A Lógica de Mill

19 Três filósofos do século XIX

Schopenhauer   Kierkegaard   Nietzsche <

20 Três mestres modernos

Charles Darwin   John Henry Newman   Sigmund Freud

21 A Lógica e os fundamentos da Matemática

A Lógica de Frege   O Logicismo de Frege   A Filosofia da Lógica de Frege   O Paradoxo de Russell   A Teoria das Descrições de Russell   Análise Lógica

22 A filosofia de Wittgenstein

Tractatus Logico-Philosophicus   O Positivismo Lógico   As Investigações Filosóficas de Wittgenstein

Posfácio
Sugestões de leitura complementar
Índice analítico