18 de Novembro de 2018 ⋅ Filosofia da ciência

Para pensar sobre a ciência

Dennis Bessada
Introdução à Filosofia da Ciência
de Lisa Bortolotti
Tradução de Jorge Beleza
Lisboa: Gradiva, 2013, 335 pp.

No ano de 2015 foram divulgadas na imprensa algumas notícias acerca de uma das mais esperadas descobertas científicas dos últimos tempos. Em matéria divulgada pelo sítio da National Science Foundation dos Estados Unidos (uma das principais agências de financiamento de pesquisas científicas deste país),

[c]ientistas observaram, pela primeira vez, ondulações no tecido do espaço-tempo chamadas de ondas gravitacionais, que chegaram à Terra oriundas de um evento cataclísmico ocorrido no universo distante. Isto confirma uma previsão feita em 1915 por Albert Einstein em sua Teoria da Relatividade Geral, o que abre uma nova janela para a observação do cosmos, algo sem precedentes na história recente da ciência.1

A notícia naturalmente empolgou cientistas e entusiastas da ciência em geral e da Física em particular, e reforçou uma concepção particular da ciência, que podemos chamar de ingênua, segundo a qual esta é a maior realização do engenho humano, cujo método permite investigar de modo preciso e exato as mais variegadas facetas da realidade. Sob esse prisma, a ciência torna-se o instrumento mais fiável do intelecto humano, a ponto de, conforme assinala o filósofo espanhol José Ortega y Gasset, “[d]urante o século XIX, todas as ciências exercitaram o mais desabrido imperialismo. Era este o modo vital que inspirou toda esta época em todos os aspectos” (Ortega y Gasset, 1994: 63; grifos meus). Isso significa dizer que os demais campos do conhecimento, que em seu conjunto compunham a cultura europeia do século XIX, tornaram-se áreas de importância secundária em comparação à ciência e seu produto mais imediatamente percebido — a inovação tecnológica — algo que sobejamente caracterizou o referido século, especialmente em sua segunda metade.

Pelo que observei acima é lícito estender a observação de Ortega y Gasset para os séculos XX e XXI; contudo, diferentemente do que ocorrera no século XIX, o supramencionado “imperialismo” científico foi e é renhidamente combatido pelos chamados filósofos da ciência — aqueles pensadores que, em linhas gerais, se dedicam a estudar os pressupostos filosóficos da ciência e de sua prática. Afinal, a “realidade é muito complexa para ser compreendida por qualquer mente” (Sowell, 2011: 17.); logo, todo esforço para compreendê-la — e inclusa nesta empresa está a ciência — haverá de sofrer severas limitações. Segundo Lisa Bortolotti, a autora do livro que ora passarei a examinar,

[…] é difícil assinalar o que a ciência tem de especial: as generalizações indutivas são falíveis, o método usado pelas ciências não pode ser facilmente explicado de uma maneira única e distintiva; uma teoria científica não tem de ser verdadeira nem de nos apresentar uma descrição precisa da realidade para receber confirmação empírica, para ser empregue na explicação ou para funcionar como um instrumento de previsão eficaz. (p. 209)

O parágrafo acima evidencia o fato de que a ciência, longe de ser aquele rio de águas calmas por onde as certezas navegam, é, antes de tudo, uma espécie de mar tormentoso como o enfrentado por Odisseu ao passar entre Cila e Caríbdis (Odisseia, Canto XII, 85-125; 219-259): consiste em um corpo de conhecimentos falível e passível de revisão; o que hoje parece uma explicação satisfatória para um dado fenômeno natural amanhã poderá vir a ser uma asserção contraditada por novos dados empíricos. Para que um iniciante possa se guiar neste mar tempestuoso e pingue de dissensões que caracteriza a filosofia da ciência, é mister munir-se de um bom guia; para tal desiderato, o livro de Lisa Bortolotti é uma grata opção.

