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Crítica
18 de Outubro de 2023   Epistemologia

Epistemologia confiabilista

Alvin Goldman e Bob Beddor
Tradução de L. H. Marques Segundo

Um dos principais objetivos dos epistemólogos é oferecer uma abordagem substancial e explicativa das condições nas quais uma crença tem algum status epistêmico desejável (tipicamente, justificação e conhecimento). Do ponto de vista confiabilista, qualquer teoria epistemológica adequada terá de levar em conta a confiabilidade do processo responsável pela crença ou, de maneira mais geral, considerações acerca da verocondutibilidade. Historicamente, uma das grandes motivações para o confiabilismo — e uma fonte duradoura de interesse — é o seu potencial naturalista. De acordo com os confiabilistas, as propriedades epistêmicas podem ser explicadas em termos de confiabilidade, que, por sua vez, pode ser entendida sem referência a quaisquer noções não reduzidas, tais como a noção de evidência ou de conhecimento.

Esse artigo começa com um levantamento das principais formas de confiabilismo, concentrando-se no confiabilismo processual enquanto teoria da justificação. Em seguida, passa em revista algumas das principais objeções ao confiabilismo e algumas das respostas oferecidas a seu favor. Após um panorama dos desenvolvimentos recentes na epistemologia confiabilista, considera alguns primos e derivações da epistemologia confiabilista, incluindo o confiabilismo de virtudes e várias teorias híbridas evidencialistas-confiabilistas.

1. Uma mudança de paradigma da epistemologia analítica

Grande parte dos epistemólogos na década de 1960 estava absorta pela seguinte questão: o que é preciso que uma crença tenha para que seja conhecimento? Concordava-se em geral que para que uma pessoa, S, saiba uma proposição p, pelo menos três condições tinham de ser satisfeitas. Em primeiro lugar, p tem de ser verdadeira. Em segundo, S tem de acreditar que p. E, em terceiro, S tem de estar justificado em acreditar que p. O conhecimento, então, requer crença verdadeira justificada. Mas será que a satisfação dessas três condições é suficiente para S saber que p? Infelizmente, como demonstrado de maneira convincente pelos exemplos de Edmund Gettier (1963), crença verdadeira justificada não garante o conhecimento.

Algumas tentativas subsequentes de explicar o conhecimento tinham características amplamente “confiabilistas”, embora tal terminologia ainda não fosse usada. De acordo com a “teoria das alternativas relevantes”, dizemos que um sujeito sabe que p quando ele é capaz de “eliminar” alternativas relevantes em que p não é o caso (Dretske 1970; Goldman 1976; Stine 1976; Lewis 1996). De acordo com as “teorias rastreadoras”, um sujeito sabe que p quando as suas crenças “rastreiam a verdade” de p através de um espaço modal. As teorias rastreadoras são tipicamente formuladas em termos de condicionais subjuntivas, tal como a “sensitividade”: se p fosse falsa, S não acreditaria que p (Nozick 1981), ou a “segurança”: se S acreditasse que p, p seria verdadeira (Sosa 1999; Williamson 2000; Pritchard 2005). Essas abordagens reúnem-se sob a ideia de que o conhecimento requer alguma forma de confiabilidade. (Veja o artigo sobre a análise do conhecimento).

Nesse meio tempo muitos epistemólogos voltaram sua atenção a um conceito epistêmico correlato: o conceito de justificação (epistêmica). A crença justificada é considerada em ampla medida como uma condição necessária — embora insuficiente — para o conhecimento. Por conseguinte, a justificação tem de ser considerada como um conceito central a ser explorado e elucidado pelos epistemólogos.

A justificação, todavia, mostrou-se um conceito bastante esquivo. Em 1979 Alvin Goldman publicou um artigo intitulado “What Is Justified Belief?” [“O que é a crença justificada?”], que se distanciava de várias posições bastante influentes sobre a justificação epistêmica. Anos mais tarde, diversos epistemólogos reconheceram esse artigo como um ponto de virada, ou “mudança de paradigma”, na epistemologia. Michael Williams (2016: 3) chamou de “a revolução confiabilista”. Essa reviravolta ensejou um vivo debate sobre os tipos de fatores que determinam o status epistêmico das crenças ou das credenciais de um sujeito.

1.1 Os componentes básicos: a confiabilidade dos processos mentais na determinação de crenças verdadeiras e falsas

A ideia central por trás da abordagem confiabilista de Goldman é a de que a justificação de uma crença depende da história mental da crença do sujeito. Em particular, depende da confiabilidade do(s) processo(s) que causaram a crença em questão. Ideias algo similares (ou segmentos delas) já tinham sido previamente defendidas, muito embora o foco tenha sido o conhecimento e não a justificação. Frank Ramsey (1931) escreveu que uma crença se qualifica como conhecimento se for verdadeira, certa e obtida através de um processo confiável. Ele, contudo, não ofereceu uma defesa detalhada dessa tese. Peter Unger (1968) propôs que S sabe que p apenas no caso de S estar correto sobre “não ser acidental” que p. David Armstrong (1973) ofereceu uma análise do conhecimento não-inferencial que explicitamente faz uso do termo “confiável”. Ele traçou uma analogia entre um termômetro que indica a temperatura de maneira confiável e uma crença que indica a verdade de maneira confiável. Todos esses autores parecem endossar alguma variante de confiabilismo, muito embora haja uma ou outra diferença da versão à qual daremos atenção neste artigo. Por exemplo, Armstrong promoveu uma variante de confiabilismo “de indicação” e não “de processos psicológicos”. E Unger apresentou como determinante central à justificação a “não-acidentalidade” em vez da “verocondutibilidade”. É claro, porém, que há bastante convergência entre essas versões. Os defensores contemporâneos do confiabilismo epistêmico sentem-se, por isso, bastante otimistas quanto estarem trabalhando em solo fértil. Os detalhes essenciais, porém, ainda precisam de aprimoramento, como veremos ao longo deste artigo. Vejamos agora alguns dos principais detalhes do confiabilismo de Goldman (1979, 1986) para a justificação.

Goldman começa propondo alguns desideratos a serem satisfeitos por qualquer teoria da justificação. Em primeiro lugar, as teorias da justificação deveriam especificar condições para a crença justificada que não invocassem o próprio conceito de justificação ou quaisquer outros conceitos epistemicamente normativos, tais como a razoabilidade ou a racionalidade. O objetivo é oferecer uma explicação “redutiva” da justificação que não apele explícita ou implicitamente a quaisquer noções que pressuponham a justificação ou qualquer outro membro dessa família. Há um complicador nessa exigência. Por exemplo, ela poderia excluir uma análise da crença justificada em termos de “evidência”, a não ser que a própria evidência fosse caracterizada em termos não-epistêmicos. Quais os tipos de termos ou propriedades, então, serão apropriados para a construção de uma explicação da justificação? Dentre os conceitos ou propriedades permissíveis estão os doxásticos, como crença, descrença e suspensão de crença; e outros conceitos puramente psicológicos, como aqueles que se referem à experiência perceptual ou à memória. Dada a suposição de que a verdade e a falsidade são noções não-epistêmicas, elas poderiam também ser legitimamente usadas para a análise da justificação. Outro elemento admissível na explicação da justificação é a relação causal.

Tendo em conta tais restrições, Goldman foi então levado à teoria do “processo confiável”. (Note que o principal conceito a ser tratado aqui é o de justificação doxástica e não o de justificação proposicional. Isto é, a atenção volta-se para aquilo que faz uma crença ser justificada, não aquilo faz com que um sujeito tenha bases para formar tal crença). Primeiramente, foram apresentados exemplos a fim de mostrar que a justificação das crenças particulares depende de como essas crenças foram causadas, ou causalmente sustentadas, na mente do sujeito. Suponha que Arthur acredite justificadamente numa conjunção de proposições, q & r, a partir da qual p se segue logicamente. Suponha também que, após formar a crença nessa conjunção, Arthur forma a crença em p. Segue-se disso que a crença de Arthur em p está justificada? Não. Embora Arthur acredite em q & r, essa conjunção pode não ter desempenhado qualquer papel causal na formação de sua crença de que p. Talvez ele tenha formado a crença de que p única e exclusivamente por meio de pensamento mágico [wishful thinking]. Talvez ele desejasse que p fosse verdadeira e por isso (de algum modo) veio a acreditar que p. Alternativamente, suponha que Arthur tivesse empregado um raciocínio confuso que começasse com q & r e, fortuitamente, chegasse a p. Em nenhum desses casos a crença resultante em p é verdadeira. Isso mostra que uma condição necessária para que uma crença seja justificada é que tenha sido produzida ou gerada de maneira adequada. E isso imediatamente levanta a seguinte questão: quais os tipos de processos de formação de crença são adequados e quais são defectivos ou inadequados?

