Conditionals
15 de Fevereiro de 2012 ⋅ Filosofia da linguagem

Uma nova teoria das contrafactuais

Matheus Silva
Conditionals, de Michael Woods
Oxford: Oxford University Press, 2003, 2.a ed., 164 pp.
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Esta é uma obra póstuma: é um fragmento do que seria um dos capítulos de um livro sobre lógica filosófica em que Michael Woods trabalhava por ocasião de sua morte em Abril de 1993. O material foi transcrito por John Foster e editado por David Wiggins. O livro contém oito capítulos, seguidos de comentários de Dorothy Edgington, além de um obituário, um curriculum vitae e a bibliografia de Woods.

O capítulo 1 faz uma breve taxonomia de condicionais. Há diferentes tipos de frases condicionais. Uma condicional assertiva como “Se chover, Max não irá ao jogo” parece muito diferente de uma ordem condicional como “Se o paciente melhorar, troque as ataduras” ou uma pergunta condicional como “Se a Fernanda sair, irá ela ao supermercado?”. Podemos fazer distinções ainda mais apuradas e dividir condicionais assertivas entre dois tipos: indicativas como “Se chover, a rua ficará molhada” e “Se o Heverton estava na reunião, votou a favor da proposta” e subjuntivas (ou contrafactuais) como “Se tivesse chovido, a rua teria ficado molhada” e “Se o Heverton estivesse na reunião, teria votado a favor da proposta”. Woods adota a tese de Vic Dudman de que condicionais como “Se tivesse chovido, a rua teria ficado molhada”, cujos verbos da conseqüente estão conjugados no futuro do pretérito e têm a terminação “ia”, e que têm sido tradicionalmente classificadas como indicativas, devem ser classificadas como contrafactuais.

Woods está de acordo com a suposição geralmente aceita de que há razões para distinguir as condicionais assertivas entre dois tipos, mas observa que as denominações “contrafactual” e “subjuntiva” são ligeiramente enganosas. As contrafactuais recebem a sua denominação por serem asseridas de modo adequado somente se o falante faz suposições contrárias aos fatos, ou, mais especificamente, somente se o falante que assere a contrafactual supõe que a sua antecedente é falsa. Mas nem todas as asserções de contrafactuais envolvem suposições contrárias aos fatos. Considere o seguinte exemplo de Anderson: o doutor examina os sintomas da paciente e diz “Se ela tivesse tomado arsênico, teria exatamente esses sintomas”. Essa contrafactual é asserida por um falante que supõe que a antecedente é verdadeira.

A denominação “condicional subjuntiva” também é enganosa, por sugerir que essas condicionais exibem uma forma gramatical ou sintática reconhecível em todas as línguas. Mas face à variação lingüística essa suposição não faz sentido. Em algumas línguas, como o dinamarquês, sequer há o modo subjuntivo e noutras, como o inglês, o modo subjuntivo é raramente utilizado. De qualquer modo, esses rótulos são necessários e não geram maiores problemas se tivermos em mente que apenas referem determinados exemplos de frases condicionais, sem maiores implicações teóricas.

Um problema associado a essa taxonomia é saber se as condicionais indicativas e contrafactuais têm as mesmas condições de verdade, apesar das diferenças gramaticais. A idéia de que as indicativas e as contrafactuais não têm as mesmas condições de verdade é denominada “tese do apartheid”. Woods apresenta alguns argumentos a favor dessa tese. O primeiro é que um indício favorável a uma condicional indicativa pode não ser favorável à sua correspondente contrafactual. A constatação de que alguém assassinou J. F. Kennedy é um indício forte a favor da indicativa “Se Oswald não assassinou J. F. Kennedy, outra pessoa o fez”. Mas a mesma constatação não nos leva a acreditar que “Se Oswald não tivesse assassinado J. F. Kennedy, outra pessoa o faria”. Outro argumento é que as orações que constituem uma condicional indicativa podem ser asseridas isoladamente, mas o mesmo não vale para as contrafactuais. Assim, tanto “Oswald não assassinou J. F. Kennedy” quanto “Outra pessoa o fez” podem ser asseridas isoladamente, mas “Oswald não tivesse assassinado J. F. Kennedy” e “Outra pessoa o faria” são ininteligíveis. Este último argumento leva Woods à conclusão de que as indicativas (que ele denomina condicionais simples) são condicionais por direito próprio, mas as contrafactuais resultam da aplicação de tempos verbais no passado e de auxiliares às condicionais simples. Desse modo, uma explicação das contrafactuais requer um esclarecimento prévio das condicionais simples.

