“Esse gênero de imagem quotidiana do positivismo lógico”
Alan RichardsonNo século XXI ninguém é empirista lógico.1 É certo que há não poucos filósofos cujo trabalho se assemelha em aspectos relevantes ao trabalho dos empiristas lógicos e que, de fato, se tivesse sido feito na década de 1950, seria um trabalho empirista lógico. Mas ninguém apresenta tal trabalho sob a rubrica “empirismo lógico”. Na verdade, ninguém poderia tentar fazer tal coisa de maneira plausível — ser um empirista lógico não é realmente uma opção viva para um filósofo do século XXI.2
Evolução e Grandes Temas, de Stamos
José Costa JuniorNo final do primeiro capítulo do seu livro Fundamentos da Filosofia (Zahar, 1977), Bertrand Russell expõe uma das suas expectativas em relação ao futuro dos problemas filosóficos: “Talvez a ciência moderna nos permita ver os problemas filosóficos a uma nova luz. Com essa esperança, vamos examinar a relação do homem com o seu meio”. Tal expectativa é compartilhada por David Stamos neste livro, lançado originalmente em 2008 na Blackwell. Stamos visa esclarecer as conseqüências, e o impacto, que a teoria evolucionista de Charles Darwin tem com respeito a alguns dos problemas filosóficos mais tradicionais...
O inefável
Desidério MurchoHá várias ilusões cognitivas persistentes que têm uma característica comum: exprimem-se de modo a haver duas interpretações cruciais. Numa, a ideia em causa é verdadeira, mas não é surpreendente nem merece a nossa atenção porque é banal. Na outra, a ideia é surpreendente e chama-nos apropriadamente a atenção, mas é patentemente falsa. A ilusão cognitiva resulta precisamente de se assentar arraiais no muro da ambiguidade, de modo que quando discordamos dela, o seu defensor bate-nos na cabeça com a interpretação verdadeira, que realmente não queremos rejeitar; quando afirmamos então que essa ideia é verdadeira mas banal...
Nota sobre arte e conceitos históricos
Gregory CurrieNum certo sentido, os nossos conceitos são, na sua maioria, históricos. Qualquer conceito que tenha aplicação contingentemente é histórico no sentido de que, se a história do mundo tivesse sido diferente, aplicar-se-ia a coisas diferentes. O conceito de arte é histórico nesse sentido: se Rembrandt tivesse pintado mais um auto-retrato, o conceito de arte teria mais uma coisa na sua extensão. Alguns conceitos são históricos noutro sentido...
Sobre o puzzle de Kripke
D. E. OverEm “A Puzzle about Belief” (Meaning and Use, ed. by A. Margalit, Reidel, Dordrecht, 1979, pp. 239-283), Kripke enuncia dois princípios que descreve como auto-evidentes. O primeiro é o princípio da descitação:
Se um falante normal de inglês, sob reflexão, assente sinceramente a “P”, então acredita que P (p. 249).
A ciência empírica segundo Berkeley
J. O. Urmson“Memorandum. Há muito que recomendar e aplaudir na filosofia experimental”, afirmou Berkeley nos seus cadernos de anotações pessoais (C 498). Esta recomendação não era só de fachada. O interesse de Berkeley pela ciência experimental, ou filosofia experimental como a denominava, segundo o uso normal nos séculos XVII e XVII, foi intenso e genuíno. A sua grande admiração por Newton é manifestada inúmeras vezes nos seus escritos, e não somente os destinados a publicação. Berkeley havia estudado os Principia de Newton — uma obra muito difícil, que poucos poderiam pretender compreender com alguma facilidade — e provavelmente a Óptica.
Comunidade?
Desidério MurchoUma das palavras mágicas que me escapou, e que cada vez é mais usada de modo deplorável é “comunidade”. Há uns anos, havia, por exemplo, filósofos, poetas e taxistas. Hoje, há a comunidade dos filósofos, a comunidade dos poetas e a comunidade dos taxistas. A palavra “comunidade” entrou no vocabulário contemporâneo sem que as pessoas se tenham apercebido de tal, violando o seu significado original a tal ponto...
2081 e a falácia da desigualdade social
Luís Estevinha RodriguesSó recentemente tivemos oportunidade de ver 2081, uma curta-metragem realizada por Chandler Tuttle (2009), baseada no também curto conto Harrison Bergeron, de Kurt Vonnegut (1961). Tirando algumas diferenças de menor importância, o filme de Tuttle é fiel ao conto de Vonnegut, o que nos permite dizer que ambos expõem a mesma história. Crucialmente, essa história é a de uma sociedade distópica na qual os governantes promovem a eliminação das diferenças físicas e mentais impondo handicaps, limitações artificiais, aos elementos mais dotados. Os mais belos têm de usar máscaras, os mais fortes têm de carregar pesos, os mais inteligentes têm de usar mecanismos auriculares que os desconcentram...