Uma característica compartilhada tanto pelo pensamento mágico quanto pelo raciocínio confuso é a infiabilidade doxástica. Esses métodos de formação de crença comumente geram crenças que são falsas em vez de verdadeiras. Em contraste, quais são os tipos de processos de formação de crença que comumente conferem justificação? Incluem os processos perceptuais padrão, as rememorações, o bom raciocínio e a introspecção. O que todos esses processos compartilham? A confiabilidade: a maioria das crenças produzidas por eles são verdadeiras. (Essa formulação será refinada mais adiante). Assim, a proposta central feita em “What is Justified Belief?” é a de que a justificação ou a falta de justificação de uma crença é determinada pela confiabilidade ou pela infiabilidade do processo ou processos que a causaram. A confiabilidade aqui pode ser entendida tanto no sentido de frequência (pertencendo àquilo que ocorre no mundo efetivo) quanto no sentido de propensão (pertencendo tanto ao mundo efeito quanto a outros mundos possíveis). Uma crença ganha o status de “justificada” se for produzida por um processo (ou série de processos) que tem uma razão de verdade alta. O quão precisamente alto tem de ser essa razão é algo que permanece vago, da mesma forma como o próprio conceito de justificação é vago. O limiar da razão de verdade não precisa ser tão alto quanto 1,0, muito embora tenha de ser maior (presumivelmente bem maior) do que 0,5.

Várias conclusões foram extraídas desses pontos principais; refinamentos também foram feitos. Uma consequência foi que o confiabilismo processual é uma teoria histórica. Por exemplo, um processo inferencial confiável confere justificação a uma nova crença somente se as crenças de input (as premissas) forem elas próprias justificadas. Como a justificação dessas crenças de input surgiu? Presumivelmente porque foram produzidas por aplicações anteriores de processos confiáveis. Tal cadeia de processos tem de se originar em última instância de um ou mais processos confiáveis não dependentes de inputs doxásticos. Os inputs perceptuais são bons candidatos para tais processos. Assim, nessa abordagem, a justificação é em geral o produto de uma história de processos cognitivos pessoais. O enquadramento histórico de tal teoria processual está em claro contraste com os enquadramentos epistemológicos mais tradicionais, tal como o coerentismo e (certas versões de) o evidencialismo. De acordo com essas teorias mais tradicionais, relações causais e históricas não desempenham papel na determinação da justificação. (Veja, porém, e.g., Goldberg 2012 e Fleisher 2019 para perspectivas que combinam elementos do coerentismo e do confiabilismo; para perspectivas que integram o evidencialismo e o confiabilismo, veja §4.2 abaixo). De maneira mais geral, o confiabilismo marca um importante rompimento com as abordagens do “instante de tempo atual”, de acordo com as quais o status epistêmico de uma crença no tempo t depende inteiramente dos estados mentais do sujeito em t.

Essas ideias fundamentais foram esquematizadas por Goldman em “What is Justified Belief?” (1979) em uma série de princípios que incluem cláusulas de base e cláusulas de recursão. Eis o primeiro:

  1. Se a crença de S de que p em t é produto de um processo cognitivo de formação de crença confiável (ou conjunto de processos), então a crença de S de que p em t é justificada.

Esse princípio dá conta de crenças causadas pela percepção e outras crenças que não dependem de estados doxásticos anteriores (como inputs). Crenças geradas por inferência, porém, requerem um princípio diferente. Quando uma nova crença resulta de uma inferência, o seu status justificativo depende não apenas das propriedades do processo inferencial, mas também de as crenças de input estarem justificadas. Para acomodar isso, um princípio um pouco mais complexo foi introduzido:

  1. Se a crença de S de que p resulta de um processo dependente de crença condicionalmente confiável, e se as crenças pelas quais esse processo operou para gerar a crença de S de que p estiverem elas próprias justificadas, então a nova crença de S de que p está justificada.

Para os padrões filosóficos esses princípios não são assim tão terrivelmente complexos. Desse modo, o confiabilismo processual é uma teoria comparativamente simples e direta. Tal simplicidade tem sido vista geralmente como uma virtude. É claro que as coisas são bem mais complicadas do que esses princípios conseguem cobrir. Veremos algumas complicações potenciais e os refinamentos dessa teoria logo abaixo.

1.2 Crenças justificadas vs. crenças injustificadas: alguns exemplos

Será verdade que, como afirma o confiabilismo processual, as crenças formadas por processos confiáveis são (intuitivamente) consideradas justificadas e que as crenças formadas por processo infiáveis são (intuitivamente) consideradas injustificadas? Eis alguns exemplos de processos que frequentemente conduzem a crenças falsas: pensamento mágico, apego emocional, palpite ou adivinhação, e generalização apressada. As crenças produzidas por esses processos seriam todas intuitivamente consideradas injustificadas. Assim, há uma alta correlação entre a infiabilidade de um processo e a falta de justificação. De modo similar, eis alguns exemplos de processos que comumente levam a crenças verdadeiras: processos perceptuais padrão, bom raciocínio e introspecção. Uma vez mais, há uma forte correlação entre a confiabilidade do processo e a crença justificada.

Deveríamos notar, é claro, que a justificação não é um conceito puramente categorial. Podemos considerar, e de fato consideramos, certas crenças como sendo mais certas e justificadas do que outras. Ademais, as nossas intuições sobre a justificação comparativa estão par a par com as nossas crenças sobre a confiabilidade comparativa dos processos causadores de crença (Goldman 1979; 1986: 103-4; 1992; 2008). Isso é bastante compatível com o confiabilismo processual.

2. Desafios e respostas

Vários problemas foram apresentados ao confiabilismo processual. Veremos aqui alguns dos principais desafios, enfatizando três deles que têm recebido grande atenção na bibliografia: o problema da clarividência (§2.1), o problema do novo gênio maligno (§2.2) e o problema da generalidade (§2.3). Em seguida veremos brevemente alguns desafios mais recentes.

2.1 O problema da clarividência

Um primeiro desafio às teorias confiabilistas da justificação foi apresentado por Laurence BonJour (1980), envolvendo um clarividente hipotético de nome Norman. Norman tem uma faculdade de clarividência perfeitamente confiável. No entanto, ele não tem qualquer evidência ou razão a favor ou contra a possibilidade geral da capacidade de clarividência ou a favor ou contra ele próprio possuir tal poder. Certo dia o poder de clarividência de Norman gera a crença de que o presidente está naquele momento na cidade de Nova Iorque. Nenhuma experiência do tipo perceptual veio acompanhando essa crença, contudo; apenas a crença. Intuitivamente, diz BonJour, Norman não tem justificação para sustentar tal crença. O confiabilismo processual, porém, parece implicar o contrário. Uma vez que o poder de clarividência de Norman tem uma razão de verdade alta, a sua crença sobre o presidente tem de estar justificada. O confiabilismo, portanto, parece dar o resultado errado. (Exemplos similares são oferecidos por Keith Lehrer (1990) e Alvin Plantinga (1993)).

O confiabilismo tem várias respostas, incluindo os seguintes:

Confiabilismo da lista de processos

Uma resposta é optar por uma variante do confiabilismo processual simples, chamada de “confiabilismo de dois estágios” (Goldman 1992) ou “confiabilismo da lista de processos” (Fricker 2016). Em vez de oferecer uma explicação do que é a justificação, essa abordagem procura oferecer uma teoria de como as pessoas comuns fazem atribuições de justificação. Os confiabiabilistas da lista de processos oferecem a seguinte conjectura sobre como isso funciona. Num estágio preliminar os atribuidores formam opiniões sobre a confiabilidade ou a infiabilidade de variados processos de formação de crença, usando a observação e/ou fazendo inferências para chegar a conclusões sobre o histórico desses processos no mundo efetivo. Eles então constroem uma lista mental de processos confiáveis e infiáveis: listas de processos aprovados e desaprovados (respectivamente). No segundo estágio, eles usam essas listas para fazer juízos sobre crenças particulares (efetivas ou hipotéticas). Se a crença de alguém tiver sido causada por um processo que está em sua lista de aprovações — ou se assemelhar fortemente a algum processo dessa lista — ela será considerada justificada. Se tiver sido causado por um processo de sua lista de desaprovações, é classificada como injustificada.

De que modo o confiabilismo da lista de processos explica os juízos intuitivos no caso da clarividência? Um atribuidor comum, presumivelmente, não tem em nenhuma de suas listas um processo de clarividência. Mas ele poderia muito bem ter um processo como a percepção extra-sensorial ou a telecinesia em sua lista, especialmente em sua lista de desaprovações. O processo ou faculdade que Norman usa para formar a crença sobre o presidente parece muito similar a tais poderes obscuros e suspeitos. Desse modo, a crença de Norman é intuitivamente classificada como injustificada. Isso a despeito do fato — como diriam aos potenciais atribuidores — de os processos de clarividência de Norman serem completamente confiáveis.

O confiabilismo da lista de processos é uma teoria dos fatores que influenciam as nossas atribuições de justificação epistêmica. Por isso ela é naturalmente interpretada como uma teoria do atribuidor — uma teoria das condições sob as quais a atribuição de justificação (isto é, uma sentença da forma “S está justificado a acreditar que p”) é considerada verdadeira ou falsa. A isso ela se equipara às teorias de atribuição do conhecimento (e.g., DeRose 1992). Há diferentes modos de se desenvolver uma teoria de atribuição da lista de processos de modo mais preciso. Por exemplo, uma implementação contextualista poderia sustentar que uma atribuição de justificação é verdadeira se e somente se o processo de formação de crença do sujeito pertencer à lista de aprovações do falante. Alternativamente, poder-se-ia adotar uma implementação relativa ao avaliador, segundo a qual as condições de verdade das atribuições de justificação são relativizadas aos contextos dos avaliadores (cf. MacFarlane 2005). Uma versão da lista de processos relativa ao avaliador poderia sustentar que uma atribuição de justificação é verdadeira num contexto de avaliação se e somente se o processo de formação de crença do sujeito pertence à lista de aprovações do avaliador.