Do capítulo 2 ao 7 são avaliadas diferentes teorias e problemas envolvendo as condicionais simples. O capítulo 2 faz uma breve apresentação de diferentes tentativas de explicar as condições de verdade das condicionais simples (as circunstâncias em que são verdadeiras ou falsas) e as suas condições de assertibilidade (as circunstâncias em que são asseridas correta ou incorretamente).

É uma característica das asserções em geral que uma proposição pode ser verdadeira e inasserível, se quem faz a asserção não acredita que seja verdadeira. Em relação às condicionais simples, contudo, parece haver uma diferença entre condições de verdade e assertibilidade, se as primeiras tiverem as mesmas condições de verdade da condicional material, que é falsa apenas se a sua antecedente for verdadeira e a sua conseqüente falsa. Desse modo, alguém pode acreditar que uma condicional material é verdadeira, ter razões adequadas para essa crença, mas considerar como inasseríveis as suas condicionais correspondentes em linguagem natural. Suponha que eu admita que as condicionais simples são materiais e que o João não irá sair de casa. Nessas circunstâncias, também sou obrigado a admitir que a condicional “Se o João sair de casa, ganhará a loteria” é verdadeira apenas porque a antecedente é falsa. Essa condicional, contudo, é asserida de modo inapropriado. Face a essa incompatibilidade entre condições de assertibilidade e condições de verdade foram propostas inúmeras respostas:

  1. Apesar das intuições contrárias, as condicionais simples têm o mesmo significado e as mesmas condições de verdade da condicional material, mas diferentes condições de assertibilidade (Paul Grice).
  2. As condicionais simples têm as mesmas condições de verdade da condicional material, mas não o mesmo significado (David Lewis, Frank Jackson).
  3. As condicionais simples são verdadeiras se a antecedente for verdadeira e a conseqüente verdadeira, falsas se a antecedente for verdadeira e a conseqüente falsa, mas não têm valores de verdade se a antecedente for falsa (von Wright).
  4. Uma condicional simples com a forma “se P então Q” é uma asserção metalingüística de que Q se segue de P, admitindo algumas suposições do contexto.
  5. Uma condicional simples não tem valores de verdade, mas apenas condições de assertibilidade (Ernest Adams, Allan Gibbard, Vic Dudman, John Mackie).

Particularmente interessante é a observação de que desde os finais da década de 1960 muito trabalho tem sido feito para desenvolver uma teoria das condições de assertibilidade, sobretudo a partir do teste de Ramsey. O teste consiste numa nota de rodapé do artigo “General Propositions and Causality” de Frank Ramsey. Ele diz que:

“Se duas pessoas estão discutindo “se P então Q?” e ambas estão em dúvida acerca de P, estão adicionando P hipoteticamente ao seu acervo de conhecimento e argumentando sobre essa base acerca de Q; de modo que em certo sentido “Se P, Q” e “Se P, não-Q” são contraditórias. Podemos dizer que elas estão fixando seus graus de crença em Q dado P. Se P se revelar falsa, esses graus de crença tornam-se vazios. Se cada parte acreditar com certeza em não-P, a questão deixa de ter significado para elas, exceto como uma questão acerca do que se segue de leis e hipóteses.”

A despeito de alguns problemas (a idéia bizarra de “acervo de conhecimento” faz mais sentido se for interpretada como sistema de crenças), é geralmente aceito que esta passagem capta uma intuição importante sobre as condições de assertibilidade das condicionais. A sua importância dificilmente pode ser sobrestimada. Jackson tentará captar essa intuição ao afirmar que “se P então Q” é asserível somente se o falante estiver disposto a asserir Q ao descobrir que P e Stalnaker irá desenvolver uma teoria de condições de verdade que seja o análogo ontológico deste teste: “se P então Q” será verdadeira se, e só se, no mundo possível mais similar ao mundo atual em que P é verdadeira, Q também é verdadeira.

O capítulo 3 apresenta as relações entre o teste de Ramsey e a teoria das condicionais proposta por Ernest Adams. O teste de Ramsey descreve alguém decidindo se deve ou não aceitar Q, depois de aceitar P e fazer revisões mínimas nas suas outras crenças. Um modo de explicar como essa revisão é feita é por meio da tese de Adams: a aceitabilidade de uma condicional “Se P então Q” é medida pela probabilidade condicional de Q dado P. Se aceitarmos essa tese e supusermos que a aceitabilidade de uma proposição não-condicional é medida pela sua probabilidade, algumas formas argumentativas que são válidas para condicionais materiais serão probabilisticamente inválidas, isto é, a improbabilidade da conclusão será maior do que a soma da improbabilidade das premissas. Algumas formas argumentativas que têm essa propriedade são a transitividade, o fortalecimento da antecedente e a contraposição. A tese de Adams, contudo, enfrenta contra-exemplos. Considere a condicional “Se um brasileiro é um criminoso condenado, é negro”. Sua probabilidade condicional é alta se considerarmos a estatística de crimes no Brasil, mas a condicional é inaceitável.

