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3 de Julho de 2017 | Filosofia geral

Estudar filosofia para pensar melhor: um caso de publicidade falsa?

Neven Sesardic
Tradução de Desidério Murcho

Uma companhia publicita o produto X afirmando que melhora substancialmente a memória e combate a demência. A companhia não fornece provas convincentes destas afirmações, e os estudos científicos não conseguem confirmar a existência dos efeitos estipulados. O leitor compraria X? Provavelmente não. Permitiria o governo e as agências de protecção dos consumidores que X fosse livremente publicitado sem pelo menos um aviso aos consumidores potencialmente ingénuos? Dificilmente, ao que parece.

Contudo, há um produto X semelhante que tem sido vendido a dezenas de milhares de pessoas desde há décadas sem qualquer queixa. Estou a falar de estudar filosofia numa universidade para melhorar a capacidade para pensar.

Há obviamente várias razões diferentes para os estudantes escolherem a filosofia: podem considerá-la intrinsecamente interessante ou querem tornar-se filósofos profissionais ou esperam descobrir o sentido da vida ou… Mas presumivelmente uma razão importante para investir no estudo da filosofia — para a maioria dos estudantes que não tencionam tornar-se professores profissionais — é a crença de que isso os fará pensar melhor e talvez aumente também as suas hipóteses de ter um bom emprego. Caso se descobrisse que o estudo da filosofia a nível da graduação não faz de modo algum pensar melhor nem melhora as oportunidades de carreira, pelo menos alguns pais poderiam ter mais relutância em pagar muito dinheiro para que os seus filhos obtenham uma graduação em filosofia. E poderá muito bem acontecer que alguns dos próprios estudantes potenciais tenham menos inclinação para incorrer numa considerável dívida universitária, sem qualquer expectativa de que irá gerar algum benefício palpável no mundo real. A dívida média dos estudantes de graduação nos EUA em 2016 era de $37 172 USD — o que, segundo algumas estimativas, pode custar-lhes $500 000 USD em poupanças perdidas para a reforma. Presumivelmente, alguns estudantes poderiam concluir que uma perda financeira tão grande não se justificaria com o deleite previsível da leitura supervisionada de Platão, Kant e Wittgenstein.

Os departamentos de filosofia estão certamente muitíssimo cientes da preocupação generalizada quanto à ausência de utilidade prática da filosofia, que (caso não seja resolvida) poderá ameaçar seriamente o número de alunos. É por esta razão que os departamentos tentam tantas vezes reassegurar os potenciais estudantes dizendo que estudar filosofia realmente acrescenta valor prático.

Por exemplo, o departamento de filosofia de Princeton remete para a lista da Associação Filosófica Americana de pessoas conhecidas de diversas áreas que estudaram filosofia na universidade e depois salta para a conclusão de que “as competências adquiridas na filosofia podem assim ser úteis em várias carreiras”. Mas é evidente que o mero facto de, ao longo do passado século, cerca de cem pessoas conhecidas de diferentes partes do mundo terem estudado filosofia não consegue mostrar que foram bem-sucedidos devido às competências que supostamente ganharam nos cursos de filosofia. A inferência é completamente inapropriada. Certamente que os filósofos de Princeton devem estar cientes de que se poderiam fazer listas semelhantes de pessoas eminentes que se graduaram em, digamos, literatura inglesa, economia, etc. (e já o foram). Podemos saber algo acerca da utilidade destes cursos partindo da mera existência destas listas? Claro que não.

O departamento de filosofia da Universidade de Nova Iorque (largamente considerado actualmente o melhor dos EUA, se não do mundo) pergunta no seu website para que serve uma graduação em filosofia, e responde: “Os estudantes correctamente se perguntam em que medida as suas escolhas de um curso universitário irão afectar as suas perspectivas de carreira. Não há razão para preocupações: a investigação mostra que fazer uma graduação em filosofia é uma preparação excelente para uma grande diversidade de carreiras”. Apesar de se dizer aos estudantes para não se preocuparem, na verdade deveriam preocupar-se. A primeira razão é que nenhuma investigação é realmente citada. Na verdade, nenhuma investigação que estabeleça este tipo de consequência benéfica do estudo da filosofia foi alguma vez citada na autopublicidade de outros departamentos de filosofia. Dado que este tipo de investigação enfrenta ainda variadíssimas dificuldades metodológicas e obstáculos muito sérios (como veremos), parece improvável que actualmente os estudos possam inequivocamente “mostrar” o resultado apresentado pelo departamento de filosofia da NYU. Logo, tudo isto dá-nos uma razão excelente para suspeitar que a afirmação da NYU é falsa e que a investigação que estabelece “que fazer uma graduação em filosofia é uma excelente preparação para variadíssimas carreiras” simplesmente não existe.

