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27 de Dezembro de 2023   História da filosofia

Daniel C. Dennett

Andrew Brook
Tradução de Desidério Murcho

Daniel Clement Dennett (n. 1942) obteve o seu primeiro grau académico em Harvard onde, como conta em Brainchildren (1998), resistiu vigorosamente ao mais influente filósofo americano do século XX: Williard van Orman Quine. Fez depois um D. Phil. em Oxford em apenas dois anos, terminando em 1966, sob orientação de Gilbert Ryle, o mais influente filósofo de Oxford do seu tempo.

O seu primeiro livro foi Content and Consciousness (1969). Estas duas palavras, conteúdo e consciência, resumem grande parte da missão de Dennett. Conteúdo refere-se aos conteúdos da mente — todas as crenças, desejos, valores, emoções, esperanças, expectativas, memórias, e assim por diante, que fazem parte da mente. Consciência refere-se, claro, à consciência. Do ponto de vista de Dennett, a ordem correcta para examinar estes tópicos começa pelo conteúdo, passando depois à consciência. O projecto central de Dennett já era claro neste livro: o projecto de “naturalizar a mente”. Trata-se de mostrar que a mente e a consciência são simplesmente aspectos do cérebro e do comportamento, tão abertos à investigação da psicologia cognitiva e da neurociência como outros aspectos da cognição. Dennett nunca abandonou este compromisso.

Conteúdo

O livro seguinte de Dennett foi uma colectânea de ensaios, Brainstorms, escritos na década de setenta. Esta obra ajudou a lançar uma iniciativa editorial única, a Bradford Books. Fundada por Harry e Betty Stanton e depois absorvida pela MIT Press, tornou-se uma das mais importantes séries de livros de filosofia da mente e de ciência cognitiva em língua inglesa.

Brainstorms começa com a primeira articulação da abordagem distintiva de Dennett ao conteúdo mental, a abordagem a que chama “postura intencional”. Segundo Dennett, podemos abordar uma coisa qualquer, para explicá-la, partindo de três posturas: a física, a do desígnio e a intencional. Cada qual tem as suas próprias vantagens e custos, mas nenhuma descreve a realidade de uma única perspectiva correcta.

Depois de organizar, com Douglas Hofstadter, uma cativante colectânea de obras de outros autores sobre a mente, The Mind’s I (1981), Dennett voltou-se então para o tema da tomada de decisões e a responsabilidade, num idiossincrático livrinho chamado Elbow Room: The Varieties of Free Will Worth Wanting (1984). A génese do livro são as Palestras John Locke de Oxford, e expõe um compatibilismo vigoroso entre decisões causalmente determinadas e decisões livres de maneira que “valha a pena querer”. Curiosamente, voltou ao tópico do livre-arbítrio quase vinte anos depois, em Freedom Evolves (2003).

O ano de 1987 viu a publicação da sua segunda grande colectânea de ensaios sobre o conteúdo, The Intentional Stance. Os ensaios da colectânea são provavelmente os mais influentes que Dennett escreveu. Quase no fim da colectânea estão dois ensaios sobre teoria da evolução, um tópico que haveria de ter bastante peso no seu pensamento dos anos noventa.

O trabalho de Dennett sobre conteúdo mental levou-o a questões sobre tópicos como o conteúdo artificial (inteligência artificial), a evolução do conteúdo, a relação do conteúdo com o ambiente e o cérebro (neurociência), o conteúdo em não-humanos (etologia cognitiva), a natureza da explicação em psicologia e na ciência em geral, o modo como o conteúdo é representado e os diferentes estilos de representação mental, a relação das representações com o cérebro, e como descrevemos o conteúdo mental para nós e para os outros.

Consciência

Dennett virou-se então para a consciência, e o que se seguiu foi um livro volumoso, Consciousness Explained (1991). Pela primeira vez, Dennett escreveu um livro deliberadamente para o grande público (não seria o último). Dennett expôs métodos para estudar a consciência, construiu um modelo de consciência como sistema cognitivo, e discutiu a natureza da introspecção (a consciência que temos de nós e dos nossos próprios estados mentais). Considerou como terá a consciência evoluído, as patologias da consciência como o transtorno dissociativo de identidade (a antiga perturbação de personalidade múltipla), se há alguma diferença real entre a maneira como um estado mental funciona em nós e como o sentimos (o que os filósofos chamam qualia ou qualidade percepcionada), o que poderá ser o eu, a efectivação neural da consciência, e assim por diante — praticamente todas as questões que dizem respeito à consciência.