O capítulo 4 aborda as demonstrações de trivialidade de David Lewis. Usualmente, a aceitabilidade de uma proposição P é a probabilidade subjetiva de que P, ou seja, o grau em que alguém acredita que P seja verdadeira. A aceitabilidade da proposição “Choverá amanhã” equivale à probabilidade da verdade dessa proposição. Se aceitarmos que a aceitabilidade de uma condicional indicativa corresponde à sua probabilidade condicional, parece natural admitir que a aceitabilidade de uma condicional indicativa também é medida pela sua probabilidade de ser verdadeira. Isto nos leva à idéia de que a probabilidade da verdade de uma condicional seria equivalente à sua probabilidade condicional, isto é, Pr(se P então Q) = Pr(Q/P). Esse princípio, por vezes chamado de equação ou hipótese de Stalnaker, parece captar uma intuição importante acerca das condicionais.

Esta intuição, contudo, é um equívoco. Lewis demonstrou que não é possível atribuir de modo não trivial condições de verdade a “se P então Q” que tornem a probabilidade da sua verdade igual à probabilidade condicional de Q dado P. Se admitirmos que Prob(Se P então Q) = Prob(Q/P), segue-se a partir de suposições geralmente aceitas envolvendo o cálculo de probabilidades que Prob(Q/P) = Prob(Q). Isso significa que a probabilidade da conseqüente dada a antecedente de uma condicional seria a mesma que a probabilidade da conseqüente isoladamente. Mas isto é falso: a probabilidade de o fósforo acender caso seja riscado não é a mesma que a probabilidade do fósforo acender sem ser riscado.

Woods apresenta pelo menos três maneiras de interpretar este resultado da trivialidade:

  1. Mantendo a suposição plausível de que a probabilidade de uma proposição deve ser a sua probabilidade de ser verdadeira, mas negando que condicionais indicativas expressam proposições (Adams).
  2. Defendendo que condicionais são uma exceção à regra de que a assertibilidade de uma proposição é dada por meio da probabilidade de ser verdadeira. Desse modo, podemos atribuir condições de verdade a “Se P então Q” que difiram de suas condições de assertibilidade (Grice, Lewis, Jackson).
  3. Defendendo que uma condicional pode expressar uma proposição cuja probabilidade de ser verdadeira coincide com a probabilidade condicional relevante desde que as suas condições de verdade sejam relativas ao estado epistêmico de quem aceita a condicional em questão.

O capítulo termina com uma discussão das defesas pragmáticas da segunda opção propostas por Grice e Jackson.

O capítulo 5 apresenta as teorias de mundos possíveis propostas por David Lewis e Robert Stalnaker. O vocabulário básico da linguagem de mundos possíveis é simples: o mundo atual é o modo como as coisas são e um mundo possível é um modo como as coisas podem ser. Um mundo B está mais próximo do mundo atual do que um mundo C se for mais similar ao mundo atual do que um mundo C. Grosso modo, as teorias de mundos possíveis afirmam que uma contrafactual como “Se P fosse o caso, Q seria o caso” é verdadeira se, e somente se, Q é verdadeira no mundo mais próximo ao mundo atual em que P é verdadeira. Isto funciona da seguinte maneira: para determinar se uma contrafactual é verdadeira, consideramos os mundos em que, tanto quanto possível, tudo é como no mundo atual com exceção da verdade da antecedente.

Uma contrafactual como “Se os cangurus não tivessem caldas, tombariam” será verdadeira se em qualquer mundo possível em que os cangurus não têm caudas, e que se assemelha ao mundo atual com a única diferença de os cangurus não terem caudas, eles tombam. Repare que é impossível que tudo o mais seja exatamente como no mundo atual com exceção da verdade da antecedente, pois a diferença no valor de verdade da antecedente gera outras mudanças. De fato, no mundo mais similar ao mundo atual em que os cangurus não têm caudas estes têm de ter outras diferenças necessárias para a sobrevivência, como outro membro, por exemplo, e desse modo não tombariam e a contrafactual seria falsa.

