Palavra e Objeto
8 de Junho de 2009 ⋅ Filosofia da linguagem

Ascensão semântica

W. v. O. Quine
Tradução de Desidério Murcho

Este capítulo ocupou-se principalmente da questão de saber que objetos reconhecer. Contudo, tratou tanto de palavras quanto os anteriores. Parte do nosso cuidado aqui foi com a questão de saber em que consiste os compromissos de uma teoria com objetos (§ 49), e é claro que esta questão de segunda ordem é sobre palavras. Mas o que é de notar é que falamos mais de palavras do que de objetos mesmo quando nos ocupávamos principalmente de decidir o que realmente há: que objetos admitir na nossa própria perspectiva.

Isto não teria acontecido se nos tivéssemos detido na questão de saber em particular se há marsupiais, ou se há unicórnios, limitando-nos a isso. O discurso sobre objetos ilingüísticos teria sido um excelente meio para debater essas questões. Mas quando o debate muda para a questão de haver ou não pontos, milhas, números, atitudes, proposições, fatos ou classes, assume uma aparência de algum modo filosófica, de modo que rapidamente nos encontramos a falar de palavras quase excluindo os objetos ilingüísticos em causa.

Carnap sustentou desde muito cedo que, quando são reais, as questões da filosofia são lingüísticas; e esta observação parece ilustrar este aspecto. Carnap sustenta que as questões filosóficas sobre o que há dizem respeito ao modo como nos será mais conveniente adaptar o nosso "enquadramento lingüístico," e não, como no caso do marsupial ou do unicórnio, questões sobre a realidade extralingüística.1 Sustenta que essas questões filosóficas só aparentemente são sobre gêneros de objetos, sendo na realidade questões pragmáticas de política lingüística.

Mas por que razão deveria isto aplicar-se às questões filosóficas e não às questões teóricas em geral? Tal distinção de estatuto é inseparável da noção de analiticidade (§ 14), e é igualmente indigna de confiança. Afinal, as frases teóricas em geral só pragmaticamente são defensáveis; tudo o que podemos fazer é avaliar os méritos estruturais da teoria que as rodeia, juntamente com as frases diretamente condicionadas por estimulações diversas. Como pode então Carnap traçar uma linha na parte teórica e sustentar que as frases deste lado gozam de conteúdo ou significado inverbal, ao contrário das outras? O seu próprio apelo à conveniência do enquadramento lingüístico permite conexões pragmáticas que atravessam a linha. Que outro tipo de conexão se pode pedir seja onde for, que não seja o condicionamento direto por estimulações inverbais?

Contudo, reconhecemos uma mudança do discurso sobre objetos para o discurso sobre palavras à medida que o debate muda da existência de marsupiais e unicórnios para a existência de pontos, milhas, classes, e tudo o resto. Como podemos explicar isto? Explicamo-lo amplamente, penso, oferecendo um tratamento adequado de uma manobra útil e muito usada a que chamarei ascensão semântica.

É a mudança do discurso sobre milhas para o discurso sobre "milha". É o que conduz do modo material (inhaltlich) para o formal, para invocar a velha terminologia de Carnap. É mudar do discurso que usa certos termos para um discurso acerca desses termos. É precisamente a mudança que Carnap considera que despoja as questões filosóficas de uma aparência enganadora e lhes dá as suas verdadeiras roupagens. Mas esta doutrina de Carnap é a parte que não aceito. A ascensão semântica, tal como falo dela, aplica-se a tudo.2 "Há marsupiais na Tasmânia" pode ser parafraseada como ""Marsupial" aplica-se a algumas criaturas da Tasmânia", se valer a pena. Mas acontece que a ascensão semântica é mais útil em conexão com a filosofia do que com o resto, e penso que sei porquê.

Considere-se como seria o debate sobre a existência de milhas sem ascender à conversa de "milha". "Claro que há milhas. Sempre que houver 1760 jardas, há uma milha." "Mas também não há jardas. Só há corpos de vários comprimentos." "Estão a Terra e a Lua separadas por corpos de vários comprimentos?" A continuação perde-se numa confusão de invectivas e petições de princípio. Quando, por outro lado, ascendemos a "milha" e perguntamos quais dos seus contextos são úteis e para que propósitos, podemos prosseguir; não seremos já apanhados nas armadilhas dos nossos usos opostos.

A estratégia da ascensão semântica é levar a discussão para um domínio no qual ambos os partidos concordam melhor quanto aos objetos (viz., palavras) e quanto aos termos principais que lhes dizem respeito. As palavras, ou as suas inscrições, ao contrário de pontos, milhas, classes, e o resto, são objetos tangíveis da dimensão tão popular na vida pública, na qual homens com esquemas conceptuais distintos comunicam no seu melhor. A estratégia é ascender a uma parte comum de dois esquemas fundamentalmente díspares, para melhor discutir as fundações díspares. Não admira que seja uma ajuda na filosofia.

