Mais Platão, Menos Prozac!
19 de Outubro de 2004 ⋅ Filosofia

Mais Prozac

Pedro Galvão
Mais Platão, Menos Prozac!, de Lou Marinoff
Tradução de Saul Barata
Editorial Presença, 2002, 316 pp.

O livro até nem começa mal. Nos primeiros capítulos encontramos uma crítica perspicaz e bem humorada ao recurso abusivo às terapias oferecidas por psiquiatras e psicólogos. Lou Marinoff denuncia, entre outras coisas, a tendência dos especialistas para postular desenfreadamente cada vez mais doenças mentais. A este respeito ironiza: "Sente-se infeliz sem saber porquê? Pois, é a síndroma depressiva imediata, vejo isso todos os dias. Gosta de percutir a mesa com as pontas dos dedos? Sofre da síndroma da percussão digital." Marinoff sugere que em muitas situações, em vez de encararmos os nossos problemas como sintomas de uma doença mental oculta, o melhor a fazer é enfrentá-los usando disciplinadamente o raciocínio. Daí o título do livro, pois é suposto a filosofia ajudar-nos a raciocinar melhor.

A ideia de que o pensamento filosófico pode de algum modo contribuir para resolver problemas pessoais cria uma certa expectativa no leitor. É uma ideia razoável, que Marinoff explora quase exclusivamente fazendo uma defesa do "aconselhamento filosófico". O seu livro, aliás, consiste sobretudo num elogio e elucidação desta actividade profissional, que ele próprio exerce. "Como especialista em aconselhamento filosófico", esclarece Marinoff, "sou um defensor dos interesses dos meus clientes. A minha função é ajudá-los a compreender o tipo de problemas que têm de enfrentar e, através do diálogo, desatar os nós e pôr ordem nos componentes e nas implicações desses mesmos problemas". Fica ainda a promessa de o leitor aprender com este livro a fazer o mesmo em relação a si próprio.

A partir do terceiro capítulo as expectativas criadas dão lugar à desilusão. Apercebemo-nos do verdadeiro nível do livro logo que Marinoff explica o seu método de aconselhamento, o método PEACE, que se desenvolve em cinco fases, uma para cada letra: identificar o "problema", examinar as "emoções", "analisar" as opções, "contemplar" a situação e atingir o "equilíbrio". Este método não é propriamente uma grande descoberta, mas nas mãos de Marinoff torna-se uma espécie de algoritmo milagroso capaz de curar todas as dores de alma.

O autor procura mostrar — e dedica a isso a maior parte do livro — como ele e os seus colegas têm ajudado os que recorrem ao aconselhamento filosófico. Descreve inúmeros casos concretos de clientes com diversos tipos de problemas pessoais: problemas de realização profissional, conflitos familiares ou crises de meia idade. Encontramos mesmo três capítulos inteiros dedicados a problemas na vida amorosa. O objectivo é ficarmos convencidos de que a receita PEACE filosoficamente condimentada produz resultados maravilhosos, mas o que se aprende de filosofia pelo caminho é muitas vezes pior que nada.

Quando não está a descrever problemas de clientes, Marinoff lança-se em divagações superficiais marcadas por uma profusão selvagem de citações e referências a filósofos e textos religiosos. Numa única página, a 118, chegamos a encontrar referências a Hegel, Buber, Kant, Maquiavel, Russel (sim, só com um "l") e Hobbes, mas não encontramos um único pensamento acima da trivialidade. Noutra passagem — só para indicar mais um entre dezenas de exemplos possíveis —, depois de mencionar as tradições hindu e budista e de citar S. Paulo, Marinoff conclui: "A mensagem a reter é que tudo o que pensamos, dizemos e fazemos tem consequências." Quem diria?

Além disso, é frequente as citações surgirem a completo despropósito. Veja-se, por exemplo, como Marinoff introduz o inevitável "cogito" cartesiano: "Descartes esqueceu-se de qualquer coisa quando concluiu: "Eu penso, logo existo." Omitiu os aspectos sociais da existência humana: "Os outros pensam em mim, logo eu existo." Quando alguém morre, perdemos essa parte de nós mesmos, além de perdermos a pessoa que morreu. A ausência dessa pessoa faz-nos sentir mais pobres." Quem está minimamente familiarizado com a epistemologia cartesiana, sabe que não há qualquer relação entre o "cogito" e os comentários tolos de Marinoff sobre a morte.

A incompetência filosófica do autor torna-se nítida em muitas ocasiões. O capítulo dedicado à ética proporciona algumas das melhores atrocidades. Marinoff apresenta a metaética como "a comparação de sistemas concorrentes de ética", quando qualquer pessoa que tenha lido uma introdução razoável à filosofia moral sabe que esse tipo de comparação compete à chamada "ética normativa". E, entre outras coisas, Marinoff mostra desconhecer o que caracteriza uma ética deontológica e o que é ser relativista moral. Enfim, escapam-lhe as noções mais elementares da filosofia moral.

Dado o péssimo serviço que Marinoff presta à filosofia e à sua divulgação, este livro acaba por se transformar numa defesa indirecta do Prozac. Felizmente, existem livros excelentes e acessíveis que mostram como a filosofia nos permite pensar melhor sobre a nossa própria vida. Um dos mais notáveis é How Are We to Live, de Peter Singer, que surpreendentemente ainda não está traduzido.

Pedro Galvão
p.m.galvao@gmail.com
Originalmente publicado no jornal Público.
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