A autora parte de uma pergunta fundamental, que consiste no chamado problema da demarcação: qual (ou quais) critério(s) nos permite fazer a distinção entre a ciência e a não-ciência? À primeira vista, e em especial para os que nunca tiveram contato com os problemas filosóficos da ciência, tal pergunta parece ter uma resposta bem clara, quiçá até mesmo óbvia dentro da visão ingênua da ciência. Porém, conforme apresenta a autora logo no primeiro capítulo, intitulado Demarcação, tal fronteira não é tão simples de se traçar. Para discutir o problema da demarcação a autora adota uma abordagem histórica, onde principia com o critério adotado pelos positivistas lógicos — a verificabilidade das afirmações científicas — e a contrasta, posteriormente, com algumas objeções levantadas por Karl Popper e a consequente introdução do critério da falsificabilidade. As objeções ao critério de Popper também são apresentadas em linhas gerais, pois serão retomados em capítulos posteriores (3 e 5); o ponto central aqui é o contraste entre os critérios introduzidos anteriormente. Porém, longe de se estabelecer um consenso neste acalorado debate, a autora aborda a perspectiva do “vale tudo” de Paul Feyerabend, segundo a qual não é possível se estabelecer um critério de demarcação satisfatório tal qual Popper e os positivistas lógicos tentaram empreender:

Feyerabend (1975) defende um ponto de vista segundo o qual a ciência é apenas uma tradição de pensamento entre muitas outras, e que não é caracterizada por um tipo qualquer de regras metodológicas próprias e rígidas. O desenvolvimento histórico da ciência mostrou que foram feitos vários tipos de abordagens a questões a que hoje chamamos científicas, e que foi precisamente esta variedade de métodos que tornou o progresso possível. (p. 41)

Se a demarcação entre ciência e não-ciência leva a critérios divergentes ou mesmo a nenhum critério específico, a autora dá o próximo passo e analisa uma segunda versão do problema ao questionar o que faz uma atividade humana poder ser considerada como instância de investigação científica. Aqui ela chama a atenção para a importância da metodologia como um critério demarcatório entre a atividade científica e outra qualquer, e é no segundo capítulo, intitulado Raciocínio, que introduz alguns de seus elementos mais fundamentais. A autora consegue introduzir, de forma breve, porém clara e didática, rudimentos das regras de inferência, delineando a estrutura dos argumentos dedutivos e não dedutivos como a indução por enumeração e a inferência a favor da melhor explicação. Ela não apenas os discute como também explana suas principais diferenças por meio de alguns exemplos, e o fato de evitar a linguagem simbólica torna o capítulo especialmente adequado a um leitor que não tenha ainda sido apresentado a tais temas. Munida de tais definições, a autora passa a examinar o método científico segundo a contribuição de Francis Bacon em seu Novum Organon:

[o] método descrito por Bacon começa com a observação dos fenômenos naturais. [...] Da experiência sensível, partimos então para axiomas inferiores, e dos axiomas inferiores para axiomas superiores, que operam a um nível de generalidade cada vez maior. A partir dos axiomas superiores, podemos esperar obter leis da natureza a partir das quais se podem prever novos dados e organizar observações de novos fenômenos. (p. 79)

Bacon desenvolve sua proposta metodológica ao mesmo tempo em que ocorrem algumas descobertas e observações cruciais no âmbito da física e da astronomia, formando o conjunto que viria a consistir na chamada (quiçá algo impropriamente) revolução científica (é digna de nota a discussão que a autora faz a respeito deste tópico entre as páginas 80 e 85, pois trata-se de um excelente e didático resumo). É neste período, que dura dos séculos XVI ao XVIII, e que conta com a crucial contribuição de Bacon, que a chamada ciência moderna adquiriu seus contornos. Entretanto, é no mesmo século XVIII que o filósofo escocês David Hume introduz o célebre problema da indução, o que põe em causa um dos mais importantes pilares da ciência moderna, e que se tornou uma das questões centrais da filosofia da ciência. Por meio de exemplos e comparações ela explica de forma didática a dimensão do problema, e posteriormente aborda a problemática contemporânea formulada por autores como Peter Strawson, Max Black, Elliot Sober e Wesley Salmon. De qualquer modo, apesar das controvérsias levantadas acerca da fiabilidade do raciocínio indutivo, ressalta a autora que