Este livro tem dois alvos principais. Um deles é a imagem dos estados conscientes que a tradição recebeu de Descartes. Trata-se da ideia de que há algo num estado consciente, uma qualidade percepcionada, que é inequivocamente clara e claramente diferente de tudo o mais no mundo. O outro é o que Dennett chama “o teatro cartesiano”, a ideia de que o sistema consciente é uma espécie de ecrã no qual os estados conscientes são exibidos a um pequenino homúnculo que se senta no meio da sala de cinema. Para substituir esses dois papéis da perspectiva cartesiana, Dennett propôs aquilo a que chama “Modelo de Múltiplos Rascunhos” (MMR) da consciência. O MMR trata a consciência como um tipo de conteúdo mental, quase uma questão de programação.

De seguida, Dennett escreveu um livro de menores dimensões, combinando os dois lados do seu trabalho: Kinds of Minds (1996). Deitou-se então a uma tarefa que o esperava há muito tempo: a teoria da evolução. Darwin’s Dangerous Idea (1995) foi também publicado como livro popular e teve também um imenso sucesso. Dennett defende duas teses principais neste livro: 1) A teoria da evolução de Darwin é um “ácido universal” que dissolve todo o tipo de “guindastes celestes” e de outros adereços pseudocientíficos que os filósofos (e não só) sonharam para remendar teorias sem futuro; 2) Contudo, ao contrário de quem vê Darwin como o destruidor de toda a moralidade, a teoria da evolução deixa intacta uma abordagem perfeitamente satisfatória da moralidade e da filosofia política: o liberalismo ocidental tradicional. Uma das teses mais importantes introduzidas neste livro é que é a linguagem que torna possível que tenhamos o nosso tipo de mente, um tipo de mente que, ao ser capaz de cooperar com outros animais e de registar os resultados dessa cooperação para que os outros construam algo a partir deles, pode descobrir a física do Universo, encontrar curas para doenças sérias, fazer o telescópio Hubble e o Canal da Mancha, e assim por diante.

O livro suscitou um debate tempestuoso com Steven Jay Gould, entre outros, na New York Review of Books em 1997. Gould insistiu que Dennett expõe uma posição ultra-adaptacionista, atribuindo à selecção natural (a selecção com base na sobrevivência e capacidade reprodutiva) mudanças no interior das espécies, em detrimento de quase todas as outras fontes de mudança ao longo do tempo, como mudanças cataclísmicas de clima e esgotamento de habitats. Apesar do calor que o debate gerou (e alguma linguagem espantosamente imprópria entre colegas), com a passagem do tempo parece agora claro que são muito mais os elementos de concordância entre ambos do que de discordância.

Em finais da década de noventa, Dennett publicou outra colectânea de ensaios, Brainchildren (1998), um leque espantosamente diversificado de trabalhos, na sua maior parte sobre a consciência e a inteligência artificial. O seu livro mais recente é Freedom Evolves (2003). De momento, Dennett encontra-se a trabalhar num livro sobre religião.1 O contributo de Dennett tem muitas facetas, mas uma das mais importantes é a maneira como põe em questão as ortodoxias. Mostra com mestria o que está errado nos pontos de vista contrários aos seus. Uma das suas técnicas mais características é ir atrás de ideias confortáveis com aquilo a que chama “sondas de intuição”. Eis um exemplo, o caso de Mr. Chase e Mr. Sanborn:

Mr. Chase e Mr. Sanborn costumavam gostar de um certo café. Mais recentemente, esse café perdeu a atracção que tinha. As razões que oferecem parecem marcadamente diferentes. Chase: “O sabor do café não mudou, mas já não gosto muito daquele sabor, simplesmente”. Sanborn: “Não, não, estás bem enganado. Eu gostaria ainda daquele sabor, como sempre. O problema é que o café já não tem esse sabor”. (Reconstruído de Dennett 1988, p. 50)

O alvo de Dennett é a ideia de que há sempre uma distinção clara entre um estado consciente, neste caso o sabor que uma coisa tem para nós, e a maneira como reagimos. Quando lemos o caso de Mr. Chase e Mr. Sanborn, devemos supostamente dizer com os nossos botões “Hum, talvez a distinção não seja afinal assim tão clara”. Devemos então ver que há dúvidas semelhantes por todo o lado.

Marinheiro exímio de alto-mar, além de pianista e corista bem sucedido, Dennett está longe da reforma. Além da prolífica autoria de livros, escreveu uma média de dez ensaios por ano durante trinta e cinco anos. Deu aulas na Universidade de Tufts durante mais de trinta anos.2

Andrew Brook
Encyclopedia of Philosophy, ed. Donald M. Borchert (Macmillan Reference, 2006), Vol. II, pp. 710–712.

Bibliografia

Obras de Dennett

Obras sobre Dennett

Notas

  1. Publicado em 2006 com o título Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon. N. do T. ↩︎
  2. Além de outros livros em co-autoria, Dennett publicou três livros desde que este artigo foi escrito: Intuition Pumps And Other Tools for Thinking (2013), From Bacteria to Bach and Back: The Evolution of Minds (2017; há tradução portuguesa) e I’ve Been Thinking (2023). N. do T. ↩︎
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ISSN 1749-8457