Descartes
10 de Novembro de 2006 ⋅ História da filosofia

Espio, logo existo

Desidério Murcho
Descartes, de A. C. Grayling
Mem Martins: Europa-América, 2007, 322 pp.

Os biógrafos sempre deram uma atenção especial aos filósofos, sendo As Vidas dos Filósofos, de Diógenes Laércio (séc. III), uma das primeiras e mais influentes biografias colectivas. Contudo, desde a publicação em 1990 da famosa biografia de Wittgenstein, de Ray Monk, as vidas dos filósofos tornaram-se ainda mais apetecíveis. Uma parte importante das biografias de filósofos recentemente publicadas são de carácter académico, como é o caso da biografia de Espinosa, de Steven Nadler, publicada entre nós (Europa-América). Estas biografias, pelo grau de sofisticação e pormenor exigido numa obra académica, distinguem-se das chamadas "biografias populares", que têm o grande público firmemente em vista. É precisamente para o grande público que Grayling escreveu esta biografia popular de Descartes (1596-1650).

Biografar filósofos antigos representa um enorme desafio quando poucos ou nenhuns registos históricos sobre a sua vida chegaram até nós, como é o caso de Descartes. As poucas cartas ou outros documentos históricos relativos a Descartes são já conhecidos e foram já usadas por outros biógrafos. O que podemos esperar de novo numa biografia de Descartes é alguma reflexão ou insight interessante por parte do biógrafo e uma actualização do conhecimento popular do filósofo. Este último aspecto, contudo, é muitíssimo importante — sobretudo quando um país é vítima de uma cultura escolar que não se pauta pelo rigor. Assim, talvez a publicação desta biografia ajudasse a pôr cobro a grande parte dos lugares-comuns falsos que se lêem por aí sobre Descartes. Um desses lugares-comuns é o de que Descartes não seria realmente religioso; estaria apenas a procurar não acicatar o poder eclesiástico, pois Giordano Bruno (1548-1600) tinha sido queimado em público recentemente, graças a uma reinterpretação radical do preceito de Cristo de dar a outra face quando nos ofendem. A verdade é que Descartes era não apenas um homem de fé; era um homem de firme fé católica. Claro que, como a generalidade dos católicos com mais cérebro do que uma andorinha, nem sempre concordava com as asininas perspectivas do Santo Ofício ou do Papa.

Não só Descartes foi sempre firmemente católico, como há indícios, explorados por Grayling, de que terá estado ao serviço dos interesses papais em terras protestantes. Descartes atravessa o período das grandes guerras religiosas e parece estar sempre misteriosamente presente nos bastidores dos grandes acontecimentos. Com base nestes e noutros indícios, Grayling especula que talvez Descartes tenha sido um espião ao serviço do papa, um tipo de actividade bastante comum, na altura, entre os letrados.

A revolução mental, cultural e escolar iniciada com Descartes foi imensa. Descartes abandonou a filosofia e ciência escolásticas, considerando-as irredutivelmente erradas e insusceptíveis de correcção pontual; tudo o que se podia fazer era deitar tudo fora e recomeçar do nada. Os académicos da altura não ficaram propriamente entusiasmados e estalou a controvérsia. Alguns dos seus livros chegaram a ser queimados em público, o ensino das suas ideias foi oficialmente proibido em muitas universidades e aquele pequeno homem francês, que procurou sempre activamente o recolhimento e a tranquilidade, viu-se no centro de amargas disputas académicas. Para saber mais sobre a vida de um dos mais influentes filósofos de sempre, leia esta elegante biografia de A. C. Grayling.

Desidério Murcho
Publicado no jornal Público (13 de Maio de 2006).
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