Apelo aos sistemas primais

Uma resposta diferente ao problema da clarividência é conceder que ser resultado de um processo confiável não é suficiente para que uma crença seja prima facie justificada. Antes, alguma outra condição tem de ser satisfeita. Uma versão dessa abordagem foi desenvolvida por Jack Lyons (2009, 2011); de acordo com ele, para que para que um crença não-inferencial seja justificada ela tem de ser o resultado de um “sistema primal”. Valendo-se da pesquisa na ciência cognitiva, Lyons propõe que um sistema primal é qualquer sistema cognitivo que satisfaça as duas seguintes condições: (i) é “inferencialmente opaco” — isto é, seus outputs não são resultado de uma cadeia de raciocínio introspectivamente acessível; e (ii) desenvolve-se como resultado da combinação entre aprendizagem e condições inatas (2009: 144). Para Lyons, os nossos sistemas perceptuais são exemplos paradigmáticos de sistemas primais.

De que modo isso nos ajuda com a objeção da clarividência? De acordo com Lyons, a apresentação que BonJour faz do exemplo nos faz naturalmente supor que a clarividência de Norman foi o resultado de algum desenvolvimento recente — e.g. “uma exposição recente a ondas radioativas” ou “um procedimento neurocirúrgico” — e não o resultado da combinação entre aprendizagem e condições inatas (2009: 118–119). Dada essa suposição, a crença de Norman baseada na clarividência não é resultado de um sistema primal, e, por conseguinte, não está prima facie justificada.

Uma terceira resposta possível à objeção da clarividência — que envolve a combinação do confiabilismo com elementos evidencialistas — será discutida no §4.2.

2.2. O problema do novo gênio maligno

Um segundo problema para o confiabilismo processual é o “problema do novo gênio maligno” (Cohen 1984; Pollock 1984; Feldman 1985; Foley 1985). Imagine um mundo em que um gênio maligno cria na mente das pessoas percepções não-verídicas de objetos físicos. Todas essas percepções são qualitativamente idênticas às nossas, muito embora falsas. Desse modo, os processos perceptuais de formação de crença (a julgar pelos fatos naquele mundo) são infiáveis; e as crenças produzidas por eles injustificadas. Mas uma vez que as experiências perceptuais dessas pessoas — por conseguinte, a evidência — são qualitativamente idênticas às nossas, não estariam tais crenças (produzidas no mundo do gênio maligno) justificadas?

Confiabilismo da lista de processos

Assim como com a objeção da clarividência, uma resposta é a adoção do confiabilismo da lista de processos (veja §2.1). Assim como anteriormente, os confiabilistas da lista de processos sustentarão que potenciais atribuidores construirão listas de processos de formação de crença, uma lista para tipos de processos aprovados e outra para tipos desaprovados. Os processos perceptuais (de todos os tipos) entrariam na lista de aprovações. Uma vez que as pessoas no caso do gênio maligno usam processos perceptuais da lista de aprovações, um atribuidor teria de considerar como justificadas as crenças resultantes — muito embora já tenha sido dito que os processos perceptuais no mundo do gênio maligno são infiáveis.

Confiabilismo indexical

Vários filósofos têm explorado ideias parecidas para resolver o problema do novo gênio maligno. Uma estratégia similar começa com a distinção entre duas maneiras diferentes pelas quais um processo pode ser confiável. Suponha que habitemos o mundo efetivo, @, e que estejamos a avaliar um sujeito que habita outro mundo, ws. Há duas coisas diferentes que poderíamos dizer ao afirmar que o processo de formação de crença de S é confiável: que é confiável relativo a @, ou que é confiável relativo a ws (Sosa 1993, 2001). Comesaña (2002) usa essa distinção para oferecer uma solução ao problema do novo gênio maligno formulando-a num enquadramento da semântica bidimensional (Stalnaker 1999). De acordo com a proposta de Comesaña, a sentença “S está justificado em acreditar que p” tem duas leituras: (i) que o processo de formação de crença de S é confiável relativo a @, e (ii) que o processo de formação de crença de S é confiável relativo a ws. Se ws é o mundo do gênio maligno, então (i) será verdadeira, mas (ii) falsa. Embora o uso que Comesaña faça da semântica bidimensional tenha atraído críticas (Ball & Blome-Tillman 2013), a estratégia básica para a solução do problema do novo gênio maligno recorrendo-se a dois tipos de confiabilidade continua popular. Para a discussão sobre uma abordagem parecida, veja a discussão sobre o confiabilismo de normalidade em §3.1.

Rejeitando a justificação nos mundos do gênio maligno

As respostas precedentes procuraram acomodar a sugestão de que a pessoa no mundo do gênio maligno tem crenças justificadas (chamemo-lhe a “tese do novo gênio maligno”). Outra resposta é rejeitar essa tese. Uma maneira de motivar a tese do novo gênio maligno é por apelo à premissa de que a pessoa no cenário do novo gênio maligno tem exatamente a mesma evidência que nós temos no mundo efetivo. Alguns filósofos, contudo, rejeitam essa premissa a favor de uma concepção externista de evidência. Por exemplo, Williamson (2000: cap. 9) sugere que a evidência de um agente é nada mais do que o seu conhecimento. Uma vez que a vítima do gênio maligno sabe menos do que nós sabemos, segue-se que ela tem menos evidência do que nós. Como enfatizado por Schellenberg (2016), esse tipo de evidência é compatível com a afirmação de que há alguma evidência compartilhada por nós e a vítima do gênio maligno. O que acontece é que nós possuímos um outro corpo de evidência que a vítima do gênio maligno não possui. Esse tipo de resposta levanta questões mais amplas sobre o que os confiabilistas deveriam dizer acerca da natureza da evidência. Veja §4.2.

Os filósofos que seguem essa rota tipicamente enfatizam que as crenças da pessoa no mundo do gênio maligno tem algum status positivo, ainda que tal status não seja a justificação. Por exemplo, Lyons (2013) aponta que as crenças inferenciais da vítima do gênio maligno são formadas por processos condicionalmente confiáveis, o que já é por si só um bem epistêmico. Outros filósofos têm defendido que as crenças da vítima do gênio maligno são desculpáveis, que não merecem censura, muito embora não sejam justificadas (e.g., Pritchard 2012a). Essa questão relaciona-se intimamente com a bibliografia recente sobre a relação entre justificação epistêmica e a irrepreensibilidade epistêmica (veja, e.g., Kelp & Simon 2017; Brown 2018; D. Greco 2019, Williamson no prelo).

2.3 O problema da generalidade

O problema mais amplamente discutido para o confiabilismo processual talvez seja o problema da generalidade. Antecipado originalmente por Goldman em “What is Justified Belief?”, foi apresentado mais sistematicamente por Feldman (1985) e Conne e Feldman (1998). Qualquer crença particular é produto de um processo causal espécime na mente/cérebro do sujeito que ocorre num instante e local particulares. Tal processo espécime pode, no entanto, ser classificado de acordo com variados tipos, mais amplos ou mais estritos. Cada tipo terá associado a si um nível de confiabilidade, geralmente distinto dos níveis de confiabilidade dos outros tipos também instanciados. Que tipo repetível deveria ser selecionado para os propósitos de atribuição do quão confiável é um processo espécime? Se nenhum tipo (único) puder ser selecionado, o que estabelecerá o status justificativo da crença resultante?

Considere um exemplo concreto (Conee & Feldman 1998): Smith vê um bordo pela sua janela numa manhã ensolarada e forma a crença de que há um bordo próximo à sua casa. Que tipo deveríamos selecionar para classificar esse processo de formação de crença? Seria a visão o tipo relevante? Ou quem sabe algo mais refinado como uma experiência visual de um bordo numa manhã ensolarada? Ou algo mais grosseiro como percepção? O problema é que esse processo particular de formação de crença parece instanciar todos esses processos tipo (e muitos outros mais). Parece, portanto, arbitrário que selecionemos um deles como a maneira “correta” de tipificar tal processo.

Os confiabilistas têm proposto várias estratégias para lidar com o problema da generalidade. Algumas delas podem incluir o seguinte:

Abordagens psicológicas (Alston 1995; Beebe 2004; Kampa 2018; Lyons 2019)

Nem toda maneira de descrever um processo de formação de crença corta a realidade psicológica em suas juntas. Considere, por exemplo, o processo tipo formar uma crença perceptual enquanto se está usando meias verdes. Intuitivamente essa parece ser uma maneira “inapropriada” ou “irrelevante” de descrever o processo de formação de crença de Smith. Mas por quê? De acordo com as abordagens psicológicas, é inapropriado porque faz menção a características das circunstâncias de Smith que não desempenham qualquer papel causal no processo psicológico responsável por sua crença.