Um aspecto interessante é que as contrafactuais com antecedentes necessariamente falsas ou conseqüentes necessariamente verdadeiras serão trivialmente verdadeiras, pois não há qualquer mundo possível em que suas antecedentes serão verdadeiras ou suas as conseqüentes falsas. Outro ponto digno de nota é que diferentemente de Lewis, Stalnaker aplica a sua teoria de mundos possíveis também a condicionais indicativas. O capítulo mostra ainda as diferenças entre as teorias de Lewis e Stalnaker, apresenta objeções a ambas, e explica as teorias de mundos possíveis propostas por Wayne Davis e Jonathan Bennett. Woods rejeita as teorias de mundos possíveis por serem insatisfatórias.

O capítulo 6 aborda o tema espinhoso das condicionais compostas: frases condicionais simples que ocorrem em contextos de encaixe e têm a proeza de serem ainda mais intratáveis do que as suas congêneres não encaixadas. Um exemplo é “Se o Lucas foi à festa, se o Alexandre foi à festa, então o Gregory foi à festa”. O desafio é explicar quando essas frases são verdadeiras e quando são asseridas corretamente. Woods defende que a explicação por meio da condicional material simplesmente não funciona nesses casos. Propõe como solução a tese da asserção condicional sem valores de verdade. Aceitar uma condicional “Se P então Q” é aceitar uma asserção condicional de Q dado P e não aceitar uma proposição condicional. Conseqüentemente, só devemos atribuir valores de verdade a P e Q e não à condicional. Esta explicação também enfrenta algumas dificuldades em contextos de encaixe, mas Woods usa uma estratégia tipicamente griciana para desarmar os contra-exemplos.

O capítulo 7 faz revisão de alguns argumentos de Edgington contra a tese de que as condicionais simples podem ter valores de verdade, além de reiterar e desenvolver a posição de Woods acerca das condicionais simples que foi apresentada no capítulo anterior. Uma condicional “se P então Q” não tem valor de verdade e é asserível se, e somente se, a probabilidade de Q dado P é alta relativamente ao estado epistêmico do falante.

Essa posição é familiar e foi defendida por autores como Ernest Adams e Anthony Appiah. Em certa medida, é uma hipótese elegante, pois torna as asserções condicionais similares a ordens condicionais e a perguntas condicionais. Do mesmo modo que “se P então Q” é utilizada para asserir Q sob a condição de que P, “se P, faça Q” dá uma ordem Q sob a suposição de que P, e “Se P, Q?” questiona se Q ocorre sob a suposição de que P. Assim uma asserção condicional como “Se o Paulo saiu, foi ao supermercado” é similar à ordem condicional “Se o Paulo saiu, diga-lhe para ir ao supermercado” e à pergunta condicional “Se o Paulo sair, vai ao supermercado?”.

O capítulo 8 expõe a teoria das contrafactuais proposta por Woods. As condicionais contrafactuais resultam da aplicação de tempos verbais no passado e de auxiliares na conseqüente de uma condicional simples. O acréscimo desses auxiliares equivale a encaixar as condicionais indicativas sob o âmbito de operadores temporais. Nesses casos, podemos identificar por meio do contexto uma proposição que é a razão que justificaria a asserção condicional. Contrafactuais-irá como “Se chover, o jogo será cancelado” dizem algo como “Os fatos são tais que fundamentam a asserção de que o jogo será cancelado, caso haja chuva”. Contrafactuais-iria como “Se tivesse chovido, o jogo teria sido cancelado” dizem algo como “Os fatos são tais que fundamentam a asserção de que o jogo seria cancelado, caso tivesse chovido”.

A contrafactual-irá “Se chover amanhã, o jogo será cancelado” é direcionada ao futuro e profere o mesmo que seria afirmado por alguém que asserisse amanhã a sua correspondente contrafactual-iria “Se chovesse agora, o jogo seria cancelado”. O que é reportado no presente por “irá” e no passado por “iria” é a presença de uma tendência ou disposição. Se for verdade que se chover, o jogo será cancelado, as coisas são dispostas de modo a garantir o cancelamento do jogo caso chova. Conseqüentemente, as contrafactuais serão diferentes das condicionais simples: têm valores de verdade.

