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27 de Dezembro de 2023   História da filosofia

Roderick Chisholm

Richard Foley
Tradução de Desidério Murcho

Roderick Chisholm (1916–1999) foi um filósofo americano do século XX que deu importantes contributos em quase todas as áreas da filosofia, mas sobretudo em epistemologia e metafísica. Chisholm estudou na Universidade de Brown de 1934 a 1938, como aluno de graduação, e de 1938 a 1942 fez a pós-graduação na Universidade de Harvard. Cumpriu serviço militar de 1942 a 1946, altura em que, depois de ter por pouco tempo dado aulas na Barnes Foundation da Universidade da Pensilvânia, voltou para Brown, em 1947, onde continuou até à sua morte.

Epistemologia

Na epistemologia, Chisholm foi um defensor do fundacionalismo. Asseverava que qualquer proposição que uma pessoa tenha justificação para acreditar obtém pelo menos parte da sua justificação de proposições básicas que, por sua vez, têm justificação, mas não noutra coisa. As proposições contingentes que são básicas são-no na medida em que correspondem a estados da pessoa que se auto-apresentam, que para Chisholm são aqueles estados tais que sempre que uma pessoa está nesse estado e acredita que está nesse estado, a sua crença tem justificação máxima. Há dois tipos de estados que se auto-apresentam: estados intencionais (maneiras de pensar, anelar, temer, desejar, interrogar-se, pretender, etc.) e estados sensoriais (maneiras de ter uma certa aparência com base nos vários sentidos). Uma proposição que não seja contingente é básica se compreendê-la for suficiente para compreender que é verdadeira e também suficiente para torná-la justificada. “2 + 3 = 5” e “Se Jones está doente e Smith não está em casa, então Jones está doente” são exemplos dessas proposições, afirma Chisholm.

A auto-apresentação e a compreensão são algumas das fontes básicas de justificação epistémica mas, segundo Chisholm, também há outras fontes. As mais importantes delas são a percepção, a memória, a crença conjugada com uma ausência de coerência negativa (por exemplo, não haver inconsistências nas proposições em que se acredita), e a crença conjugada com coerência positiva (isto é, haver apoio mútuo nas proposições em que se acredita). Para cada uma destas fontes, Chisholm avança um princípio epistémico que descreve as condições em que a fonte gera justificação.

Apesar de pensar que há muitas fontes de justificação epistémica, Chisholm é correctamente considerado um fundacionalista, uma vez que todas essas fontes só podem produzir crenças justificadas porque algumas proposições têm justificação básica. Por exemplo, os princípios de Chisholm com respeito à percepção e à memória fazem referência a proposições que têm justificação porque correspondem a estados que se auto-apresentam. No caso da percepção, os estados relevantes são sentires, e, no caso da memória, os estados relevantes são crenças, em particular a crença de que nos lembramos de uma coisa qualquer. Analogamente, Chisholm diz que as relações de coerência entre proposições são incapazes de gerar justificação para proposições que nada mais têm que as recomende; o seu papel é, ao invés, aumentar o grau de justificação que as proposições têm em virtude de se apoiarem em proposições básicas.

Chisholm é também um proponente do internismo em epistemologia, em dois sentidos do termo. Primeiro, pensa que a justificação epistémica é sobreveniente em relação aos estados conscientes humanos; assim, a justificação das nossas crenças é determinada pelos nossos estados internos e não por condições que se verificam no nosso ambiente externo. Segundo, pensa que as condições que justificam as nossas crenças, a ocorrerem, são-nos acessíveis; assim, somos sempre capazes de determinar, se reflectirmos com suficiente cuidado, se as nossas crenças têm justificação.

A epistemologia de Chisholm é resolutamente anticéptica. Na verdade, afirma que a maneira apropriada de começar a fazer epistemologia é pressupondo que algumas crenças humanas têm justificação e que algumas constituem efectivamente conhecimento. A epistemologia, concebida deste modo, torna-se sobretudo a procura das condições que explicam a justificação destas crenças. Uma segunda tarefa é definir as condições que fazem uma crença verdadeira ser conhecimento. A abordagem de Chisholm nesta última tarefa é defender uma abordagem não-derrotável do conhecimento. Uma pessoa conhece uma proposição p, afirma, sempre que a pessoa acredita que p, p é verdadeira, e p é não-anomalamente evidente para essa pessoa, sendo que p é não-anomalamente evidente para essa pessoa (à parte alguns detalhes) exclusivamente no caso de haver um conjunto de proposições básicas que justificam p e que não justificam seja o que for de falso.

