Os Cadernos de Platão, de Peter Ackroyd

Do lado de lá da caverna

Desidério Murcho
Os Cadernos de Platão, de Peter Ackroyd
Tradução de Rita Graña
Teorema, 2001, 172 pp., 10,47 €

Platão ilustrava na "República" a sua teoria das Ideias com a alegoria da caverna. Nela se descrevia como o mundo que nós pensamos ser real não passa de sombras, ilusões. E como os seres humanos vivem numa caverna, sem saberem que é no seu exterior que se encontra a realidade radiosa. Platão descreve a dificuldade que terão os seres humanos, habituados às trevas da caverna e às ilusões que lhes são familiares, em acreditar num dos seus que, mais corajoso, se aventure no exterior da caverna, para conhecer a verdadeira luz do Sol.

Imagine agora tudo isto ao contrário: uma sociedade de seres que vivem no mundo da realidade radiosa, à luz do Sol, e que têm dificuldade em acreditar num dos seus que desceu ao mundo da caverna. Este é o ponto de partida desta intrigante novela de Ackroyd. Platão é um orador, que discursa aos seus concidadãos sobre o passado. A história passa-se no ano 3700. O conhecimento que Platão tem do passado é pouco mais que fragmentário, o que permite algumas das mais irónicas observações sobre o nosso mundo contemporâneo que já me foi dado ler. Por outro lado, a distância histórica e a exiguidade das informações de que Platão dispõe tornam as suas inferências deliciosamente confusas. Com uma lógica implacável, a partir de escassos dados históricos, Platão traça uma imagem do seu passado (o nosso tempo) cheia de deliciosos erros.

Na única cópia que chega às mãos de Platão do famoso tratado de Darwin, A Origem das Espécies, o sobrenome do autor está apagado — lê-se apenas "Charles D…". No seu papel de historiador e crítico literário dos tempos antigos, Platão oferece excelentes argumentos para pensar que o autor de "A Origem das Espécies" foi Charles… Dickens! E que a obra de Darwin é afinal um romance, o que é confirmado pelas primeiras linhas da obra: "A bordo do navio de Sua Majestade Beagle, como naturalista, fiquei perplexo com certos factos…". O "romance" seria então a descrição de um personagem que começa a delirar, construindo um mundo de completa fantasia, com base na observação de vários animais. Delicioso.

Curiosamente, ao ler "The Plato Papers" damos conta de algumas das características marcantes dos diálogos do verdadeiro Platão. Os personagens dos diálogos do verdadeiro Platão são a um tempo filósofos que dissertam sobre os mais abstrusos temas e crianças ociosas mais ou menos entediadas que se divertem com o prazer inocente do debate filosófico. O mesmo se passa neste livro: ninguém leva Platão muito a sério; os seus discursos eruditos são apreciados como uma distracção inocente.

À semelhança de Sócrates, que reclamava conversar com um deus interior, o Platão de Ackroyd entabula conversas com a sua própria alma. Essas conversas acabam por levá-lo à perdição: descobre que existe um outro mundo que não o da luz radiosa em que ele e os seus concidadãos vivem, mas um mundo de sombras: a caverna do nosso Platão — o nosso mundo. Claro que ninguém acredita nele, acabando por ser julgado. A acusação é análoga à de Sócrates: Platão é acusado de corromper a juventude por contar mentiras e fábulas nos seus discursos.

Os habitantes deste país da luz são muito estranhos. Aparentemente, são almas puras, sem nada que fazer excepto entreter um tédio morno de um Domingo à tarde que nunca mais acaba. Por outro lado, a acção não decorre em Atenas, como seria de esperar, mas numa Londres lírica, completamente diferente da Londres real. E, na verdade, é nos olhares que Platão consegue deitar à caverna em trevas que se descobre a Londres que bem conhecemos: ruidosa, poluída, caótica.

Uma leitura obrigatória para estudantes e professores de filosofia antiga e para qualquer pessoa que goste de uma leitura irónica, inteligente e intrigante.

Desidério Murcho
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