Mas também figura nas ciências da natureza. A teoria da relatividade de Einstein foi aceite em conseqüência não apenas de reflexões sobre o tempo, luz, corpos precipitados e as perturbações de Mercúrio, mas também de reflexões sobre a própria teoria, enquanto discurso, e a sua simplicidade em comparação com teorias alternativas. O seu afastamento das concepções clássicas de tempo e comprimento absoluto é demasiado radical para ser debatido eficientemente ao nível do discurso-objeto, sem a ajuda da ascensão semântica. O caso foi semelhante, ainda que em graus menores, com respeito às disrupções da perspectiva tradicional que teve lugar por causa das doutrinas das moléculas e dos eletrões. Estas partículas vêm depois de marsupiais e unicórnios, e antes de pontos e milhas, numa gradação significativa.

O dispositivo da ascensão semântica foi muito e cuidadosamente usado em estudos axiomáticos de matemática, por evitar, uma vez mais, a petição de princípio. Ao axiomatizar uma teoria com a qual já estamos familiarizados, geometria, digamos, costumava-se estar em perigo de se imaginar que se tinha deduzido uma verdade bem conhecida da teoria puramente a partir dos seus axiomas quando na realidade se tinha usado inadvertidamente outro conhecimento geométrico. Como precaução contra este perigo, recorreu-se primeiro a um dispositivo que não a ascensão semântica: o dispositivo da desinterpretação. Fingia-se entender apenas o vocabulário lógico e não os termos distintivos do sistema de axiomas em causa. Este foi um modo eficaz de excluir informação estranha aos axiomas, limitando assim as inferências ao que os axiomas implicavam logicamente. O dispositivo da desinterpretação teve efeitos laterais impressionantes, alguns bons, como a emergência da álgebra abstrata, e alguns maus, como a noção de que na matemática pura "nunca sabemos do que estamos a falar, nem se o que estamos a dizer é verdade."3 Em qualquer caso, com a formalização completa da lógica, levada a cabo por Frege, uma precaução alternativa e mais aprimorada contra a petição de princípio passou a poder ser usada pelos estudos axiomáticos; e este é um caso, precisamente, do que estou a chamar ascensão semântica. Dado o aparato dedutivo da lógica na forma de operações especificadas sobre formas notacionais, a questão de uma dada fórmula se seguir logicamente ou não de axiomas dados reduz-se à questão de as operações especificadas sobre formas notacionais conduzirem ou não a essa fórmula, partindo dos axiomas. Uma resposta afirmativa a tal questão pode ser estabelecida sem desinterpretação, e contudo sem medo de circularidade, na verdade sem usar os termos da teoria de todo em todo, exceto para falar acerca deles e acerca das operações sobre eles.

É imperativo também darmo-nos conta de outra razão a favor da ascensão semântica em filosofia. Esta outra razão aplica-se também, e mais claramente, na lógica; por isso, olhemos primeiro aqui. A maior parte das verdades da lógica elementar contêm termos extralógicos; assim, "Se todos os gregos são homens e todos os homens são mortais...". As verdades principais da física, em contraste, contêm apenas termos da física. Assim, ao passo que podemos expor a física em toda a sua generalidade sem ascensão semântica, só podemos expor a lógica com generalidade falando de formas de frases. A generalidade desejada em física pode-se obter quantificando sobre objetos ilingüísticos, ao passo que a dimensão de generalidade desejada para a lógica é diagonal ao que se consegue obter com tal quantificação. É uma diferença na configuração da área e não no conteúdo; o silogismo acima sobre os gregos não tem de dever a sua verdade mais peculiarmente à linguagem do que outras frases.a

Há esforços característicos em filosofia, os que têm a ver e.g. com as perplexidades de caçar leões ou de acreditar (§§ 30-32), que são parecidos à lógica por precisarem de ascensão semântica como meio de generalizar para lá de exemplos.4 Não que eu negue de modo algum que as perplexidades quanto a caçar leões ou a acreditar ou aos seus análogos se esclareçam melhorando a estruturação do discurso; mas o mesmo acontece num avanço da física. O mesmo acontece ainda que esta última reestruturação seja conduzida (como acontece freqüentemente) no seio do discurso de objetos, e não por ascensão semântica.

Pois não é como se as considerações de eficácia sistemática, considerações largamente pragmáticas, só fossem operativas quando fazemos uma ascensão semântica e falamos da teoria, e as considerações factuais sobre o comportamento de objetos no mundo só fossem operativas quando evitamos a ascensão semântica e falamos no seio da teoria. As considerações de eficácia sistemática são igualmente essenciais nos dois casos; acontece apenas que num caso lhes damos voz e no outro elas nos guiam tacitamente. E as considerações quanto ao comportamento dos objetos no mundo, mesmo o comportamento que afeta as nossas superfícies sensoriais por contato ou radiação, são analogamente essenciais nos dois casos.

Há duas razões pelas quais se sente que a observação não tem qualquer palavra a dizer na lógica e na filosofia, ao contrário do que acontece na física teórica. Uma tem origem em compreensões erradas da ascensão semântica. A outra tem origem em classificações curriculares. Este último factor tende analogamente a fazer-nos sentir que a observação não tem uma palavra a dizer na matemática, ao contrário do que acontece na física teórica. Concede-se geralmente que as asserções teóricas em física, sendo terminologicamente físicas, devem um certo conteúdo empírico às observações físicas que, apesar de indiretamente, ajudam a sistematizar, ao passo que não se considera que as leis das chamadas lógica e matemática, por mais úteis que sejam na sistematização das observações físicas, adquiram desse modo qualquer substância física. Uma atitude mais razoável é que são meras variações em grau de centralidade na estrutura teórica, e em grau de relevância para um ou outro conjunto de observações.