Na discussão que fazem do problema, Conee e Feldman (1998) reconhecem que o apelo à psicologia ajudará a selecionar vários processos tipo elegíveis. Eles, contudo, expressam ceticismo quanto a isso sempre produzir um único processo tipo. Por que não haverá múltiplos processos tipo psicologicamente “reais” responsáveis por uma determinada crença particular? Desenvolvimentos subsequentes da abordagem psicológica tentam responder a essa preocupação. Por exemplo, Beebe (2004) propõe que os processos tipo relevantes serão sempre um procedimento ou algoritmo que processa informação. Haverá decerto indefinitivamente muitos tipos dessa categoria com confiabilidades variadas. Beebe oferece as seguintes instruções para a seleção de um tipo apropriado. Seja A o tipo mais amplo. Escolha uma partição que seja a subclasse mais objetivamente homogênea de A na qual se enquadre A; uma classe é objetivamente homogênea se não puder ser particionada de maneira estatisticamente relevante. Dutant e Olsson (2013) desafiaram a proposta de Beebe, argumentando que ela enfrenta um dilema: ou ela nem sempre produz um processo tipo único ou leva a uma trivialização colapsando a confiabilidade na verdade. Para uma variante da estratégia de Beebe que lida com o desafio de Dutant e Olsson, veja Kampa (2018).

Talvez a versão de uma abordagem psicológica mais plenamente desenvolvida seja a de Lyon (2019). Ele concorda com Beebe que os processos psicológicos relevantes são algoritmos que processam informação; mas adicionalmente sugere que tais algoritmos precisam ser relativizados a parâmetros, entendidos como variáveis psicológicas que afetam o processamento de maneira legiforme. Por exemplo, as condições de luz são parâmetros que afetam a velocidade e a precisão do processamento da informação visual. Na perspectiva de Lyons, o processo tipo apropriado para dada crença particular B será fornecido pela especificação algorítmica completa de cada processo psicológico causalmente relevante para B, conjuntamente com os valores dos parâmetros para todos esses processos. Como nota Lyons, o resultado dessa abordagem é a de que o processo tipo relevante será bastante refinado. O processo tipo de formação de crença de Smith não será a visão, mas algo como: o reconhecimento visual de objetos com base em estímulos retinais do tipo S, nas condições de luz C, com a atenção distribuída da maneira M.

Respostas defensivas (Comesaña 2006; Bishop 2010; Tolly 2017)

Uma abordagem diferente ao problema da generalidade consiste em insistir que, seja como for, qualquer epistemologia que se pretenda adequada, e não apenas o confiabilismo, terá de enfrentar o problema. Uma versão de “resposta defensiva” foi desenvolvida por Comesaña (2006), que argumenta que qualquer explicação da justificação doxástica terá de recorrer a uma relação basal. E isso vale até mesmo para as abordagens evidencialistas: afinal, os evidencialistas sustentam que para que uma crença B seja doxasticamente justificada, B precisa estar baseada num corpo de evidência que dê apoio a B. (Mais sobre o evidencialismo em §4.2). Comesaña, porém, argumenta que qualquer tentativa de caracterizar a relação basal incorrerá no problema da generalidade, ou algo bem próximo a ele. Comesaña afirma, além disso, que caso os evidencialistas estejam dispostos a simplesmente tomar por garantida a noção de relação basal, não haverá razão pela qual os confiabilistas não possam segui-los e utilizar a relação basal para resolver o problema da generalidade.

Uma resposta defensiva diferente foi desenvolvida por Michael Bishop (2010), que argumenta que o problema surgirá para qualquer teoria que permita a possibilidade de “justificação reflexiva” — isto é, ter uma crença B justificada com base no conhecimento que o sujeito tem de que B foi formada via uma forma confiável de raciocínio. Para discussão, veja Matheson (2015) e Tolly (2017).

Tanto Comesaña quanto Bishop se concentram na ideia de que todos os epistemólogos enfrentam uma versão do problema da generalidade. Uma ideia relacionada, embora distinta, é insistir que versões do problema da generalidade brotam por todos os lados, não apenas na epistemologia. Essa resposta foi desenvolvida recentemente por Goldman (no prelo), que aponta que nós regularmente avaliamos a confiabilidade de todo o tipo de processos, e nem todos eles cognitivos. Goldman ilustra com o exemplo de Geraldine, que gosta de fazer lances livres na quadra poliesportiva do bairro. A performance de Geraldine é uma função de muitos fatores, incluindo a maneira pela qual ela foca seus olhos na cesta, segura a bola, seleciona o ângulo em que vai acertar a tabela, etc. Considere agora que Henry, amigo de Geraldine, está a assistindo converter consistentemente mais de 80% de seus arremessos usando aproximadamente a mesma técnica. Henry pode não ser capaz de oferecer uma especificação detalhada do processo de arremesso de Geraldine. Não obstante, parece que ele está em posição de concluir que Geraldine usa algum processo tipo que é responsável pela realização da sua meta atlética, e que esse processo é bastante confiável.

Goldman (no prelo) argumenta que essas considerações têm duas lições. Primeiro, elas mostram que o problema da generalidade é bastante geral, uma vez que alguma versão dele surge em contextos não-epistêmicos. Segundo, Goldman pensa que essas considerações lançam dúvida sobre a suposição comum — explicitamente manifestada por Conee e Feldman (1998: 2-3) — de que uma solução adequada ao problema da generalidade precisará especificar um único processo tipo para toda e qualquer crença particular. De acordo com Goldman, um avaliador pode corretamente (e justificadamente) descrever um processo como confiável sem ser capaz de especificar em qualquer detalhe qual o processo tipo está sendo usado.

Abordagens de tipificação do “senso comum” (Goldman 1979; Jönson 2013; Olsson 2016)

Uma outra estratégia ainda é mudar de orientação e investigar como as pessoas comuns tipificam os processos de formação de crença. Suponha que perguntemos a um transeunte “Como Smith formou sua crença?”. É provável que ele responda “pela visão” e não “pela experiência visual de um bordo numa tarde de terça-feira enquanto de trocava…”. Inspiradas por essa observação, as abordagens do senso comum procura resolver o problema da generalidade em dois passos. Passo um: desenvolve uma teoria psicológica de como as pessoas comuns tipificam os processos de formação de crença. Passo dois: usa esse método de tipificação do “senso comum” para selecionar o espectro de candidatos a processo tipo.

Uma versão dessa abordagem foi elaborada por Erik Olsson (2016), que recorre a uma bem estabelecida teoria psicológica sobre conceitualização, a teoria de nível básico, desenvolvida por Eleanor Rosch na década de 1970 (Rosch et al. 1976). Rosche e seus colaboradores estudaram o uso de conceitos taxonomicamente relacionados, como “animal”, “cachorro” e “labrador”. Em tal taxonomia, um termo é um conceito dominante [superordinate] (“animal”), outro um conceito de nível intermediário (“cachorro”) e o terceiro um conceito subordinado (“labrador”). Ocorre que os conceitos de nível intermediário são massivamente preferidos em tarefas de nomeação livre (e.g., “Como você chamaria isto?”). Por exemplo, em um estudo, Rosch et al. viram que, de 540 respostas, de 530 a 533 convergiram para a mesma palavra de nível intermédio para nomear um objeto físico. Olsson sugere que as pessoas comuns talvez tendam a convergir da mesma forma para um conceito de nível intermédio ao tipificarem um processo de formação de crença. Essa conjectura foi empiricamente apoiada no trabalho de Jönson (2013). Ele exibiu vídeos aos participantes em que atores chegavam a várias conclusões, e pediu, logo em seguida, para que os voluntários especificassem como os atores adquiriram suas crenças. Os participantes convergiram para uma escolha de verbos que descrevem processos de formação de crença, mesmo sem pistas linguísticas que pudessem guiar o processo de tipificação. Jönsson também descobriu uma correlação entre as estimativas que os participantes faziam sobre a confiabilidade dos processos de formação de crença dos atores e os juízos que faziam sobre os atores estarem justificados em sustentar as crenças em questão. Há, desse modo, alguma evidência de que propensões psicológicas de senso comum nos levem a uma convergência em tarefas de tipificação de crenças e que as nossas avaliações de confiabilidade rastreiem os nossos juízos de justificação.

2.4 Outros desafios ao confiabilismo

Somam-se às objeções anteriores vários outros desafios, incluindo os seguintes:

O problema da facilitação [bootstrapping problem]

Considere o seguinte caso, oferecido por Vogel (2000). Roxanne é uma motorista que acredita naquilo que o seu medidor de gasolina diz sobre o estado de seu tanque de combustível, muito embora ela não tenha quaisquer razões antecedentes para acreditar que ele seja confiável. Roxanne olha frequentemente para o medidor e forma uma crença conjuntiva como a seguinte: o medidor agora marca “Cheio” & o tanque está cheio. Ora, o processo perceptual através do qual ela formou a crença de que o medidor marca “Cheio” é confiável; por conseguinte também é confiável o processo pelo qual ela forma a crença de que o tanque está cheio (dado que o medidor funciona de maneira confiável). De acordo com o confiabilismo, portanto, a crença de Roxanne naquela conjunção deveria estar justificada. Roxanne então deduz a seguinte proposição, o medidor agora está marcando de maneira acurada. A partir de múltiplas instâncias desse raciocínio ela induz a seguinte conclusão: o medidor é geralmente confiável. Por fim, com um pouco mais de dedução, ela concluí que está justificada em acreditar que seu tanque de gasolina está cheio. Uma vez que a dedução e a indução são processos confiáveis, Roxanne tem de estar justificada em acreditar que o seu tanque está cheio. Mas será esse veredito plausível? Definitivamente não, diz Vogel, pois tal facilitação equivale a uma forma viciosa de circularidade epistêmica.