[e]mbora a indução não seja um garante de sucesso, uma vez que não nos é possível descobrir independentemente se a natureza é uniforme [i.e., se o futuro de um dado evento haverá de se comportar como já o fora observado no passado, premissa fundamental no raciocínio indutivo], ainda assim ela funciona melhor do que as alternativas disponíveis. (p. 100)

Ao explicitar a importância do trabalho de Francis Bacon e sua ênfase na introdução do raciocínio indutivo como pilar central da ciência, especialmente no que tange à análise dos resultados empíricos, a autora dá um passo adiante em relação aos critérios de demarcação abordados no capítulo precedente, pois o método científico passa a ser um ingrediente fundamental do que se pode chamar atividade científica, distinguindo-a das demais que não seguem o referido método. Contudo, uma questão remanesce: como, a partir dos dados da experiência, os cientistas podem elaborar teorias que tenham um poder de prever novos fenômenos? Em que sentido observações futuras podem confirmar uma dada teoria? Tais pontos são abordados no terceiro capítulo, intitulado Conhecimento. Para começar, a autora explora o que vem a ser uma teoria científica, e introduz as concepções sintática e semântica das teorias. No primeiro caso, ela aborda a concepção sintática a partir dos trabalhos de Rudolf Carnap e Carl Hempel, e faz uma breve e didática explanação do que são os termos lógicos, observacionais e teóricos, e como a concepção sintática liga tais termos para a construção de uma dada teoria. A ênfase de tais autores se dá na separação da estrutura lógica das teorias de seu conteúdo empírico e de seu significado, de modo que a prática científica se paute pela objetividade e independência de fatores externos (tais como os de ordem psicológica ou sociológica). Em contraposição a tais ideias, a autora introduz a concepção semântica, segundo a qual a separação proposta pelos positivistas lógicos não pode ser feita uma vez que as definições em voga não podem ser necessariamente expressas em linguagem formal. Na discussão apresentada fica claro que não há uma explicação definitiva acerca da relação entre observações e as hipóteses teóricas, mas o fundamento empírico da ciência fica salvaguardado, pois

[…] os filósofos da ciência concordam que as teorias podem ser confirmadas ou infirmadas por mais observações e experiências, o que garante sua fundamentação empírica.

Quando afirmam que uma observação confirma (ou infirma) uma hipótese, os filósofos querem dizer que a observação constitui um indício confirmante (ou infirmante) de tal hipótese. Como vimos, as hipóteses universais não podem ser verificadas de modo definitivo, independentemente do número de observações que com elas concordem, pois o número destas observações será sempre finito. (p. 118)

Deste modo, a autora mostra que, em que pese ser falível o método indutivo, ele ainda assim é útil no sentido de fornecer indícios a favor da confirmação (ou não) de uma dada teoria científica. Porém, neste caso, em que consiste a confirmação de uma teoria? É esta a tarefa que a autora se propõe a discutir na sequência. Para tanto, a autora introduz o modelo hipotético-dedutivo da confirmação proposto por Hempel. Por meio da análise da condição de Nicod empreendida por ele, a autora emprega o conhecido paradoxo dos corvos para explicar o modelo de Hempel de forma didática. Em seguida, explora as críticas ao referido modelo e centra-se fundamentalmente na abordagem bayesiana da teoria da confirmação. Contudo, aqui a discussão deixa a desejar, pois o método da autora seguido até então — uma abordagem curta, mas objetiva e direta da questão, ilustrada com exemplos — não me pareceu eficiente para introduzir o Teorema de Bayes. Para um iniciante na matéria seria necessária uma discussão mais elementar sobre a teoria da probabilidade, em especial no que tange à probabilidade condicional, ferramenta-base do teorema de Bayes. Em que pese tal deficiência (pequena, em comparação com as virtudes da exposição do livro), a discussão geral atende, a meu ver, leitores que conheçam os rudimentos da teoria da probabilidade.

