A Última Palavra, de Thomas Nagel
26 de Agosto de 2008 ⋅ Opinião

A última palavra

Desidério Murcho
Universidade Federal de Ouro Preto

A ideia de que a verdade, a racionalidade e a realidade são “meras construções humanas” foi definitivamente refutada vezes sem conta ao longo da história da filosofia, e por vezes magistralmente. Uma das mais elegantes e recentes é A Última Palavra (Gradiva, 1999), de Thomas Nagel. Este importante filósofo norte-americano, nascido na antiga Jugoslávia, sublinha um aspecto comum a muitos desses ataques irracionalistas, aspecto que muitas vezes passa despercebido. Trata-se do aspecto que dá título ao livro e pode resumir-se na seguinte proposição: os ataques à verdade, à racionalidade e à realidade são de facto tentativas de ter a última palavra para dizer que ninguém pode ter a última palavra.

Uma confusão constante em quem aceita que a verdade, a racionalidade e a realidade são ficções humanas é pensar que é possível sair de todo o nosso sistema de crenças para declará-las a todas “meras construções”. Devia ser óbvio que se tudo o que pensamos é uma mera construção, também essa mesma ideia é uma mera construção. Só que ao defender tal coisa as pessoas não se apercebem tipicamente de que estão a tentar ter a última palavra, saindo de todo o nosso sistema de representações para declarar que tal sistema é inevitavelmente paroquial.

Ironicamente, algumas das nobres motivações que levam as pessoas a sustentar tais ideias exigem que não as aceitemos. Uma dessas motivações é a defesa da tolerância e a rejeição do dogmatismo. Mas ao pensar outra vez vê-se que a melhor motivação para defender a tolerância e rejeitar o dogmatismo é a convicção de que somos falíveis e portanto podemos estar errados quando pensamos seja o que for. É precisamente porque podemos estar errados que temos de estudar as coisas cuidadosamente, avaliando as nossas ideias mais básicas. Se a verdade e o conhecimento fossem meras construções, não teríamos de nos dar a esse trabalho, pois seria verdade fosse o que fosse que desejássemos pensar. Precisamente porque os romances são puras construções humanas, um romancista não se pode enganar quando decide que o oceano do planeta que acabou de inventar é lilás. Mas quando pensamos que os negros são inferiores, ou que as mulheres não devem ter direitos políticos iguais aos dos homens, ou que a Terra está imóvel no centro do universo, podemos estar errados precisamente porque a verdade e o conhecimento não são meras construções humanas.

É talvez difícil de compreender que não há uma última palavra, tal como não há um último número. Tudo o que eu disse até agora implica que tudo o que eu disse até agora pode ser falso, por mais que eu pense que é verdade. E é isto que algumas pessoas parecem ter dificuldade em aceitar: a nossa falibilidade. Querem certezas, dogmas, garantias, métodos mecânicos que garantam a verdade, receitas que possam aplicar com segurança. Lamento dar más notícias, mas não há nada disso e nem sabemos se é verdade que nada disso há. Tudo o que podemos fazer é pensar cuidadosamente, e depois pensar outra vez.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (26 de Agosto de 2008)
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