Em resposta a esse problema deveríamos notar, em primeiro lugar, que esse não é um problema específico para o confiabilismo (Cohen 2002). Na verdade, o problema surge para todas as teorias que levam em conta a “justificação básica” — isto é, justificação que é obtida através de algum processo ou método X sem justificação antecedente para se acreditar que X é confiável. Como van Cleve (2003) convincentemente argumenta, teorias que não permitem justificação básica parecem levar a um ceticismo amplo.

Será que podemos oferecer uma explicação razoável de por que algumas formas de facilitação parecem ilegítimas (e.g., no caso de Roxanne) caso ainda queiramos levar em conta a justificação básica? Essa é uma área de pesquisa ativa. Uma sugestão é dizer que formas ilegítimas de facilitação envolvem investigação viciada [no lose investigations]. Grosso modo, uma investigação viciada de uma hipótese h é uma investigação que nunca poderia, em princípio, ir contra h. (Para sugestões nessas linhas, veja Kornblith 2009; Titlebaum 2010; Douven & Kelp 2013). Outra sugestão é dizer que formas ilegítimas de facilitação envolvem feedback epistêmico (Weisberg 2010). Suponha que um agente acredite nas premissas p1, …, pn a partir das quais ele infere os lemas l1, …, ln, dos quais, por suas vez, infere a conclusão c. O feedback epistêmico está presente quando a probabilidade de c condicional a l1, …, ln é maior do que a probabilidade de c condicional a p1, …, pn. O caso de Roxanne pode ser entendido nesses termos. Ela primeiro acredita em várias premissas sobre as leituras do medidor (e.g., o medidor marcar “cheio” no instante t; o medidor marca meio tanque em t*). Por fim, ao conjuntar essas premissas a esses lemas, ela vem a acreditar na conclusão: o medidor de gasolina é confiável. A probabilidade dessa conclusão condicional a apenas esses lemas (isto é, as crenças sobre o estado do tanque) é maior do que a probabilidade da conclusão condicional às premissas (isto é, às leituras do medidor). Talvez, se impusermos uma barreira às investigações viciadas ou ao feedback epistêmico (ou a ambos), possamos dar conta da intuição sobre Roxanne, e ao mesmo tempo dar conta da justificação básica. (Para um panorama sobre várias respostas ao problema da facilitação, veja Weisberg 2012).

O problema da anulação

Outro desafio ao confiabilismo provém do fenômeno da anulação epistêmica. Considere um caso em que um agente forme confiavelmente uma crença de que p num instante inicial, e, mais tarde, adquire alguma evidência (mesmo que enganadora) indicando que p seja falsa. Por exemplo, suponha que Alice olhe para um vaso vermelho sob boas condições de iluminação e forme a crença de que o vaso é vermelho. Chega então um amigo e lhe diz que, na verdade, ela está olhando para um vaso branco iluminado por luzes vermelhas. Parece que esse testemunho torna a crença dela injustificada, muito embora tenha sido originalmente formada por um processo confiável. De que maneira os confiabilistas poderiam acomodar tal veredito?

Em “What is Justified Belief?” Goldman reconheceu esse tipo de problema e sugeriu a adição de uma condição de “não anulação” à teoria da justificação epistêmica. Ali ele elucidou uma abordagem da anulação em termos contrafactuais. Grosso modo, a sua crença B é anulada quando há algum processo confiável (ou condicionalmente confiável) X disponível tal que, caso você estivesse usando X, você deixaria de sustentar B. De acordo com essa perspectiva, a crença de Alice é anulada porque, estivesse ela a usar o processo acreditar no testemunho do amigo, ela não acreditaria que B. Essa abordagem da anulação, contudo, está sujeita a vários desafios. Por exemplo, Beddor (2015) argumenta que ela está comprometida com uma versão da “falácia contrafactual”, o que a deixa susceptível a contraexemplos. Também Lyons (2009: 124) e Beddor (2021) apontam que ela tem problemas para acomodar casos em que um anulador é anulado por outro.

Mas ainda que rejeitemos uma abordagem da anulação ao longo dessas linhas o confiabilista tem outras opções. Por exemplo, alguém poderia sugerir que podemos lidar com o problema tipificando adequadamente a crença do agente. Talvez, após o testemunho do amigo, a crença de Alice já não seja o resultado da visão apenas, mas antes da visão ao mesmo tempo em que desconsidera o testemunho que a visão é infiável. (Veja Constatin 2020 e Nagel 2021 para versões dessa resposta). Um problema com essa resposta é saber se ela é consistente com as nossas teorias de tipificação de processos mais promissoras; nesse ponto, o problema da anulação se conecta ao problema da generalidade. Outra estratégia para lidar com a anulação é modificar o confiabilismo incorporando elementos evidencialistas na teoria. Adiemos uma discussão mais detalhada dessa manobra até §4.2.

Vale ainda notar que o tratamento confiabilista à anulação pode também impactar em outros problemas enfrentados pelo confiabilismo. Considere novamente a objeção da clarividência. Uma outra resposta a essa objeção, brevemente sugerida por Goldman (1986: 112), é que a crença de Norman é prima facie justificada, embora seja anulada. A viabilidade dessa resposta dependerá dos detalhes da teoria da anulação adotada pelo confiabilista.

O problema da temporalidade

Um desafio mais recente é apresentado por Frise (2018), o “problema da temporalidade”. Os confiabilistas sustentam que o status justificativo de uma crença depende da confiabilidade do processo responsável por essa crença. Frise aponta, contudo, que um processo pode ser mais confiável num determinado tempo do que em outro. Para dar um dos exemplos de Frise, as previsões meteorológicas foram sendo aprimoradas ao longo do tempo. Assim, o processo tipo formar uma crença com base na previsão do tempo é mais confiável agora do que já foi há vinte anos. Isso levanta um problema sobre os parâmetros temporais que deveríamos usar quando avaliamos a confiabilidade. Suponha que estejamos avaliando se uma crença B é justificada em t. Devemos restringir a nossa atenção a se o processo de formação de crença responsável por B é confiável em t? Ou devemos checar se ele tem sido confiável até t? Ou em todos os instantes temporalmente próximos a t? Ou ao que mais?

Essa questão não tem recebido muita atenção por parte dos confiabilistas, mas veja Tolly (2019) como exceção. Uma questão que merece mais investigação é se a solução ao problema da generalidade preferida dos confiabilistas se generalizará a ponto de ajudar com o problema da temporalidade. Por exemplo, de acordo com a abordagem do “senso comum” descrita acima, há considerável convergência nos juízos que as pessoas comuns fazem sobre como tipificar processos de formação de crença. Se isso estiver correto, será que também haverá convergência nos juízos que as pessoas comuns fazem sobre quais épocas são relevantes para a avalição da confiabilidade de determinado processo? Se sim, será que poderíamos usar esse consenso do senso comum para avançar no problema da temporalidade?

3. Novos desenvolvimentos do confiabilismo

Vamos agora considerar alguns desenvolvimentos relativamente recentes na epistemologia confiabilista. Na próxima seção veremos vários primos e derivações do confiabilismo.

3.1 Confiabilismo de normalidade

Como vimos em §2.2., uma questão crucial para as teorias confiabilistas diz respeito ao domínio no qual a confiabilidade de um processo deve ser avaliada. Recentemente alguns autores têm explorado a ideia de que deveríamos considerar esse domínio com sendo as condições normais para o uso de um determinado processo.

Jarrett Leplin (2007, 2009), por exemplo, rejeita o ponto de vista comum de que um processo confiável é aquele que produz uma razão alta entre verdades e falsidades. Em seu lugar Leplin desenvolve uma concepção de confiabilidade de acordo com a qual um processo/método é confiável se nunca produziria ou manteria crenças falsas sob circunstâncias normais (veja Leplin 2007: 33; 2009: 34-35). Uma proposta similar foi desenvolvida por Peter Graham (Graham 2012. 2020). Graham se aproveita das abordagens etiológicas à função de Larry Wright (1973) e Ruth Millikan (1984), dentre outros, e desenvolve uma teoria da legitimidade epistêmica [epistemic entitlement] em termos de funcionamento apropriado. Então, assim como Leplin, Graham tenta usar a abordagem da normalidade para lidar com alguns contraexemplos familiares ao confiabilismo processual.

Por que favorecer uma versão de confiabilismo baseada na normalidade? Uma motivação provém do problema do novo gênio maligno. A vítima do gênio maligno forma crenças através da percepção — um processo que é infiável em seu mundo. No entanto, continua a resposta, as condições normais para a percepção não incluem gênios malignos e coisas do tipo. Nesses mundos a percepção é de fato confiável.

Ainda há trabalho a ser fazer no desenvolvimento de versão de confiabilidade baseada na normalidade, particularmente na elucidação da noção de “circunstâncias normais”. Para dizer o mínimo, porém, as abordagens baseadas na normalidade oferecem uma variante bem vinda das formas mais tradicionais de confiabilismo. Essas abordagens também fazem paralelos com desenvolvimentos recentes na análise do conhecimento. Por exemplo, D. Greco (2014), inspirando-se na ideia de Dretske (1981), desenvolve uma análise informacional do conhecimento, posta em termos de condições normais. De maneira similar, Goodman e Salow (2018) e Beddor e Pavese (2020) propuseram variantes de “condições normais” da condição de segurança ao conhecimento (como o tipo discutido em §1).