Após discutir uma crítica à abordagem bayesiana da confirmação, a autora ilustra a problemática da confirmação de teorias científicas:

[…] qualquer tentativa de formalizar o modo como os cientistas operam quando avaliam hipóteses com base em indícios novos ou previamente adquiridos é tendencialmente problemática. As tentativas de formalização dão origem a inconsistências e paradoxos, ou não conseguem captar o que os cientistas efetivamente fazem, e se vêem a fazer, quando testam teorias. (p. 131)

Na esteira das “inconsistências e paradoxos” das abordagens da confirmação de teorias, a autora examina o enigma de Goodman de forma detida e através de exemplos e esquemas. No final do capítulo a autora expõe as principais abordagens no que se refere à explicação científica. Ela dá especial ênfase ao modelo nomológico-dedutivo de Hempel, tanto no que tange ao funcionamento do modelo quanto às suas críticas, e desenvolve os argumentos sempre à luz de exemplos. A abordagem de Hempel segue o positivismo lógico, para o qual a confirmação e a explicação de teorias científicas se dão em termos das relações lógicas entre certas afirmações. Porém, as críticas a tal abordagem sugerem que tais relações lógicas não são suficientes para abranger todas as facetas da prática científica, pois não são totalmente imunes a fatores externos e subjetivos. É neste contexto que a autora conclui o capítulo com as considerações a respeito da abordagem pragmática à explicação científica advogada por Bas Van Frassen,

[…] segundo o qual um facto explica outro facto relativo a uma teoria que é aceite. Os pressupostos importantes nesta abordagem são: 1) a teoria usada para dar uma explicação dos factos por que nos interessamos não precisa ser verdadeira, ou mesmo empiricamente adequada, para desempenhar o papel explicativo requerido; 2) as explicações são relativas a um contexto [...]. (p. 147, grifos meus)

Nesta concepção fica evidente a dependência da explicação em relação ao contexto, pois ela é sempre relativa a uma teoria e aos interesses das pessoas que a procuram. Logo, não pode haver, segundo tal abordagem, uma acepção única de explicação, pois as explicações atendem a finalidades e interesses diferentes e que podem ser igualmente importantes.

Diante da controvérsia existente entre a correlação dos termos teóricos e observacionais a autora dá um passo adiante no capítulo quarto, intitulado Linguagem e Realidade, o qual principia com a discussão acerca das teorias que estabelecem como um dado termo obtém seu referente. Ela introduz de forma didática e através de exemplos as duas teorias sobre o significado que determinam a referência dos nomes próprios, a saber, o descritivismo e a teoria causal da referência. Um dos exemplos dados e bem discutidos a respeito da teoria causal se refere à experiência mental da terra gêmea, de Putnam; em torno deste a autora logra confrontar as duas teorias do significado expostas anteriormente, e o contraponto oferecido permite tanto um aprofundamento dos temas (dentro do escopo introdutório proposto no livro), quanto inferir certas implicações do descritivismo. É nesse ponto que a autora introduz a questão da incomensurabilidade do significado proposta por Thomas Kuhn. A descrição do problema em si feita por ela é muito boa, mas o ponto crucial aqui se refere ao modo como a autora distribui a contribuição de Kuhn ao longo do livro. Nos capítulos anteriores a autora menciona-o apenas topicamente, já que deixa uma explanação mais detalhada de sua contribuição para o capítulo quinto; porém, no capítulo quarto ela toma conceitos que somente irá explorar com maior detalhe no capítulo seguinte, e o faz para a discussão da incomensurabilidade do significado, algo pertinente para a temática inicial do capítulo ora em análise. Contudo, para um iniciante, tais idas e vindas na apresentação da teoria de Kuhn podem ser uma fonte de confusão. De qualquer modo, a autora desenvolve uma narrativa histórica bem adequada para elucidar a questão da incomensurabilidade, partindo da evolução do significado dos termos “elemento” e “combustão” ao longo do tempo.