Ações, razões e causas
Donald DavidsonQual é a relação entre uma razão e uma ação quando a razão explica a ação, dando a razão do agente para fazer o que fez? Podemos chamar tais explicações de racionalizações, e dizer que a razão racionaliza a ação. Neste artigo quero defender a posição antiga — e de senso comum — de que a racionalização é uma espécie de explicação causalii. A defesa sem dúvida exige alguma reelaboração, mas não parece necessário abandonar a posição, como muitos autores recentes insistem.1
Sexto Empírico
Charlotte StoughSexto Empírico foi um cético grego da escola pirrônica e um médico clínico que viveu provavelmente durante o final do século II d.C. As datas exatas são controversas e os detalhes de sua vida praticamente desconhecidos; contudo, é a fonte mais importante de nosso conhecimento das filosofias céticas gregas antigas. As obras que nos chegaram são as Hipotiposes Pirrônicas, em três livros, que nos fornecem o relato positivo do próprio Sexto sobre o ceticismo pirrônico, e uma extensa obra em onze livros, geralmente referida coletivamente como Contra os Matemáticos. Esta contém muito material semelhante ao encontrado nas Hipotiposes, mas também fornece argumentos céticos adicionais contra os filósofos...
Conhecimento esquivo
David LewisSabemos muito. Sei qual é a comida que os pingüins comem. Sei que os telefones costumavam tocar a campainha, mas hoje em dia soltam sons estridentes quando alguém liga. Sei que Essendon ganhou a Grande Final de 1993. Sei que aqui está uma mão, e aqui está outra. Temos todo o tipo de conhecimento comum, e temo-lo em abundância. Duvidar disso seria absurdo. Ou pelo menos duvidar disso de modo sério e permanente seria absurdo; e mesmo duvidar filosófica e temporariamente, sob a influência de argumentos, é mais do que um pouco de excentricidade. É um fato mooriano que sabemos muito.
O que é uma lei da natureza?
A. J. AyerNum certo sentido, sabemos suficientemente bem o que comumente se quer dizer com “lei da natureza”. Podemos dar exemplos. São ou acredita-se que sejam leis da natureza: que a órbita de um planeta em torno do Sol seja elíptica; que o arsênico seja venenoso; que a intensidade de uma sensação seja proporcional ao logaritmo do estímulo; que haja 303 000 000 000 000 000 000 000 moléculas em um grama de hidrogênio. E não são leis da natureza: que a soma dos ângulos de um triângulo euclidiano seja 180°, embora isso seja necessariamente verdadeiro; que todos os presidentes da terceira República Francesa tenham sido homens, embora esse seja à sua maneira um fato legal...
Deliberação e decisão racional
Faustino VazPodemos ter razões de tipos diferentes para agir desta ou daquela maneira. São essas razões que influenciam a escolha das acções. Mas nem sempre é fácil escolher a acção apropriada. De facto, por vezes as razões são complexas, de tipos diferentes e pesam a favor de acções contrárias. Não há um método para determinar qual delas tem mais peso nos diversos casos. E também não é possível saber com segurança em que casos as razões morais podem ser suplantadas por outros tipos de razões. Na falta de um método, temos então de pensar arduamente antes de agir. Ao pensamento que considera e avalia razões práticas chamamos “deliberação.”
Bom ensino com maus programas?
Aires AlmeidaAo contrário do que muitas pessoas pensam, as questões centrais da educação não têm merecido grande atenção da comunicação social. A verdade é que nem a avaliação dos professores nem a violência nas escolas são as questões centrais. Estas são, certamente, matérias importantes e merecem alguma atenção. Só que nem a regulação das carreiras profissionais nem a resolução das disfunções sociais deveriam constituir as principais atribuições do ministro da educação. Mesmo que não se possam nem se devam evitar, o ministério da educação não existe primariamente para tratar de questões profissionais dos seus trabalhadores nem para tratar de problemas sociais emergentes.
O anti-racista racista
Desidério MurchoHoje em dia é proibido ser racista. E isto tem duas consequências negativas, relacionadas entre si. Por um lado, fingimos que não há racistas entre nós, quando os há. Por outro, não se compreende o que há de errado no racismo. Os dois aspectos estão relacionados porque se não fosse proibido ser racista seria mais fácil ver o que há de errado no pensamento dos racistas e consequentemente o que justifica a oposição ao racismo. A situação é caricata porque tanto os racistas como os que se opõem ao racismo concordam com a mesma tese moral errada; apenas discordam quanto ao que, uns e outros, pensam que são os factos. O facto que o racista invoca é uma suposta “superioridade” da raça A relativamente à raça B.
Sir Michael Dummett (1925–2011)
Dag PrawitzSir Michael Dummett foi um filósofo de Oxford, membro de All Souls (1950), Professor Wykeham de Lógica (1979-1992) e membro do New College. Entre os seus compromissos exteriores à filosofia, o seu trabalho activo contra o racismo merece menção especial. A filosofia de Dummett inspira-se em grande medida na filosofia de Frege e Wittgenstein. Diversas obras suas ocupam-se directamente de Frege, as principais sendo os dois livros Frege: Philosophy of Language (1973), e Frege: Philosophy of Mathematics (1991).