Na § 49 falei de fintas com as quais os filósofos pensaram poder ficar com os benefícios sistemáticos dos objetos abstratos sem ter de os aceitar. Há mais uma finta desse gênero naquilo a que me tenho oposto nestas últimas páginas: a sugestão de que a aceitação de tais objetos é uma convenção lingüística de algum modo distinta de perspectivas sérias sobre a realidade.

A questão sobre o que há é uma preocupação que a filosofia partilha com a maior parte das outras áreas que não se ocupam da ficção. A resposta descritiva só foi dada em parte, mas algo detidamente. Uma combinação representativa de massas terrestres, mares, planetas e estrelas tem sido descrita individualmente nos livros de geografia e astronomia, e um bípede ocasional ou outro objeto de dimensão média nos livros de biografia e de arte. A produção em massa em zoologia, botânica e mineralogia, nas quais as coisas são agrupadas por similaridades e descritas coletivamente, intensificou a descrição. A física, por se abstrair mais implacavelmente das diferenças de pormenor, leva ainda mais longe a descrição em massa. E até a matemática pura pertence à resposta descritiva à pergunta sobre o que há; pois as coisas acerca das quais a pergunta se põe não excluem os números, classes, funções, etc., se houver tais coisas, de que a matemática trata.

O que distingue a preocupação ontológica do filósofo de tudo isto é apenas a abrangência de categorias. Dados os objetos físicos em geral, o cientista da natureza é o homem certo para decidir com respeito a marsupiais e unicórnios. Dadas as classes, ou qualquer outro domínio lato de objetos de que o matemático precisa, compete-lhe dizer se em particular há quaisquer números pares primos ou quaisquer números cúbicos que sejam somas de pares de números cúbicos. Por outro lado, é o escrutínio desta aceitação acrítica do próprio domínio de objetos físicos, ou de classes, etc., que recai sobre a ontologia. Trata-se aqui da tarefa de tornar explícito o que era tácito, e preciso o que era vago; de pôr a nu e eliminar paradoxos, alisar vincos, podar rebentos vestigiais, esvaziar pardieiros ontológicos.

A tarefa do filósofo difere das dos outros, pois, em pormenor; mas não de um modo tão drástico como supõe quem atribui ao filósofo um ponto de vista privilegiado, fora do esquema conceptual de que se ocupa. Não há tal exílio cósmico. O filósofo não pode estudar nem rever o esquema conceptual fundamental da ciência e do senso comum sem ter um qualquer esquema conceptual, seja o mesmo ou outro, que não carecerá menos de escrutínio filosófico, no qual possa trabalhar. Pode escrutinar e melhorar o sistema a partir do seu interior, apelando à coerência e estabilidade; mas este é o método do teorizador em geral. Pode recorrer à ascensão semântica, mas também o cientista o pode fazer. E se o cientista teórico, à sua maneira remota, está obrigado a salvaguardar as conexões eventuais com a estimulação iverbal, o filósofo, à sua maneira ainda mais remota, está também condenado a salvaguardá-las. É verdade que é de esperar que nenhuma experiência poderá decidir uma questão ontológica; mas isto é só porque tais questões estão conectadas com as irritações da superfície de maneiras muito diversas, atravessando labirintos de interposta teoria.

W. v. O. Quine

Tradução de Desidério Murcho, retirada de Palavra e Objeto, de W.v.O. Quine, §56 (Vozes: 2010)

Notas do autor

  1. Carnap, "Empiricism, semantics and ontology."
  2. Numa palavra, rejeito a doutrina de Carnap de frases "quasi-sintácticas" ou "pseudo-objeto", mas aceito a sua distinção entre o modo material e o formal. Veja-se o seu Logical Syntax, §§63-64. (Fui de facto eu, se me for permitido recordá-lo, que em 1934 lhe propus "modo material" como tradução do seu alemão.)
  3. Russell, Mysticism and Logic and Other Essays, p. 75. O ensaio em questão data de 1901, e felizmente o aforismo não exprimia qualquer atitude permanente da parte de Russell. Mas a atitude expressa tem sido muito comum.
  4. O estilo característico de Wittgenstein, no seu período tardio, consistiu em evitar a ascensão semântica agarrando-se aos exemplos.

Notas do tradutor

  1. De notar que um silogismo é um argumento e nenhum argumento pode ser literalmente verdadeiro ou falso. Quine refere-se à expressão frásica do silogismo: "Se todos os gregos são homens e se todos os homens são mortais, então todos os gregos são mortais." Quine sugere aqui uma posição que foi defendida por Russell explicitamente em 1912 no seu Os Problemas da Filosofia: que as verdades da lógica não devem mais a sua verdade à linguagem do que outras verdades.
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