O departamento de filosofia de Harvard diz no seu website que “as competências que se adquire ao estudar filosofia são muitíssimo comercializáveis”. Alega além disso que em contraste com “muitas habilidades especializadas [que] acabam por se tornar obsoletas”, a filosofia ensina competências gerais de pensamento claro e de abordagem crítica, e que consequentemente “estas competências que a filosofia ensina serão sempre muito procuradas” e que “o estudante pode aplicá-las em qualquer área profissional”.

Será isto crível? Será provável que só por cumprir os requisitos básicos para ter uma graduação em filosofia em Harvard (12 cursos de graduação) o estudante pode adquirir competências que serão sempre muito procuradas e úteis para ele em qualquer área profissional? Que provas são oferecidas em apoio desta afirmação extravagante? Talvez alguns estudos independentes e imparciais ou investigação com peer review de estudiosos de psicologia, educação ou outras disciplinas relevantes?

Não. As únicas duas fontes para que o departamento de filosofia de Harvard remete o leitor nesta questão são um artigo frívolo, “Be Employable, Study Philosophy” originalmente publicado na revista The Tyee e uma página web,Philosophy: What Can It Do for You?”, feita por um jovem filósofo da Universidade de Pepperdine. O artigo da Tyee é também recomendado pelos departamentos de filosofia do MIT, UC Davis, Universidade Estadual do Ohio, Universidade de Wisconsin-Madison, Middlebury, Northwestern e Carnegie Mellon. A outra fonte (a página web) é recomendada a possíveis estudantes de filosofia por um dos melhores departamentos de filosofia do mundo, a Universidade de Rutgers, e também pelos departamentos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, City College New York, Middlebury e a Universidade George Washington. Segundo essa página web, o que a filosofia pode fazer pelo estudante é ajudá-lo a ter classificações elevadas em vários exames como o GRE, GMAT e LSAT e também “permite entrar na faculdade de medicina”.

A filosofia está mergulhada em optimismo acerca dos benefícios práticos de estudar filosofia. Os departamentos de filosofia dizem aos estudantes potenciais que, “porque estudar filosofia melhora as nossas capacidades analíticas, dá uma maior probabilidade de sucesso em exames como o GRE, LSAT e GMAT” (Universidade Estadual da Florida), e podem ser muito bem-sucedidos “em resultado de fazer uma graduação em filosofia” e “tendem a sair-se bem no GRE e no LSAT” (Notre Dame), dado que a filosofia desenvolve competências analíticas “não é de espantar, pois, que os estudantes que fazem um curso de filosofia se saem excepcionalmente bem nos exames de admissão de escolas profissionais e de pós-graduação” (Universidade de Michigan), “estudar filosofia pode também ajudar a entrar numa pós-graduação [uma vez que] os graduados em filosofia têm resultados de excelência em exames como o GRE, GMAT e LSAT” (Universidade de Wisconsin, Madison), dado o que se ensina nos cursos de filosofia “não é portanto surpreendente que os estudantes de filosofia têm tido sempre melhores resultados nos exames LSAT e GRE, em média, do que os estudantes de qualquer outra disciplina” (Universidade de Washington), “a filosofia fornece uma excelente fundação para estudos de pós-graduação” o que é evidenciado pelo facto de que os “resultados do GRE e do LSAT dos graduados em filosofia são superiores aos da maior parte dos outros cursos” (Universidade do Arizona), “porque a filosofia ensina os estudantes a analisar problemas difíceis, os graduados em filosofia têm quase sempre classificações mais altas em qualquer exame de admissão à pós-graduação (MCAT, LSAT, GMAT, GRE) à excepção dos graduados em ciências duras” (Claremont McKenna College), “a filosofia ajuda-nos a desenvolver várias competências importantes” e “podemos ver melhor como uma graduação em filosofia pode dar-nos uma vantagem na nossa carreira” a partir da informação de que “os graduados em filosofia se saem melhor do que quaisquer outros tanto nas secções de Raciocínio Verbal como de Escrita Analítica do GRE” (Universidade Carnegie Mellon), e assim por diante.