3.2 Além do confiabilismo individualista

Muitas versões do confiabilismo são “individualistas” em pelo menos dois sentidos. Primeiro, elas pressupõem que o status justificativo da crença de um agente depende inteiramente da confiabilidade do processo que ocorre dentro da cabeça do agente. Segundo, pressupõem que portadores de status justificativo são as crenças dos agentes individuais, e não de grupos. Recentemente, vários filósofos têm desenvolvido versões de confiabilismo que revisam ou abandonam essas pressuposições individualistas.

Sanford Goldberg (2010) desenvolve uma perspectiva distinta da crença testemunhal que abandona a primeira suposição individualista. Goldberg pede que imaginemos um informante, A, formando uma crença perceptual de que p, que é transmita via testemunho a uma audiência, B, que vem a acreditar que p. A crença perceptual de A de que p, contudo, foi formada abaixo do limiar para a justificação. Goldberg afirma que a crença de B de que p baseada no testemunho não é conhecimento. Além do mais, a razão pela qual ela não é conhecimento é porque ela não é justificada. Afinal, essa crença poderia muito bem ser verdadeira e estar livre de gettierização. Mas se a crença de B de que p não está justificada, essa falha de justificação não se deve a qualquer infiabilidade no processamento mental que B faz do testemunho de A. Deve-se, em vez disso, ao fato de a crença original de A de que p não estava suficientemente justificada. Goldberg conclui que o status justificativo das crenças testemunhais depende — em parte — da confiabilidade do processo cognitivo do sujeito que emite o testemunho.

Passemos à segunda suposição individualista: os portadores de status justificativo são sempre as crenças dos agentes individuais. Um novo movimento na epistemologia social tem colocado essa suposição em xeque. Esse movimento começa com a observação de que nós rotineiramente atribuímos crenças a grupos. Por exemplo, falamos sobre o júri acreditar se o réu é culpado, ou sobre aquilo que o Comitê das Mudanças Climáticas acredita serem as causas do aquecimento global. Uma crescente bibliografia investiga a natureza das crenças de grupos e as maneiras pelas quais a crença do grupo depende das crenças dos membros dos grupos. Para um importante trabalho sobre esse tópico, veja Gilbert (1989) e List e Pettit (2011); para um panorama veja o verbete sobre fusão de crenças e agregação de juízos.

Além de investigar as condições nas quais um grupo sustenta uma crença particular, podemos também investigar as condições nas quais as crenças do grupo são justificadas. Alguns epistemólogos sociais têm buscado responder a essa questão em termos confiabilistas. Por exemplo, Goldman (2014) desenvolve uma perspectiva da justificação de grupo modelada de acordo com a maneira pela qual as inferências transmitem justificação para um agente individual. De acordo como confiabilismo processual, a justificação inferencial para indivíduos depende de dois fatores: (a) a justificação das crenças que formam as premissas, e (b) a confiabilidade condicional do processo inferencial usado. De modo similar, Goldman sugere que a justificação de grupo depende de dois fatores: (a) a justificação das crenças dos membros, e (b) a confiabilidade condicional da função de agregação de crenças (uma função que especifica o modo pelo qual as crenças do grupo dependem as crenças dos membros). Os detalhes da proposta de Goldman foram discutidos criticamente por Lackey (2016) e Dunn (no prelo), ambos propondo abordagens alternativas às condições sob as quais as crenças de grupo são justificadas.

3.3 Confiabilismo e graus de crença

Historicamente o confiabilismo foi oferecido como uma teoria do status justificativo da crença plena ou total. Todavia, é bastante comum pensar que as crenças ocorrem em graus: uma pessoa poderia acreditar que o dia está ensolarado e também acreditar que é segunda-feira, mas ter um grau de crença mais alto na primeira do que na segunda. Isso levanta a questão: poderá o confiabilismo ser estendido de modo a dar conta do status justificativo dos graus de crença?

Os epistemólogos formais há muito se interessam por diferentes “regras de pontuação” — funções que medem a precisão ou imprecisão dos graus de crença (doravante, credenciais). Por exemplo, uma regra de pontuação amplamente discutida é a escala de Brier (Brier 1950). Seja C(p) a credencial de um agente em p; seja T(p) a função indicadora de p, tal que recebe 1 se p for verdadeira e 0 se p for falsa. A escala de Brier é calculada pela seguinte fórmula: (C(p)-T(p)).2

Desse modo, uma credencial 1 numa proposição verdadeira produzira uma pontuação 0 na escala de Brier — o melhor resultado possível. Uma credencial 1 numa proposição falsa produzirá uma pontuação 1 — o pior resultado possível. Uma credencial intermediária de 0,6 produzirá uma pontuação de 0, 16 caso a proposição seja verdadeira, e 0,36 caso seja falsa.

Dada uma regra particular R, podemos desenvolver uma medida da confiabilidade do processo (Dunn 2015; Tang 2016; Pettigrew 2012). Seja X algum processo de formação de credencial: isto é, um processo que dá como resultado credencias em uma gama de proposições. Podemos usar R para pontuar todas as credenciais produzidas por X. Os confiabilistas processuais podem então usar essa medida de confiabilidade para oferecer uma explicação da justificação para credenciais: uma credencial é (prima facie) justificada sse for produzida por um processo confiável de formação de credencial.

Qual é a regra de pontuação mais adequada para se usar no confiabilismo processual? Tem havido recentemente algum trabalho para lidar com essa questão. Consideraremos, no que se segue, duas regras de pontuação particularmente proeminentes — a escala de Brier e a escala de calibragem.

Dada a sua proeminência na bibliografia, a escala de Brier é a opção mais natural. Mas o uso da escala de Brier para medir a confiabilidade dos processos de formação de credencial enfrenta dificuldades. Por exemplo, Dunn (2015) e Tang (2016) objetam que se a escala de Brier for usada, um processo de formação de credencial que produz apenas credenciais de nível médio (digamos, de 0,6) nunca se qualificaria como altamente confiável; de modo que as credenciais produzidas por ele nunca contariam com altamente justificadas. Tanto Dunn quanto Tang objetam a essa consequência. Por exemplo, Tang argumenta que às vezes um input particular exige que se tenha uma credencial média. Se tenho uma vaga experiência visual da silhueta de um cavalo, então parece que eu deveria ter apenas uma credencial média de que há um cavalo defronte a mim: uma credencial de 0,6 nessa proposição poderia muito bem estar justificada, ao passo que uma credencial de 1 ou 0 não.

Outra opção é medir a confiabilidade do processo formador de credenciais usando uma escala de calibragem. Para compreendermos o que significa dizer que um estado credal é bem calibrado, considere o seguinte exemplo, oferecido por van Fraassen:

Considere um meteorologista que diz que a probabilidade de chover de manhã é de 0,8. Neste dia choverá ou não. O quão bom é este meteorologista? É claro que para avalia-lo temos de examinar o seu desempenho no decorrer de um período de tempo mais longo. A calibragem é uma medida do acordo entre os juízos e as frequências reais […] Esse meteorologista estaria perfeitamente calibrado no ano passado, por exemplo, se, para cada número r, a proporção de dias chuvosos dentre aqueles dias nos quais ele anunciou uma probabilidade r de chuva se igualou a r. (van Fraassen 1984: 245)

De acordo com a abordagem da calibragem, uma credencial é justificada sse for produzida por um processo bem calibrado. Isso evita a objeção ao uso da escala de Brier: afinal, um processo que produz credenciais médias pode ainda assim estar calibrado.

A abordagem da calibragem, porém, tem seus problemas. Goldman (1986) pede que imaginemos um agente, A, cujas opiniões se mostram verdadeiras 70% das vezes. A pode alcançar uma função de credencial perfeitamente calibrada adotando uma credencial 0,7 sobre cada uma das opiniões que tiver. Goldman argumenta, porém, que é errado concluir automaticamente que o estado credal de A é perfeitamente confiável. Se A não tiver boas razões para adotar uma credencial 0,7 em muitas das proposições em questão, então o seu estado credal não deveria ser considerado justificado. Dunn (2015) defende a abordagem da calibragem argumentando que a questão relevante é se o processo que produziu o estado credal de A é confiável. Para responder essa questão não é suficiente examinar a razão de verdade das opiniões de A no mundo efetivo; antes, deveríamos olhar para uma gama de mundos próximos. Se for apenas uma questão de sorte que 70% das proposições sobre as quais A tem opinião são verdadeiras, então ao examinar os valores de verdade das opiniões de A nos mundos próximos, a abordagem da calibragem será capaz de evitar a consequência contraintuitiva de que o estado credal de A é perfeitamente confiável.