A discussão das teorias do significado serve como preâmbulo à discussão mais fundamental do capítulo em questão, que concerne o realismo científico. Após uma breve análise do realismo filosófico e dos reptos cépticos, ela passa ao debate realismo versus anti-realismo:

[a] discussão sobre o realismo científico diz respeito à capacidade que as nossas teorias científicas actuais têm de descrever e explicar a realidade [...]. A força da hipótese anti-realista reside no pensamento de que mesmo que as nossas teorias científicas actuais não correspondessem correctamente a objetos e propriedades reais no mundo, provavelmente ainda assim funcionariam suficientemente bem, e não teríamos maneira de discriminar entre o facto de serem (aproximadamente) verdadeiras e apenas empiricamente adequadas. (pp. 182-183)

A forma de realismo descrita acima — o chamado realismo pleno — assume que as teorias aceites são ou verdadeiras, ou aproximadamente verdadeiras. Já o anti-realismo estabelece importantes argumentos contra esta visão:

[s]erá que os electrões existem realmente? Será a inflação real? Eis o repto à posição realista: nada justificaria o passo que vai entre aceitar uma teoria científica que pode prever eficazmente os fenômenos num dado domínio e acreditar que as entidades e as relações postuladas pela teoria existem realmente. [...] Nenhumas provas confirmantes que recolhemos para cada teoria específica nos podem dizer se a teoria é mais do que apenas uma ferramenta útil para a previsão dos acontecimentos que queremos ser capazes de controlar. (p. 183)

Após tal introdução a autora passa a examinar os argumentos contra o realismo, como a meta-indução pessimista, a subdeterminação e a tese de Duhem-Quine. Em particular, a autora compara a tese de Duhem-Quine ao falsificacionismo de Popper, já mencionado no capítulo primeiro. Em seguida, discute três alternativas ao realismo: o instrumentalismo, o empirismo construtivo e a atitude ontológica natural (NOA). Tais discussões empreendidas pela autora são breves, porém claras e atendem as necessidades de um texto introdutório. O desfecho do capítulo se dá com a defesa do realismo. Aqui a autora faz as devidas distinções entre o realismo pleno, que não se sustenta satisfatoriamente perante os ataques do argumentos anti-realistas, e algumas formas de realismo moderado, tal como o realismo estrutural e o realismo interno. O primeiro parte do pressuposto de que há uma distinção entre estrutura e conteúdo; assim, mesmo que as teorias científicas não captem a natureza dos fenômenos que pretendem explicar, elas captam as relações entre eles. No segundo caso, advogado por Putnam, estabelece que tudo o que supomos real somente o é dentro de um dado esquema conceitual no qual operemos.

O parágrafo citado na página 2 da presente recensão (página 209 do livro) resume a série de questões problemáticas levantadas até aqui pela autora; de fato, “é difícil assinalar o que a ciência tem de especial”. Tal comentário principia o quinto capítulo, intitulado Racionalidade. Partindo das perguntas “será que a ciência evolui de maneira progressiva?”, e “será a mudança na ciência guiada por princípios racionais?”, a autora passa a investigar o que pode haver de especial na ciência. Assim, mesmo diante de uma posição realista plena,

[…] a natureza do progresso em ciência obriga-nos a reconhecer que há teorias que foram aceites no passado e que já não são consideradas verdadeiras, e que postulavam a existência de entidades ou relações que hoje pensamos nunca terem existido. Como podemos confiar que nossas teorias actuais são realmente melhores que as anteriores, e não meramente diferentes? Será que a escolha da teoria a adoptar pode ser apoiada por argumentação racional? (pp. 209-210)

Eis então o mote para a introdução do embate entre os historicistas e os racionalistas na questão da mudança científica. Os primeiros são evidentemente representados por meio das teorias de Thomas Kuhn, para o qual a mudança científica se dá tanto devido a fatores externos quanto internos à ciência. Os segundos são representados por Karl Popper, e a autora ainda cita Larry Laudan, que parece situar-se entre os dois grupos. Após a breve caracterização das posições, ela passa a discutir o conceito de mudança de paradigma, e faz uma ilustração do processo através da história da “descoberta“ do oxigênio, que levaria, segundo Kuhn, à revolução química. Tal episódio é então utilizado para ilustrar o conceito de revolução na ciência. Posteriormente, a autora lança os contrapontos à teoria de Kuhn, introduzindo de forma bem clara os chamados programas de investigação de Imre Lakatos. Por fim, analisa os estilos de raciocínio de forma breve.