Todas estas declarações, de uma ou de outra maneira, reduzem-se à afirmação causal de que estudar filosofia tem como resultado obter classificações mais elevadas nesses exames. Muitos outros departamentos de filosofia prestigiados (incluindo os dois departamentos mais bem classificados nos EUA, NYU e Princeton) sublinham fortemente as classificações elevadas dos graduados em filosofia nos exames GRE, entre outros. É difícil ver por que razão esta informação seria transmitida neste contexto particular se não fosse para sugerir, uma vez mais, que estudar filosofia produz uma elevação dessas classificações. Em qualquer caso, ninguém deverá ter qualquer dúvida de que se considerará largamente que esta é a mensagem que se pretende transmitir. Sucintamente: se os departamentos de filosofia perguntam “Porquê estudar filosofia?” e depois dizem “Os graduados em filosofia têm classificações mais elevadas nos exames”, o público irá pensar que o que pretendem comunicar é isto: “Estudar filosofia leva a ter classificações mais elevadas nos exames”.

Por último, mesmo a Associação Filosófica Americana subscreve oficialmente a afirmação de que a formação em filosofia eleva as classificações: “Que a disciplina da filosofia forma os estudantes em competências altamente transferíveis é evidenciado pelo facto de os graduados em filosofia terem resultados excepcionalmente bons no LSAT, GMAT e GRE”.

Na realidade, contudo, não há justificação para estas afirmações. Ter classificações mais elevadas depois de estudar filosofia não mostra que essas classificações resultam de ter estudado filosofia. Tanto quanto sabemos, pode ser que os estudantes de filosofia sejam desde o início mais inteligentes do que a média, e que seja por isso que têm exames tão bons. Se isto for verdadeiro, as suas classificações elevadas não têm seja o que for a ver com o estudo da filosofia. Logo, enquanto esta hipótese alternativa não for eliminada, nenhuma inferência acerca dos benefícios práticos da filosofia é logicamente permissível.

Note-se a ironia. Na própria tentativa de promover a filosofia como uma maneira maravilhosa de melhorar o pensamento crítico e a lógica, os filósofos caíram em bloco numa das falácias lógicas mais comuns e facilmente detectáveis — post hoc, ergo propter hoc (ou seja, a A seguiu-se B, logo A causou B). Isto deve fazer-nos abrandar antes de nos apressarmos a aceitar a ideia de que a filosofia faz pensar melhor.

Mas não se centra a filosofia fortemente na lógica, análise de argumentos, abordagem crítica, etc.? Não deveria este facto, só por si, levar-nos a esperar que a exposição à filosofia conduziria quase certamente a alguma melhoria no pensamento e nas competências de raciocínio? Não necessariamente.

Para estabelecer que estudar filosofia faz pensar melhor e que é útil para várias carreiras depois da universidade, há três condições que têm de ser satisfeitas: 1) tem de haver alguma melhoria, 2) esta melhoria tem de persistir ao longo do tempo, e 3) o pensamento aprimorado tem de ser transferível para contextos exteriores ao ambiente educativo.

Com respeito a 1, há muito cepticismo acerca da eficácia de várias tentativas de ensinar lógica e pensamento crítico. Num balanço recente desta área de investigação, um dos principais especialistas em psicologia do pensamento, Philip N. Johnson-Laird, diz que “ninguém sabe se um curso em lógica melhora o nosso raciocínio na vida”. Ele menciona também a opinião do filósofo Stephen Toulmin de que a lógica é na verdade inapropriada para analisar verdadeiros argumentos. (O filósofo de Princeton Gilbert Harman defende uma perspectiva semelhante.) Ao falar sobre todas as estratégias propostas para ensinar lógica informal e pensamento crítico, Johnson-Laird diz que “ninguém parece ter demonstrado melhorias robustas no raciocínio em resultado de qualquer dessas estratégias”. Nem todos os investigadores concordam com esta análise tão desoladora, é claro. Contudo, mesmo quem é mais optimista concede habitualmente que os efeitos observados quando se ensina a pensar são na melhor das hipóteses moderados, ficando assim muito aquém das melhorias transformativas que são frequentemente publicitadas como efeitos expectáveis de estudar filosofia.