Tang (2016) objeta à abordagem da calibragem argumentando que um processo de formação de credencial pode estar bem calibrado e ainda assim ser insensitivo à evidência relevante. Considerando as falhas manifestas da abordagem da calibragem (e também das regras de pontuação), Tang propõe uma síntese do confiabilismo com o evidencialismo, sendo o evidencialismo aproximadamente entendido como a perspectiva de que a justificação de uma crença é determinada pelo apoio conferido pela evidência do sujeito. De acordo com a proposta de Tang, uma credencial de C(p) é justificada apenas se estiver baseada em alguma base g tal que a probabilidade objetiva da credencial ter um conteúdo verdadeiro dado g se aproxime de C(p). Mais recentemente, Pettigrew (2021) argumentou que essas duas abordagens não deveriam ser vistas de modo algum como concorrentes. Pettigrew sugere que podemos desenvolver uma versão da abordagem de calibragem que faça referência à evidência do agente. Uma vez que isso seja feito, essa versão acaba por ser extensionalmente equivalente à versão de Tang. Tanto a abordagem de Tang quanto a de Pettigrew podem, desse modo, ser vistas como uma síntese do confiabilismo com o evidencialismo, síntese essa que discutiremos com mais detalhes em §4.2.

4. Primos e derivações

Várias teorias se “ramificaram” a partir do confiabilismo processual, compartilhando algumas ideias centrais, por um lado, mas afastando-se de outras, por outro. Nessa seção discutiremos dois primos do confiabilismo processual: o confiabiilsmo de virtudes e a síntese do confiabilismo com o evidenciailismo.

4.1 Confiabilismo de virtudes

Como sugere o rótulo, o confiabilismo de virtudes é um ramo da epistemologia da virtude que emergiu em meados de 1980, logo em seguida ao confiabilismo processual, e que compartilha algumas características importantes com ele. Em particular, uma de suas noções teóricas centrais, a de competência epistêmica, assemelha-se à noção de processo tipo confiável. E a noção de exercício de uma competência epistêmica se assemelha à noção de processo espécime confiável. Os principais proponentes do confiabilismo de virtudes são Ernest Sosa (1991, 2007, 2010, 2015), John Greco (1999, 2010) e Duncan Pritchard (2012b). Vamos nos focar primariamente aqui na versão de Sosa.

A maioria dos confiabilistas de virtudes não usa explicitamente a noção de “processo confiável”, preferindo em vez disso as noções de “competência”, “virtude”, “habilidade” e “capacidade”. De que maneira deveríamos entender essas noções? Sosa geralmente caracteriza as competências em termos de disposições. Por exemplo:

Uma competência é um certo tipo de disposição para ser bem sucedido em suas tentativas. Assim, o exercício de uma competência envolve que se vise certo resultado. Ela é uma competência, em parte, porque é uma disposição para ser bem sucedido de maneira confiável ao se fazer tais tentativas […] Ela está por isso vinculada a uma condicional da seguinte forma: se alguém tentar fazer ϕ, (muito provavelmente) será bem sucedido. (2015: 96)

As competências epistêmicas — o tipo de competência relevante para a epistemologia — são disposições de uma variedade específica: disposições para se alcançar a verdade.

Uma questão que surge a tais abordagens da competência é de que modo iremos entender as disposições em questão. Serão elas disposições gerais que um agente tem para atingir a verdade sobre determinada área? Ou terão de ser entendidas como implicitamente relativizadas a processos ou métodos de formação de crença, tendo a competência epistêmica em cada caso a forma: a disposição para atingir a verdade quando empregado o processo X?

Da perspectiva de um confiabilista processual é necessário que se relativize as disposições a métodos ou processos de formação de crença. Afinal, os confiabilistas processuais insistirão que, para se saber se a crença de um agente em p é justificada ou se é conhecimento, não basta saber se o agente tem uma disposição geral para atingir verdades sobre questões relativas a p. Em vez disso, precisaremos saber se a crença particular desse agente em p foi resultado de um processo confiável. (Afinal de contas, um agente poderia formar a crença de que p através de um processo ultra confiável, mesmo que tivesse uma disposição geral para formar crenças sobre questões relativas a p de formas altamente infiáveis). Os confiabilistas processuais convictos sugerirão, todavia, que os confiabilistas de virtudes enfrentam um dilema: ou as competências epistêmicas são disposições gerais do agente, caso em que não serão capazes de cumprir as funções que lhes são exigidas (especificamente, explicar se uma crença é justificada ou se é conhecimento), ou são implicitamente relativizadas a processos, caso em que as competências não são significativamente diferentes dos processos de formação de crença confiáveis. Nesse último caso, as competências epistêmicas “colapsam” nos processos confiáveis.

Em pelo menos algumas discussões sobre as competências epistêmicas, os confiabilistas de virtudes mostram-se dispostos a relativizar as competências epistêmicas a processos. Por exemplo, Sosa descreve a boa visão e a visão em cores como competências epistêmicas paradigmáticas (Sosa 1991: 271; 2010: 467) — também exemplos paradigmáticos de processos confiáveis. Se as competências epistêmicas forem entendidas de modo a envolverem processos confiáveis, então o confiabilismo de virtudes herdará muitos dos problemas enfrentados pelo confiabilismo processual — em particular o problema da generalidade. (Nos termos dos confiabilistas de virtudes, teríamos o seguinte equivalente: “Como exatamente tipificaremos as competências epistêmicas?”). É claro que esse resultado não será surpreendente no caso de o problema da generalidade ser um problema para todos que procuram uma teoria adequada da crença justificada, como os proponentes da “resposta defensiva” já sugerida (§2.3).

O confiabilismo de virtudes difere do confiabilismo processual tradicional na escolha do seu analysandum. Historicamente, os confiabilistas processuais têm procurado oferecer uma explicação da justificação; os confiabilistas de virtudes, por sua vez, têm procurado oferecer uma explicação do conhecimento. É certo, todavia, que poderíamos tentar estender o confiabilismo de virtudes à justificação. Na verdade, se supusermos que o conhecimento implica a justificação, ser um confiabilista de virtude acerca do primeiro parece conduzir muito naturalmente ao confiabilismo de virtudes sobre o segundo. E se as competências epistêmicas forem entendidas como processos confiáveis, a abordagem confiabilista de virtudes à justificação que emerge presumivelmente será uma versão do confiabilismo processual.

Voltemo-nos agora às abordagens ao conhecimento do confiabilismo de virtudes. De que maneira os confiabilistas de virtudes se propõem a entender o conhecimento em termos de competências epistêmicas? Há diversas propostas ligeiramente diferentes disponíveis (J. Greco 2009, 2010; Sosa 2007, 2015; Turri 2011). No entanto, os confiabilistas de virtudes entendem o conhecimento tipicamente como envolvendo algum tipo de relação explicativa entre ter uma crença verdadeira e o exercício de uma competência epistêmica. Por exemplo, Sosa (2007) sustenta que S sabe que p se e somente se S acredita aptamente que p, sendo a crença de S apta se e somente se for correta por causa do exercício de uma competência epistêmica (veja também J. Greco 2009. 2010 para uma abordagem bem parecida). Mais recentemente Sosa (2010, 2015) defendeu uma abordagem similar formulada em termos de “manifestação”: conhecimento é crença cuja correção manifesta a competência do agente epistêmico (veja Turri 2011 para uma abordagem similar).

De que maneira tais abordagens lidam com casos à la Gettier? Sosa (2007: 94-97) discute o exemplo Nogot/Havit de Lehrer (1965) no qual um sujeito acredita verdadeiramente que alguém tem um Ford, muito embora acredite apenas com base no testemunho enganador de Nogot. Sosa diz que embora S sustente sua crença graças ao exercício de uma competência epistêmica, a sua crença não é correta por causa do exercício de uma competência epistêmica. Essa explicação levanta questões importantes sobre como entender a relação relevante “por causa de”: qual é exatamente a diferença entre uma crença verdadeira ser sustenta por causa de uma competência epistêmica e uma crença ser correta por causa de uma competência epistêmica? Outras formas de completar os detalhes de uma análise confiabilista de virtudes levantam questões similares.

Ainda que uma abordagem confiabilista de virtudes consiga lidar com alguns contraxemplos à la Gettier, resta ainda a questão de saber será capaz de lidar com todo o espectro dos contraexemplos à la Gettier. Um caso que parece causar problemas para os confiabilistas de virtudes é o cenário dos celeiros falsos (introduzido por Goldman (1976) e creditado a Carl Ginet). No cenário dos celeiros falsos, Henry vê da estrada um celeiro genuíno construído numa área lotada de muitos celeiros falsos perfeitos. Henry forma uma crença verdadeira de que há um celeiro em sua frente; além disso, o fato dele corretamente acreditar haver um celeiro em sua frente também parece ser causalmente explicado pelo exercício de sua competência visual. (Veja Lackey 2007 para uma apresentação convincente desse ponto).

Uma resposta a esse desafio é abandonar a esperança de que o confiabilismo por si só seja capaz de resolver cada um dos casos à la Gettier. Pritchard (2012b) segue essa tendência, optando por uma perspectiva que combina elementos da epistemologia da virtude com uma exigência de segurança ao conhecimento (sendo a segurança entendida, grosso modo, como a exigência de que a crença em questão não teria sido facilmente sustentada no caso de ser falsa). Da perspectiva de Pritchard, a crença de Henry de que ele vê um celeiro é insegura, e, por conseguinte, não conta como conhecimento. Se essa resposta é adequada é algo ainda em debate; para uma discussão relevante, veja Lackey (2006) e Beddor e Pavese (2020).

Uma avaliação completa dessas questões vai além do escopo deste artigo. Mas uma coisa é clara: uma característica que distingue o confiabilismo de virtude do confiabilismo processual clássico é o seu tratamento distinto do conhecimento. Esse tratamento, contudo, dá ensejo a várias questões importantes — questões que formam uma área ativa de pesquisa.