Kant's Theory of Knowledge, de Dicker
Pedro MerlussiA filosofia analítica tem contribuído substancialmente para as discussões filosóficas atuais. E os avanços alcançados pelos filósofos analíticos não se encontram apenas nos problemas filosóficos discutidos contemporaneamente, mas também na história da filosofia. Este livro é um claro exemplo disso; como o próprio nome indica, é uma introdução realmente analítica à epistemologia de Kant, que dá primazia aos problemas com os quais o filósofo alemão lidou, seus principais argumentos e, evidentemente, suas principais objeções. O nível de sofisticação do livro de Dicker é incomparavelmente superior aos livros de introdução a Kant que não levam em consideração os avanços alcançados pelos filósofos analíticos nos últimos anos.
Psicologia e Neurociência, de Araújo
Bruno Angeli FaezOs avanços em neurociência e ciência cognitiva das últimas décadas sugeriam inicialmente que em breve resolveríamos (ou dissolveríamos) completamente o antigo problema filosófico das relações entre corpo e mente. No entanto, a “década do cérebro” (1990-1999) encerrou-se sem satisfazer as promessas e as esperanças mais básicas que a animavam. Em particular, um dos pressupostos de boa parte dos programas de pesquisa nessas disciplinas, a saber, que o vocabulário mental da folk psychology seria desnecessário para uma explicação científica adequada dos fenômenos mentais, jamais chegou a ser demonstrado.
A Tradição Socrática, de Faria
Esta dissertação reflecte a metodologia, a didáctica e a prática que o autor considera adequadas na leccionação da filosofia no ensino secundário. Defende-se que a leccionação da filosofia deve procurar fundamentalmente ensinar os alunos a pensar e a examinar criticamente ideias; por isso, o ensino da filosofia deve estar inserido na tradição encetada por Sócrates, ou seja, na tradição de um constante exame crítico. Assim, as finalidades primordiais deste texto são as seguintes...
Como não justificar a filosofia
Desidério MurchoUma confusão comum no que respeita à justificação da filosofia é que muitas vezes o que se visa, sem que a pessoa se aperceba disso, não é exactamente a justificação da filosofia. É importante distinguir cinco ideias bastante diferentes: 1) a justificação fraca da actividade filosófica; 2) a justificação forte dessa actividade; 3) a justificação do ensino da filosofia; 4) a justificação do ensino obrigatório da filosofia; e 5) a justificação do financiamento da filosofia com o dinheiro dos contribuintes.
Que programa de filosofia?
Faustino VazUm primeiro rascunho desta comunicação foi apresentado na Escola Secundária de Fafe, no âmbito das actividades do dia internacional da filosofia. Agradeço a amabilidade do convite e felicito o grupo de filosofia pela iniciativa. Foi com pena que tive de apressar o almoço na companhia simpática dos colegas de filosofia. Aproveitei a oportunidade — e as melhores oportunidades são aquelas que, por um qualquer acaso, vêm ter connosco...
Pseudo-argumentos
Desidério MurchoOcorre um pseudo-argumento quando alguém apresenta o que, semanticamente, é sem dúvida um argumento, mas o apresenta de tal modo que, pragmaticamente, é apenas um acto discursivo alheio à argumentação. A argumentação é um convite à discussão: apresentamos as razões que genuinamente pensamos que sustentam uma dada ideia, e fazemo-lo de modo tão explícito quanto possível precisamente para permitir que a outra pessoa analise cuidadosamente não apenas as premissas que usamos, mas também se delas se infere correctamente a conclusão que defendemos. Por essa razão, os pseudo-argumentos prestam-se a confusões.
Estética e sentido
John KoetheConsidero que a explicação de Susan Wolf do que faz uma vida ter sentido é, no geral, persuasiva, e não pretendo criticá-la. O que quero abordar são algumas consequências de uma sua aplicação particular. Haverá quem poderá considerar essas consequências perturbadoras, apesar de não ser esse o meu caso. Segundo a abordagem de Wolf, uma vida ganha sentido por um compromisso subjectivo com, ou uma afeição por, um projecto ou actividade de mérito objectivo. A componente subjectiva impede a possibilidade, que parece implausível, de a vida de alguém ter sentido por razões de que ela não está ciente (por exemplo, porque por acaso tem efeitos benéficos).
Ensinar filosofia a crianças
Faustino Vaz, Ana Paula Cabeça e Carla PereiraEsta comunicação dá conta do que se fez nas aulas de Filosofia do 2.º ciclo (alunos com 10 e 11 anos), na escola Dr. Manuel Laranjeira. A oportunidade que nos foi dada, e que desde já agradecemos, pareceu-nos vir em boa hora para contar como as coisas realmente se passaram. Na primeira secção, trataremos de dizer de que modo este projecto, se é que lhe podemos chamar assim, começou.