Quanto a 2, os benefícios para as competências do pensamento que são obtidas em alguns estudos desaparecem tipicamente depois de alguns meses ou anos. Mas se desaparecem depois de um curto espaço de tempo, estudar filosofia não conduz a uma melhoria persistente seja das competências de raciocínio do estudante seja da sua empregabilidade porque o objectivo é sempre assegurar melhorias significativas que não restrinjam apenas ao período de aprendizagem ou aos momentos imediatamente posteriores.

Com respeito a 3, o problema diz precisamente respeito a estas competências “transferíveis” que “podem ser aplicadas em qualquer profissão” e que alegadamente são ensinadas nas aulas de filosofia. Existirão, de todo em todo, tais competências transversais ou “gerais” e, caso existam, poderão ser ensinadas? Muitos psicólogos e educadores pensam que não podem em boa fé responder a estas duas perguntas afirmativamente. Por exemplo, um artigo muito citado sobre este mesmo tema termina com as seguintes palavras: “Na base das provas disponíveis, contudo, recolhidas de muitíssimas disciplinas diferentes, pensamos que procurar competências [gerais transversais] é uma quimera, um exercício fútil caro e desastroso”. Outro investigador em educação muito influente insiste que “o pensamento crítico não é uma competência” e que “não há um conjunto de competências de pensamento crítico que possam ser adquiridas e usadas independentemente do contexto”.

O problema central do objectivo dos filósofos de ensinar a pensar é que se trata supostamente de transferir o que se aprende numa aula de filosofia para uma diversidade enorme de situações da vida real e em diferentes empregos e carreiras. A investigação empírica não encontrou muitas provas deste tipo de transferência (a chamada “transferência geral”). Num conhecido livro acerca da transferência de aprendizagens lê-se o seguinte: “Uma vez mais, para lá de um nível mínimo, a bibliografia mostra claramente que não conseguimos obter uma transferência significativa das aprendizagens, tanto histórica como actualmente, em qualquer nível da educação”. Num artigo muitíssimo influente sobre a transferência o autor conclui: “A transferência tem sido estudada desde o início do século (XX). Apesar disso, há pouquíssimas provas empíricas que mostrem a ocorrência de transferência significativa e ainda menos que o mostrem em experiências controladas”.

Para ver a desconexão entre a audácia dos filósofos ao publicitar o seu método inadequadamente articulado para pensar melhor e a avaliação desencorajante dessa hipótese por parte de muitos académicos que investigam esta questão, considere-se (como ilustração) o seguinte contraste: por um lado, o proeminente filósofo de Yale, Shelly Kagan, escreve que “de todos os campos e disciplinas, um deles é o que mais sublinha crucialmente as competências em questão [pensamento crítico melhor, comunicação e ser criativo e original], e é, de facto, a filosofia” e que “uma razão para estudar filosofia é que nada é melhor para aprimorar a nossa capacidade para pensar por nós mesmos […]” (Ele não oferece qualquer justificação para estas afirmações.)

Por outro lado, no capítulo “Learning to Think: The Challenges of Teaching Thinking” do Cambridge Handbook of Thinking and Reasoning, os autores fazem uma revisão da bibliografia, apontam fortes razões para ser céptico quanto aos esforços para pensar melhor, e depois concluem: “Estas limitações são sinais de que as ambições mais elevadas quanto a ensinar a pensar estão ainda por realizar”. Igualmente, segundo a Macmillan Encyclopedia of Education, “a investigação tem mostrado que é muito difícil melhorar o raciocínio das pessoas, sendo a instrução em raciocínio lógico particularmente difícil”. Além disso, uma meta-análise recente de estudos que examinam se a universidade ensina realmente pensamento crítico termina com uma conclusão pessimista: “a limitação central na bibliografia […] é a incapacidade para chegar a conclusões causais claras”, sobretudo porque “os estudos revistos não distinguem os efeitos da universidade dos efeitos comuns da maturação, um problema persistente neste corpo de estudos”. Um artigo muitíssimo citado de 2002 expressa também cepticismo acerca da transferência: “A questão de as competências de raciocínio generalizáveis se transferirem ou não para contextos de raciocínio fora do ensino formal permanece em aberto na opinião dos principais investigadores”. E assim por diante.