4.2 Síntese entre confiabilismo e evidencialismo

Há muito que o confiabilismo processual e o evidencialismo têm sido vistos como concorrentes, até mesmo como antitéticos, sendo o confiabilismo um paradigma de externismo e o evidencialismo um paradigma de internismo. Vários epistemólogos, contudo, vêm questionando tal antítese. Por exemplo, Comesaña (2010), Goldman (2011), Tang (2016), Goldberg (2018), Pettigrew (2021), Miller (2019) e Beddor (2021), todos eles desenvolveram teorias confiabilistas que incorporam certos elementos tradicionalmente associados ao evidencialismo.

Comecemos com a versão de Comesaña:

  1. S tem alguma evidência e,
  2. A crença de que p é baseada em e, e:
    a. e não inclui quaisquer crenças e o tipo produzir uma crença de que p com base em e é efetivamente confiável, ou
    b. e inclui crenças de S, todas elas justificadas, e o tipo produzir uma crença de que p com base em e é efetivamente condicionalmente confiável.

Essa versão se afasta pouco das versões padrão de confiabilismo. A mais óbvia é que ela envolve uma exigência evidencial. Tal exigência serve a duas funções. Primeiro, foi pensada para lidar com o problema da clarividência. Uma característica crucial da situação de Norman é ele não ter qualquer evidência de sua clarividência ou da localização do presidente. Essa é pelo menos uma das razões (diz Comesaña) pela quais temos a intuição de que Norman não está justificado. Segundo, Comesaña sugere que ao incorporar a evidência ao processo de formação de crenças, podemos fazer progresso no problema da generalidade. De acordo com essa perspectiva, o tipo relevante para um dado processo de formação de crenças será sempre: produzir uma crença tal e tal com base no corpo de evidência e.

Incorporar a noção de evidência a uma teoria confiabilista, ao mesmo tempo em que tem vantagens potenciais, também levanta problemas. Como já vimos, os confiabilistas processuais tradicionais resistem em definir “justificação” em termos de evidência porque não querem uma análise que dependa de noções epistêmicas não reduzidas (Goldman 1979). Além do mais, mesmo aqueles que não compartilham dessas ambições redutivas podem muito bem almejar alguma explicação da noção de “possuir evidência” que apareça na cláusula (1) do confiabilismo evidencialista. Comesaña sugere que sigamos Conee e Feldman (2004) em optar por uma interpretação “mentalista” de nossa evidência, segundo a qual a nossa evidência consiste em última instância em vários estados mentais. Embora isso seja um começo, permanece a questão de quais estados mentais constituem a evidência do sujeito. Serão experiências conscientes? Estados acessíveis à consciência? Crenças?

Uma possibilidade — não explorada diretamente por Comesaña — seria recorrer a recursos confiabilistas para oferecer uma resposta. Goldman (2011) faz uma sugestão assim ao desenvolver a sua síntese preferida de confiabilismo e evidencialismo. Goldman aponta que, embora os confiabilistas não tenham tradicionalmente recorrido à noção de evidência, as noções de estados mentais ou psicológicos desempenha um papel importante nas teorias confiabilistas. Afinal, além dos processos de formação de crenças há também os estados que servem como inputs a esses processos. Incluem-se entre eles tanto estados doxásticos (as crenças, primariamente) quanto várias experiências (perceptuais, mnemônicas, etc.). Embora os confiabilistas tipicamente não chamem tais estados de “evidência”, não há qualquer razão especial pela qual não possamos chama-los assim. Uma sugestão similar é feita por Beddor (2021), formulada em termos de razões em vez de evidência. Na proposta de Beddor, determinado estado psicológico s constitui uma razão prima facie para um agente sustentar uma crença B apenas no caso em que há algum processo confiável (ou, no caso de crenças inferenciais, condicionalmente confiável) disponível ao agente disposto a produzir B quando alimentado com s como input. (Veremos mais sobre as aplicações desse tipo de teoria um pouco a frente). Assim, talvez uma teoria híbrida não apenas nos ajude a tratar dos problemas que ameaçam os confiabilismo, como também ajuda a responder algumas questões recorrentes que historicamente ameaçam os evidencialistas.

Uma outra questão que surge à teoria híbrida diz respeito ao papel das características históricas (ou a falta delas) na teoria da justificação. Como notado em §1, as formas tradicionais de confiabilismo tornam o status justificativo de uma crença no instante t dependente não apenas das características do agente em t, mas também dos fatos sobre como o sujeito adquiriu a crença em questão. Eis um exemplo motivador para a dimensão “historicista” do confiabilismo tradicional (Goldman 1999). Sally leu, ano passado, na seção de ciências do New York Times, que o brócolis traz benefícios à saúde. Ela então formou a crença justificada de que brócolis faz bem à saúde. Ainda hoje ela tem essa crença, muito embora já não se lembre da evidência com a qual teve contato pela primeira vez. Além disso, nesse meio tempo, ela não encontrou qualquer outra evidência de qualquer outra fonte. Não está a sua crença de que brócolis faz bem à saúde justificada? Isso se deve presumivelmente à sua aquisição passada. É verdade que ela tem um tipo diferente de evidência, a saber, a sua crença (justificada) do (suposto) fato do qual ela parece se lembrar. Essa não é toda a evidência, contudo. Um determinante crucial do status justificativo de sua crença em t é o fato de que ela estava justificada em formar essa crença originalmente com base em boa evidência (de outro tipo). Tivesse a sua crença original sido baseada em evidência ruim, e.g., ter lido uma matéria similar numa fonte de notícias suspeita, ela já não teria sido justificada desde o início, de modo que a sua crença no instante t seria injustificada — ou, pelo menos, muito menos justificada. Isso indica que a evidência originalmente adquirida por ela ainda tem algum impacto sobre o status justificativo de sua crença em t.

O confiabilismo evidencialista de Comesaña carece claramente de tal condição histórica à justificação. Outras versões híbridas, no entanto, incorporam tal condição histórica, enfatizando-a como uma vantagem (Goldman 2011; Goldberg 2018; Beddor 2021). Por exemplo, Goldman (2011) defende uma abordagem de “dois componentes” à justificação, o que abre margem para uma dimensão da justificação em “graus de apoio” tanto quanto para uma dimensão de “geração causal apropriada”. Eis uma maneira simples de desenvolver tal teoria:

  1. A evidência total de S em t dá apoio à crença de que p; e
  2. A crença de S de que p é o resultado de um processo de formação de crenças confiável.

A condição 1 incorpora a exigência evidencialista tradicional à justificação. (Embora, como notado acima, essa condição pudesse sofrer uma virada confiabilista se caracterizássemos a evidência como os inputs de processos confiáveis). A condição 2, por outro lado, capta a dimensão da geração causal da justificação. Goldman sugere que uma perspectiva de dois componentes é a melhor alternativa para se preservar o melhor de ambas as abordagens.

Vale notar uma motivação final para as teorias híbridas. Já vimos (§4.2), como argumentam alguns, que os confiabilistas têm dificuldades em lidar com casos de anulação — casos nos quais um agente forma confiavelmente a crença de que p em algum instante inicial, e mais tarde adquire evidência indicando a falsidade de p. Essa evidência intuitivamente anula a justificação que S tem para acreditar que p, tornando sua crença injustificada (ainda que estivesse previamente justificada). Alguns autores têm sugerido recentemente que a melhor maneira de se acomodar a anulação num enquadramento confiabilista é através da introdução de elementos evidencialistas (entendidos em sentido amplo). Por exemplo, Miller (2019) defende uma versão híbrida de dois componentes. De acordo com essa perspectiva, casos de anulações são casos nos quais a condição 1 (a condição de apoio evidencial) não é satisfeita.

Outra abordagem a essa questão é desenvolvida por Beddor (2021), que oferece uma síntese da perspectiva confiabilista com uma abordagem à justificação das “razões em primeiro lugar” do tipo desenvolvido por John Pollock (veja, e.g., Pollock 1987, 1995). Na perspectiva de Pollock, uma crença é justificada na medida em que se baseia na cadeia de razões não anuladas que a apoiam. Uma característica distintiva do enquadramento de Pollock é a definição de anuladores em termos de razões: um anulador para a crença B é uma razão prima facie para acreditar que B é falsa (anulador refutante) ou uma razão prima facie para acreditar que as crenças do agente não dão apoio a B (anuladores enfraquecedores). Beddor sugere que, ao suplementar a sua abordagem com uma análise confiabilista das razões prima facie (do tipo esboçado acima), acabamos com uma teoria que é fiel às principais motivações do confiabilismo, ao mesmo tempo em que oferece um tratamento mais satisfatório à anulação.

Há, portanto, diversas maneiras de se desenvolver uma teoria híbrida entre confiabilismo e evidencialismo. Tais híbridos são uma promessa considerável para a superação de alguns dos problemas enfrentados tanto pelo confiabilismo quanto pelo evidencialismo. Frente a tal promessa, as teorias híbridas constituem terreno potencialmente fértil para pesquisa futura.

Alvin Goldman e Bob Beddor
Reliabilist Epistemology”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy, ed. Edward N. Zalta.

Bibliografia

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ISSN 1749-8457