Kant: A Biography, de Manfred Kuehn
19 de Julho de 2004 ⋅ História da filosofia

A vida de Kant: mito e verdade

Desidério Murcho
Kant: A Biography, de Manfred Kuehn
Cambridge: Cambridge University Press, 2002, 566 pp., £19.99
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"A vida de Kant não tem história: viveu uma vida mecânica, escrava do seu racionalismo desumano, sem emoções nem paixão, dedicada às grandes abstracções da filosofia, sem contacto com a vida real. Os habitantes de Königsberg (actual Kaliningrado) regulavam os seus relógios pela pontualidade dos seus passeios." Esta é a imagem que o público tem da vida de Kant. Contudo, nenhuma dessas afirmações é verdadeira. Kant foi um homem impulsivo e apaixonado, cheio de sentido de humor, e que convivia intensamente com o seu círculo de amigos, privando igualmente bem com nobres e comuns. Nascido a 22 de Abril de 1724, Kant viria a morrer no dia 12 de Fevereiro de 1804. Nos últimos anos de vida, perdeu quase todas as suas faculdades mentais, tinha dificuldade em reconhecer pessoas e perdeu toda a independência. Teve uma morte tranquila, mas os últimos tempos da sua vida foram tristes e humilhantes, para um homem que se destacou desde cedo pelo poder incisivo do seu intelecto. A sua vida foi pautada pela bonomia e pelo gosto de viver; fez inúmeros amigos ao longo da vida — e também inimigos, quando começou a tornar-se famoso. Mas nunca houve da sua parte um gesto reprovável ou uma falta moral grave. Quando se retractou perante o rei Frederico Guilherme II, fez o que não podia deixar de fazer naquelas circunstâncias — mas deixou claro que se tratava de prometer algo àquele rei em particular. Quando o rei morreu, continuou a publicar os materiais sobre religião que Frederico Guilherme II proibira.

Um dos mitos sobre a filosofia de Kant diz respeito à pretensa influência que o pietismo, a religião dos seus pais e dominante no reino, terá exercido na sua filosofia moral. Na realidade, Kant não gostava do pietismo, que era uma forma de fundamentalismo cristão, e procurou neutralizar o controlo que os seus membros exerciam na universidade. O que Kant bebeu dos seus pais foi a honradez e o respeito pelas pessoas, como ele próprio viria a declarar. O seu nome era Emanuel, mas mudou-o para Immanuel, por ser mais próximo do hebraico, que significa "Deus está com ele". O seu pai, Johann Georg, era um mestre artesão: fazia arreios. O negócio nunca foi muito próspero, mas também não era miserável. Com a sua mãe, Anna Regina, e os seus irmãos e irmãs, Kant teve um ambiente familiar feliz, mas marcado pela tragédia da morte. A morte alheia, aliás, haveria de persegui-lo até ao fim dos seus dias, tendo perdido muitos dos seus amigos mais íntimos, e muitas vezes mais novos do que ele. Dos seus oito irmãos e irmãs, quatro morreram na infância.

Com apenas 1,57 m de altura, magro, de penetrantes olhos azuis e pele muito clara, Kant cedo se destacou como estudante. Foi apoiado por um tio, e pôde assim prosseguir os seus estudos. Contudo, detestou o colégio pietista, com os seus rigores absurdos e a ideia de que a aprendizagem era uma questão de repetitorium. Mostrou desde cedo uma grande liberdade de espírito e um grande sentido crítico. Sempre detestou mestres e quem os segue. A liberdade de pensamento crítico era para ele de primeira importância. Este é um dos aspectos que explica o desenvolvimento relativamente tardio do seu pensamento filosófico mais substancial. O outro... é que mal tinha tempo para desenvolver um pensamento substancial, entre as aulas que tinha de leccionar para ganhar dinheiro e o tempo que passava com os amigos em alegre camaradagem — suficientemente "alegre" para ter por vezes dificuldade em dar com a porta de casa, quando regressava.

Outro dos mitos sobre Kant é a ideia de que a Crítica da Razão Pura (1781) foi escrita em inspirada solidão. Na realidade, tratou-se de um longo processo de tentativa e erro, e, quando chegou à redacção definitiva do livro, foi muitíssimo influenciado e ajudado pelo seu amigo íntimo Green, um mercador inglês excêntrico que se estabeleceu em Königsberg. Green leu o manuscrito linha a linha, e discutiu com Kant todos os aspectos da obra. O mito da pontualidade e inflexibilidade deve-se, de facto, a Green. Por razões que hoje não é possível saber, as reuniões diárias em casa de Green terminavam pontualmente às 7:00, durante a semana, e às 9:00, aos domingos. Tendo uma vez combinado um passeio de carruagem com Kant a uma certa hora, Green arrancou tranquilamente sozinho porque o convidado se atrasou. Kant ainda correu, mas Green passou tranquilamente por ele e não parou. Green era um típico excêntrico inglês; mercador inteligente, tinha muitos interesses intelectuais e inventou a mania de viver segundo máximas. Kant achava graça à ideia e brincava com ele sobre isso. É verdade que esta ideia acabou por transitar para a filosofia moral de Kant, numa forma mais elaborada, e é também verdade que Kant começou a pouco e pouco a adoptar a ideia de viver segundo máximas, mas nunca com a excentricidade de Green, que a aplicava às coisas mais triviais da vida.

Kant tornou-se conhecido a pouco e pouco, tanto pela qualidade das suas aulas, pela afabilidade com os seus alunos e pelo empenho que colocava no ensino, como pelos pequenos ensaios que foi publicando. Esperou durante anos até conseguir um lugar na universidade de Königsberg. Tendo sido por duas vezes convidado para outras universidades (Halle e Jena), o que lhe teria valido excelente posição profissional e conforto económico, optou por não sair da sua cidade. Uma vez mais, o mito não se fez esperar: Kant era provinciano. A realidade é bem diferente. De saúde frágil, Kant tinha uma vida social preenchida na sua cidade natal; e sabia que mais cedo ou mais tarde a posição que ele queria na universidade acabaria por ficar vaga; além do mais, vivia confortavelmente, apesar de estar longe de ser rico. Se compreendermos que viajar no séc. XVIII era muito diferente de viajar hoje em dia, a opção de Kant parece acertada, e não fruto de provincianismo.

Kant nunca se casou e, tanto quanto se sabe, nunca teve relações sexuais. O mito não se fez esperar, mais uma vez: frio e demasiado racional, Kant não tinha paixão. Na verdade, Kant não se casou pelo mesmo motivo que muitos académicos até há relativamente pouco tempo não se casavam: por falta de dinheiro para sustentar uma família. Jocosamente, Kant comentava que quando o casamento lhe poderia dar proveito não tinha dinheiro e quando finalmente teve dinheiro já era demasiado velho para ter algum proveito.

A biografia de Manfred Kuehn oferece um tratamento académico da vida e obra de Kant, desfazendo mitos e repondo a verdade. A impressão que nos fica só pode ser que Kant teve uma vida plena de valor, recta e honesta, humana e simples. Duzentos anos depois da sua morte, ainda comove a indignidade dos seus últimos meses de vida.

Desidério Murcho
desiderio@ifac.ufop.br
Publicado no jornal Público (12 de Fevereiro de 2004).
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