Ora, dado que tudo isto é informação pública e facilmente acessível, por que razão tantos filósofos e instituições filosóficas persistem beatificamente na sua publicidade acerca de pensar melhor, face à investigação acumulada que nos dá amplas bases para sermos cépticos ou pelo menos cautelosos? E por que razão os filósofos quase nunca vêem dificuldades nestas promessas irrealistas dos maravilhosos feitos da filosofia? (Uma das pouquíssimas excepções é o filósofo de Georgetown Jason Brennan que apresenta uma crítica clara e cogente em dois posts num blog libertarista. Eu próprio levantei a mesma questão repetidamente no curso “Morality and Markets” que dei em Hong Kong de 2012 a 2015, e também num artigo e num livro.)

Por que há tão pouca resistência à venda de falsas esperanças? Uma resposta possível é que alguns filósofos estão certamente cientes de que o optimismo prevalecente não tem justificação mas não estão dispostos a falar para não prejudicar a sua própria disciplina, destruindo uma razão importante para a existência e financiamento de departamentos de filosofia tal como hoje existem e com a dimensão que têm.

A situação é um embaraço e pêras para o campo da filosofia. Ficou famosa a afirmação de Kant de que é “um escândalo para a filosofia” ter de “pressupor, meramente como artigo de fé, a existência de coisas externas a nós próprios, e ser incapaz de opor uma prova satisfatória a quem o puser em questão”. Mas publicitar publicamente que a filosofia consegue melhorar imenso o pensamento das pessoas é em alguns aspectos um escândalo ainda maior. Pois neste caso não há uma indicação clara de que os filósofos estejam sequer cientes de que a sua promessa é um mero artigo de fé. Aparentemente não sentem qualquer necessidade de fornecer provas de que conseguem alcançar o fim que professam ou de que conseguem ultrapassar as inúmeras dificuldades que preocupam os especialistas em educação. Dos vinte melhores departamentos de filosofia (segundo o conhecido Philosophical Gourmet Report), dezassete fazem afirmações sem fundamento acerca dos efeitos práticos importantes de estudar filosofia. Parece que a doença chegou a um estádio avançado.

Há aqui também um problema moral. Com vários departamentos e associações principais de filosofia a assegurar-nos repetidamente que quem estuda filosofia fica a pensar muito melhor, muitos estudantes podem concluir que mesmo um imenso investimento em dinheiro e tempo neste tipo de aperfeiçoamento pessoal acabará por valer a pena. Se depois isso não acontecer estas pessoas terão sido prejudicadas de um modo que poderia ter sido facilmente antecipado.

Isto leva-nos de novo à companhia que vende o produto X, mencionada no início do artigo. O exemplo não era fictício. O nome da companhia é Lumosity e na verdade publicitou que os seus jogos de “treino cerebral” têm o efeito de combater a perda de memória e a demência. A Comissão Federal do Comércio (CFC) não ficou satisfeita com as provas dadas a favor desta afirmação e consequentemente acusou a Lumosity de “publicidade enganosa”.

A CFC explicou-se melhor: “A Lumosity alimentou-se do medo dos consumidores quanto ao declínio cognitivo relacionado com a idade, sugerindo que os seus jogos poderiam combater a perda de memória, a demência e até a doença de Alzheimer. Mas a Lumosity não tinha pura e simplesmente qualquer ciência que apoiasse os seus anúncios publicitários”. O caso foi resolvido com uma concórdia de que quaisquer afirmações que de futuro fossem feitas sobre a eficácia dos produtos da Lumosity teriam de se basear em testes humanos clínicos que “sejam 1) aleatórios, adequadamente controlados e cegos, tanto quanto for praticável; e 2) que sejam feitos por investigadores qualificados com formação e experiência na condução desse tipo de testes”.

Pergunta: se a Lumosity teve estes problemas legais devido às parcas provas que ofereceu em apoio da eficácia dos seus jogos para treinar o cérebro, poderiam então os departamentos de filosofia ser também acusados numa base semelhante, nomeadamente que as suas práticas de “treino mental” também violam as leis da “verdade na publicidade” porque não têm apoio em provas científicas apropriadas? É difícil dar uma resposta resoluta sem uma exploração mais detalhada, mas os dois casos têm realmente semelhanças preocupantes.

Neven Sesardic
Publicado na Quillette (1 de Julho de 2017)