A autora logra descrever em linhas gerais o processo de mudança científica, mas um detalhamento maior da contribuição de Popper, similarmente ao que fez com as teorias de Kuhn e Lakatos, enriqueceria ainda mais o debate proposto no capítulo. De todo modo, a autora expõe seu posicionamento intermédio entre a exigência de plena objetividade advogada pelos racionalistas e a concorrência de fatores externos (ideológicos, sociais, políticos, etc.) como vetor fundamental da mudança científica propalada pelos historicistas:

Porém, devemos contestar o pressuposto partilhado neste debate: porque é que não pode haver racionalidade na mudança se reconhecermos que esta é afectada não apenas pelos méritos objectivos de uma teoria e pela sua adequação aos indícios disponíveis, mas também pela maneira como opera a comunidade científica como um todo? O significado do contributo da ciência para o corpo de conhecimento partilhado nas nossas comunidades só pode ser completamente apreciado se virmos a ciência como parte da sociedade. É por ter em certos momentos resistido e noutros sucumbido às pressões de “fora” que a ciência se tornou o que é hoje: uma instituição social, ao invés de um mero conjunto de disciplinas acadêmicas unidas por um qualquer método abstracto. (p. 246)

Entretanto, apesar de situar a ciência como “instituição social”, a autora não remete o leitor interessado ao debate mais acerbo no campo das influências externas ao fazer científico (como a questão da orientação ideológica, por exemplo). É claro que, dado o escopo introdutório do livro, tal debate torna-se uma questão de somenos, mas a inclusão de uma bibliografia correspondente seria um acréscimo de valor ao livro.

Após ter introduzido a concepção historicista que considera a interação entre a ciência e fatores externos (como os sociais), a autora abre seu sexto e derradeiro capítulo, intitulado Ética, com a seguinte questão: devem os objetivos de uma dada investigação científica, juntamente com os procedimentos que os tornam possíveis, ser sujeitos a alguma espécie de restrição de ordem ética? Claro está que, em sendo um empreendimento humano, a ciência e sua prática trazem em seu bojo consequências a ser partilhadas com toda a sociedade, seja no tocante a benefícios, seja a malefícios; logo, discussões de ordem ética são fundamentais. Neste quesito, a autora centrou sua análise em dois debates acalorados e atuais: um, relacionado à questão do aperfeiçoamento no que tange à reprodução assistida, e outro acerca da legitimidade da ilusão metodológica na psicologia. Os debates escolhidos são instrutivos já que vão diretamente ao cerne da questão, portanto ilustram de modo inequívoco a importância das considerações éticas na prática científica.

De um modo geral, o livro cumpre bem o papel que se propõe, o de ser uma introdução à Filosofia da Ciência. O extensivo uso de exemplos, bem como de tabelas-resumo oferece ao leitor uma didática introdução a temas complexos, que se desvelam frequentemente em concepções distintas e muitas vezes opostas. A autora logra êxito não apenas na discussão de tais concepções isoladamente, mas também as situa de forma comparativa, o que dá ao leitor uma visão de conjunto do processo filosófico aplicado à ciência. Apesar do caráter introdutório da obra, o livro traz uma grande quantidade de informações, o que pode também servir a leitores que não são iniciantes no tema. Além disso, a profusão de questões para discussão e exercícios ao longo do texto são outros pontos de destaque, pois incitam o leitor a refletir acerca dos temas discutidos e o convida a solucionar alguns dos problemas suscitados ao longo da obra. Outro ponto extremamente positivo da obra é glossário no final do livro.

Afora o conteúdo do texto, já fartamente analisado, é mister citar algumas falhas na edição do livro. O índice proposto não é extensivo, pois inclui apenas os capítulos e respectivas seções, mas não as subseções, que são muitas. Ademais, a ausência de um índice remissivo no final do livro é uma falha considerável, mas infelizmente esta é uma prática comum em publicações em língua portuguesa. O maior problema desta edição, contudo, reside exatamente na ausência de algumas referências bibliográficas no final do livro: a autora faz as devidas referências sob a forma (autor, data) ao final de cada capítulo, mas a grande maioria de tais citações não encontra sua descrição completa na bibliografia final!

Dennis Bessada

Referências

Nota

  1. Disponível em: https://www.nsf.gov/news/news_summ.jsp?cntn_id=137628. Acessado em 24/10/2018. ↩︎