Metafísica

Chisholm tinha também perspectivas bem desenvolvidas sobre quase todas as grandes questões da metafísica, mas as suas perspectivas mais influentes dizem respeito ao pensamento e linguagem, ontologia, acção e corpos materiais.

Com respeito ao pensamento e linguagem, Chisholm defendia a primazia do primeiro; a intencionalidade da linguagem deve ser entendida em termos da intencionalidade do pensamento, afirma, e não vice-versa. Chisholm desenvolve esta ideia na sua teoria da referência da atribuição directa. No coração da teoria está a proposta de que as pessoas são capazes de referir coisas além delas mesmas atribuindo-lhes propriedades directamente, e que as pessoas atribuem propriedades indirectamente às coisas ao atribuir directamente propriedades a si mesmas. Por exemplo, se John é a única pessoa que está numa sala com Sally e veste uma camisola azul, então, quando Sally atribui directamente a si mesma a propriedade de ser uma pessoa x tal que a única outra pessoa na sala além de x veste uma camisola azul, atribui indirectamente a John a propriedade de vestir uma camisola azul e ao fazê-lo refere-o. Usando estas noções de atribuição directa e indirecta, Chisholm fornece uma abordagem de várias noções semânticas, incluindo o sentido e a referência.

Em ontologia, a perspectiva de Chisholm é que só há dois tipos de entidades: atributos e as coisas individuais que têm estes atributos. Tudo o mais, incluindo proposições, estados de coisas, mundos possíveis e conjuntos, podem ser entendidos em termos destas duas categorias. Os atributos são objectos possíveis de pensamento — mais especificamente, o que as pessoas são capazes de atribuir, seja directamente (a si próprias), seja indirectamente (tanto a si próprias, como a outras coisas). Chisholm é assim, em ontologia, de novo, um defensor da primazia do pensamento, na medida em que usa o fenómeno da intencionalidade para identificar e compreender os tipos de entidades que existem.

A sua teoria da acção é indeterminista. As noções fundamentais são as de levar a cabo e causar, e, com respeito a esta última, Chisholm distingue cuidadosamente as condições causais necessárias de um acontecimento das condições causais suficientes, assim como dos contributos causais. Na posse destas noções, opõe-se às tentativas compatibilistas de compreender o que é uma pessoa ter a liberdade para levar algo a cabo, insistindo que só levamos a cabo livremente algo se não houve qualquer condição causal suficiente para a levarmos a cabo (ainda que possa ter havido muitíssimos contributos causais para levá-la a cabo).

Grande parte da obra de Chisholm sobre os corpos diz respeito a quebra-cabeças sobre a persistência de corpos físicos ao longo do tempo, a maior parte dos quais, por sua vez, dizem respeito a aparentes violações do princípio de Leibniz da indiscernibilidade de idênticos. Segundo este princípio, se X e Y são idênticos, então o que for verdadeiro quanto a X é também verdadeiro quanto a Y. Um quebra-cabeças famoso, por exemplo, é o navio de Teseu. Mesmo que se substitua uma prancha do navio no momento t, é ainda o mesmo navio — nomeadamente, o navio de Teseu — que existe antes e depois de t, apesar de parecer que tem propriedades diferentes antes e depois de t. Chisholm tenta resolver este e outros quebra-cabeças sobre a identidade de corpos físicos ao longo do tempo usando as suas categorias ontológicas fundamentais, atributos e coisas individuais, para tornar precisa a distinção do século XVII entre as substâncias e os seus modos.

Richard Foley
Encyclopedia of Philosophy, ed. Donald M. Borchert (Macmillan Reference, 2006), Vol. II, pp. 242–244.

Bibliografia

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ISSN 1749-8457