A função do “irá” é objetivar e desrelativizar o juízo condicional: diferentemente de uma condicional simples, que será asserível se a probabilidade condicional for alta e subjetiva, a contrafactual-irá é asserível se, e somente se, a probabilidade condicional for alta e objetiva. Em outras palavras, a contrafactual-irá é asserível se for asserível de um ponto de vista epistêmico ideal. Como uma contrafactual-iria é apenas uma versão no passado da sua respectiva contrafactual-irá, uma contrafactual-iria é asserível se, e somente se, em algum momento do passado a sua respectiva contrafactual-irá foi asserível, de um ponto de vista epistêmico ideal, ciente de todos os fatos relevantes.

Uma das vantagens desta teoria é explicar facilmente os casos em que uma condicional simples é asserível, mas a sua correspondente contrafactual é inasserível. Para um falante que sabe que Kennedy foi assassinado por alguém, a seguinte condicional é asserível: “Se Oswald não assassinou Kennedy, outra pessoa o fez”. Mas a contrafactual “Se Kennedy não tivesse sido assassinado por Oswald, outra pessoa o teria feito” somente será asserível se em algum momento do passado a contrafactual “Se Oswald não assassinou Kennedy, outra pessoa o fará” foi asserível de um ponto de vista epistêmico ideal.

A teoria também parece funcionar nos casos em que a condicional simples é inasserível, mas a sua correspondente contrafactual é asserível. Suponha que ao considerar uma loteria eu diga “Se eu tinha o bilhete premiado, agora estou rico”. Como sei que não estou rico, a probabilidade condicional de estar rico dado que eu tenha o bilhete premiado será baixa (eu continuo sem um tostão no bolso) e em conseqüência a condicional é inasserível. A sua correspondente contrafactual, por outro lado, parece perfeitamente asserível: “Se eu tivesse o bilhete vencedor, agora estaria rico”. Isso porque a sua correspondente contrafactual com o auxiliar “irá” é asserível de um ponto de vista epistêmico ideal: “Se tenho o bilhete vencedor, ficarei rico”.

O livro termina com os comentários de Edgington, organizados na mesma ordem dos capítulos. Edgington acrescenta inúmeras elucidações que facilitam consideravelmente a compreensão dos tópicos discutidos. Alguns dos comentários mais interessantes estão relacionados com as motivações teóricas que historicamente tiveram influência na discussão sobre as condicionais como, por exemplo, o fato de a condicional material ser inadequada para representar condicionais contrafactuais e predicados disposicionais ter gerado um interesse por novos conectivos condicionais.

Edgington também discute de maneira minuciosa a posição de Woods e algumas das suas críticas são certeiras. Ela observa que na sua explicação das contrafactuais-irá, Woods parece estar indeciso entre duas teses: A) que uma contrafactual-irá requer que os fatos sejam tais que a antecedente garanta a verdade da conseqüente; B) que uma contrafactual-irá requer que os fatos sejam tais que a probabilidade objetiva da conseqüente dada a antecedente seja alta. As duas teses não são equivalentes, pois a probabilidade objetiva de Q dado P pode ser alta (a exigência de A é satisfeita), mas a contrafactual-irá correspondente pode ser falsa e desse modo a antecedente não irá garantir a verdade da conseqüente (a exigência de B não é satisfeita). Assim, apenas com a alta probabilidade condicional objetiva, Woods não garante que a contrafactual seja verdadeira.

Outras objeções não são tão bem-sucedidas. Edgington critica Woods por dar um papel importante às condições de assertibilidade e afirma que a assertibilidade “é uma noção perigosamente escorregadia” e “há ao menos quatro modos não equivalentes em que o termo tem sido utilizado”. Essas noções de assertibilidade são utilizadas por Dummett, Lewis, Grice e Jackson. Não é preciso muito esforço para compreender o problema deste argumento. Todos os autores citados concordam que as condições de assertibilidade determinam se uma proposição é asserida de modo correto ou incorreto, mas não há consenso acerca do que torna a asserção de uma condicional correta ou incorreta. Do mesmo modo, muitos autores concordam que as condições de verdade determinam se uma proposição é verdadeira ou falsa, mas não há consenso acerca do que torna uma condicional verdadeira ou falsa. Se a falta de consenso não é um problema no último caso também não será no primeiro.

O livro de Woods tem vários méritos e não só é informativo ao apresentar inúmeras teorias e exemplos perspicazes como também é instigante ao propor uma nova teoria das contrafactuais e ao pôr em causa o mito de que as condições de assertibilidade são apenas manobras ad hoc e idiossincrasias pragmáticas. Tudo isto é admirável, sobretudo por se tratar de um esboço incompleto do que seria um capítulo num livro de lógica filosófica.

Matheus Silva
mateusmasi@gmail.com
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